Crítica: Caligari!

Filme de 1920 ganha releitura em HQ de artista gráfico brasileiro

caaaali

“Há algo de assustador entre nós”, diz, em dado momento, lá pela metade do livro, como quem pede socorro, um temeroso Francis para os policiais do vilarejo de Holstenwall. O personagem, que no caso se refere às mortes em série que vem assombrando o local onde mora, bem que poderia estar falando de ‘Caligari!’, a nova obra do artista gráfico Alexandre Teles, que adapta para a linguagem das histórias em quadrinhos um dos filmes marcos do expressionismo alemão, ‘O Gabinete do Dr. Caligari’.

Dirigido por Robert Wiene, a obra original narra, através dos flashbacks de Francis, a tragédia que se abateu na cidadezinha localizada na região montanhosa da Alemanha após a chegada do Dr. Caligari e seu médium sonâmbulo Cesare. Com o decorrer da estadia da dupla, pessoas morrem e as suspeitas recaem sobre os dois.

Quem nunca assistiu ao filme, desculpa pelo spoiler centenário; mas quem já viu, sabe que toda a trama é fruto da imaginação de Francis, que é um jovem interno de uma instituição psiquiátrica dirigida pelo Dr. Caligari. O plot twist, de acordo com Alexandre Teles, a qual ele chama de ‘história-moldura’, e que foi deixado de lado no seu livro, não constava no roteiro original escrito por Hans Janowitz e Carl Mayer e foi adicionado por Wiene no intuito de glorificar a autoridade – personificada na imagem do bom doutor – e condenar como loucos aqueles que vão contra ela.

caligari 3

Logo, o que temos nesta obra recém-lançada pela editora Veneta, não é mais a história de um jovem louco, mas sim de um maligno doutor que controla o sonâmbulo Cesare para cometer atos de violência injustificáveis; o que, nas palavras do artista gráfico, representa “o símbolo do homem comum que se deixa hipnotizar pela propaganda governamental, perde a própria vontade e, sob a pressão do serviço militar compulsório, é treinado para matar”.

Em termos de contextualização histórica, vale ressaltar que o filme, lançado em 1920, faz parte de um dos mais importantes movimentos cinematográficos, influenciando desde Alfred Hitchcock a Tim Burton e servindo de base para o cinema noir norte-americano. Surgido em 1918, fruto da paranoia, do extremo pessimismo social e da descrença no avanço tecnológico que reinava no período de derrota pós 1ª Guerra Mundial, o expressionismo alemão deu vida a um dos visuais mais icônicos que o mundo já viu.

O branco no preto

Utilizando-se desta imagética marcante do movimento, dotada de um forte contraste entre luz e sombras e da ambientação cenográfica trabalhada na geometria do absurdo, Alexandre Teles recriou, com total respeito ao original, a atmosfera e a ‘fotografia teatral’ de ‘O Gabinete do Dr. Caligari’ ao longo de seus 600 quadros.

O toque autoral, portanto, ficou por conta da técnica utilizada pelo artista: a monotipia à maneira negra. O trabalho artesanal de tiragem única, que, segundo o autor, durou cerca de quatro anos, consiste em uma superfície lisa de metal pintada de preto que recebe o ‘desenho’ conforme a tinta vai sendo removida. Aqui, contudo, cabe uma única ressalva. Por conta da técnica, que trabalha apenas com branco e preto, e do material original no qual se baseia, calcado no chiaroscuro, alguns detalhes das cenas se perdem na transposição para o papel, tornando-as – por que não, propositalmente – confusas.

Nestes momentos, sem contar com balões de fala ou recordatórios que o situem, afinal trata-se de uma obra ‘muda’, o leitor se vê diante de três opções: recorrer a uma versão remasterizada do filme e ver o que se passa; fazer um exercício mental de imaginação e preencher os negros vazios; ou se entregar à escuridão.

“Quando as sombras ficam mais escuras…”

caligari 1A frase acima, que antecede uma cena de tentativa de assassinato, bem como a citação que abre este texto, conversam muito com o ‘Caligari!’ de Alexandre. Pois, o pouco que se perde em detalhes, ganha-se muito na atmosfera sombria e assustadora da obra. Tido como um dos primeiros filmes de terror e pioneiro no thriller psicológico, o livro eleva, ao mesmo tempo em que propõe uma releitura, a ambiência proposta pelo longa.

‘Descascando’ da tela negra as camadas do mundo de Caligari e companhia, Alexandre desvela um cenário no qual, quadro após quadro, o leitor vai se afundando em uma (sur)realidade feita de linhas tortas, sombras hiperprojetadas e feições e formas que se transmutam. São imagens que, assim como qualquer boa mídia fria que se preze, por requererem uma segunda e terceira olhada, acabam se fixando no inconsciente do leitor, como um pesadelo.

Gostou da matéria? Que tal compartilhar nas redes sociais? Aproveita e se inscreva na nossa página do Facebook e siga-nos no Instagram.

AVALIAÇÃO
Título Original: Caligari!
Autor: Alexandre Teles
País: Brasil
Editora: Veneta
Formato: brochura/preto e branco
Páginas: 336
Tiago Melo
Jornalista 'caboquinho' que mal consegue sustentar seus vícios em cinema, HQs/mangás, livros, games e bonequinhos