Crítica: A Lei da Noite

Bonito e estiloso, novo filme de Ben Affleck acerta no visual

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Ben Affleck vinha galgando, desde sua retomada em 2012, o que parecia ser a escadaria para um posto respeitável no meio cinematográfico. A evolução começou bem, com ‘Argo’, no qual o artista acumulou as funções de produtor, ator e diretor e o filme levou três estatuetas do Oscar, e continuou firme, em 2014, quando Affleck atuou na medida certa sob a batuta de David Fincher, em ‘A Garota Exemplar’. Mais recentemente, ele se destacou como um dos pontos positivos de ‘BvS: A Origem da Justiça’. Tudo parecia bem. Mas eis que surge ‘A Lei da Noite’ e, como disse, “vinha galgando”. Pretérito imperfeito.

Situado em Boston, o filme segue a vida de Joe Coughlin, um ladrão que se tornou o maior vendedor de rum da Costa do Golfo durante a década de 1920, período da Lei Seca americana, época em que a produção, distribuição e venda de bebidas alcoólicas era completamente proibida. Dessa vez, além de protagonizar, dirigir e produzir (e narrar) o filme, Affleck também cuidou do roteiro. Ou seja, não há escapatória para ele, posto que não há como falar da criatura sem que as críticas recaiam sobre seu criador.

Adaptado do livro ‘Os Filhos da Noite’, de Dennis Lehane, o Affleck-roteirista apresenta uma história que se desenrola tão sofridamente quanto uma vítima que, atingida por uma saraivada de balas de um dos gangsteres do próprio filme, se arrasta no asfalto, ensanguentada em busca de ajuda. As balas, claro, são os clichês, que, repetidos à exaustão na tentativa de injetar um pouco mais de vida ao filme, acabam apenas por deixá-lo mais ‘morto’ aos olhos do espectador. Nessa jornada, nem os rompantes de violência em meio à calmaria, apagam do filme a letargia monocórdica de Ben Affleck.

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Ao contar a violenta história de Joe, um ex-combatente da 1ª Guerra Mundial que volta para a casa como um fora da lei que tenta ascender no mundo do crime, o Affleck-diretor apresenta um lado romântico não tão comum em filmes sobre criminosos. Sem entrar em maiores detalhes, basta dizer que é o amor por uma mulher que leva Joe à derrocada. Após ressurgir, o protagonista, não satisfeito, se envolve com uma segunda mulher e, assim, num ritmo trôpego, caminha a humanidade em ‘A Lei da Noite’: à base de balas, romance e muitas, mas muitas frases de efeito que, a exemplo das chantagens que movem a trama, vem de todos os lados.

Como quem diz que “os brutos também amam”, Affleck tenta, na melhor das intenções, humanizar o personagem pelo viés de um amor mais intrapessoal e carnal, que não seja o da famiglia. A tentativa de dar novos ares a um gênero, já tão bem representado nas telonas pelas mãos de verdadeiros mestres (‘O Poderoso Chefão’, ‘Os Intocáveis’ e ‘Os Bons Companheiros’), apesar de bem-vinda, morre ao não encontrar a empatia do público; tudo por causa de seu maior obstáculo: o talento do Affleck-ator, que não convence como um mafioso galã. O resultado, como de costume, em seus papéis mais antigos, desaba para a canastrice.

Grande na altura, mas diminuto na atuação, Affleck-ator possui certa limitação quando o quesito é demonstrar certas emoções. Mais uma vez em cena com sua famosa cara de cachorro-abandonado, que o fez querido nas comédias românticas, o ator falha ao alcançar as notas mais difíceis do personagem, como a alegria de encontrar um grande amor, a revolta de ter-se descoberto traído ou o desespero ao perder alguém querido. Focado na jornada de Joe, o filme dá pouco espaço e tempo para os personagens secundários brilharem mais sob as interpretações acertadas de Chris Cooper, Sienna Miller, Zoe Saldana, Brendan Gleeson e Elle Fanning.

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O que resta, por fim, é o acerto do Affleck-produtor em entregar, ao menos, uma peça esteticamente interessante e estilosa, que guia o espectador ao longo de dois momentos distintos. Em primeira instância, tem-se a fria e cínica Boston, em seguida, a trama migra para a calorosa Tampa, onde os sonhos do american way of life são alcançados com a ajuda milagrosa do álcool proibido.

E é na construção e na transição dessas atmosferas, que as qualidades do filme trabalham em uníssono: a trilha sonora (do jazz para a salsa), a fotografia (do azul para o laranja), o figurino e a direção de arte (dos pesados sobretudos pretos no asfalto aos ternos de flanela nas ruas ensolaradas de terra batida).  Em suma, um filme ‘bonitinho, mas ordinário’.

Tiago Melo
Jornalista ‘caboquinho’ que mal consegue sustentar seus vícios em cinema, HQs/mangás, livros, games e bonequinhos

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