Crítica: Moonlight – Sob a Luz do Luar

O grande filme de 2016 finalmente chega aos cinemas brasileiros

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Chega um momento em que você precisa decidir por si mesmo quem você vai ser. Não dá pra deixar que tomem essa decisão por você.” Essa palavras de sabedoria, proferidas por um personagem no ato inicial do filme, estabelecem o tom e o tema dessa belíssima obra. Mas será que, quando se vive à margem da sociedade e do que é normativo, existe uma real possibilidade de escolha?

O filme acompanha a vida de Chiron (ou Little, para os mais íntimos), um jovem negro morador da periferia de Miami, em três momentos distintos de sua vida, começando por sua infância marcada pelo bullying e pela amizade improvável com Juan, um traficante de crack que acaba se tornando uma figura paterna para o garoto. O segundo momento é a adolescência, na qual o garoto começa a descobrir sua sexualidade ao mesmo tempo que continua lidando com bullies cada vez mais agressivos, além dos crescentes problemas de convívio com sua mãe. O terço final nos mostra um Chiron adulto com profundas cicatrizes emocionais.

Dirigido por Barry Jenkins (esse é apenas seu segundo longa-metragem), “Moonlight: Sob a Luz do Luar” é a adaptação da peça semi-biográfica In Moonlight Black Boys Look Blue (tradução livre: sob a luz do luar garotos negros parecem azuis). É possível traçar um paralelo entre o longa e “Boyhood – Da Infância à Juventude”, afinal ambos são recortes da vida de um garoto, mas enquanto Richard Linklater decidiu adotar um tom praticamente documental durante todo o seu filme de 2014, Jenkins vai por outro caminho, optando por mesclar momento naturalistas com outros mais poéticos e quase oníricos, evitando que o filme se torne maçante ou cansativo.

Fotografado de maneira excepcional por James Laxton, a produção enche os olhos do espectador com suas cores fortes e alto nível de contraste, contribuindo para que o filme pareça, em momentos distintos, com um sonho ou um pesadelo, de acordo com a necessidade da trama.

Similarmente, o time dos atores é impecável. As três versões de Chiron chamam a atenção pelo grau de realismo de suas respectivas atuações, do olhar curioso e inocente do pequeno Alex Hibbert, passando pela turbilhão de emoções reprimidas do jovem Ashton Sanders e chegando à dureza hesitante de Trevante Rhodes. Naomie Harris entrega uma atuação visceral no papel Paula, a mãe do garoto. O grande destaque, no entanto, é a participação de Mahershala Ali, no papel de Juan, numa performance contida, mas cheia de nuances.

“Moonlight: Sob a Luz do Luar” certamente não é um filme que irá agradar a todos. É possível prever que muitos dirão se tratar de um filme onde “nada acontece”, mas essas pessoas estão muito enganadas. Muito acontece, o tempo todo, em cada olhar, cada silêncio, cada momento, basta estar emocionalmente disposto a se conectar à película. Estamos diante de um dos grandes filmes dessa década e que será certamente lembrado tanto por suas virtudes técnicas quanto por sua abordagem madura sobre questões de raça, sexo e identidade.

Avaliação
Título Original: Moonlight
País: EUA
Duração: 1h51min
Lançamento: 23/02/2017
Direção: Barry Jenkins
Roteiro: Barry Jenkins
Elenco: Alex Hibbert, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Naomie Harris, Mahershala Ali
Distribuído no Brasil por: Diamond Films
Andre Descrovi
Professor de inglês.
Connoisseur de séries.
Gamer declaradamente Sonysta.
Apreciador dos mais variados tipos de filmes, mas com uma queda acentuada pelos sombrios.
93 é o sentido da vida.
  • Marta Ferreira

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