Dica de Filme: A Bruxa

A Bruxa é um grande e definitivo filme de terror, para quem realmente gosta do gênero. Daquelas obras que marcam na carne e corrompem a alma.

Arrebatado de cara pelo primeiro teaser, depois pelos trailers, eu esperava por um filme de “sugestão” (como o ótimo Bruxa de Blair, onde o horror é sugerido, não mostrado, mas o conceito permanece na atmosfera — The Babadook também se encaixa no perfil). Não foi o que vi. A sugestão existe, mas em outra camada e mais explícita, ainda que coberta de sombras e dúvidas. A Bruxa opta por caminhos mais difíceis e mesmo assim entrega um baita terror, num sentido mais bruto e ancestral da palavra, do tipo de filme do gênero que ninguém mais se atreveu a fazer nos últimos 20 anos ou mais. Ele até carrega esse clima de antigo, não só na ambientação da trama (em uma colônia da Nova Inglaterra no século XVII) ou no exemplar figurino, mas também na fotografia escura e com pouca saturação, alternando interiores claustrofóbicos da casa em construção, sempre parcialmente cobertos pela fumaça das velas, e a suposta liberdade da clareira aberta, até as tomadas insólitas da floresta.

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A história mostra o que é necessário sem nunca cair nos sustos fáceis, então nada de aparições abruptas no canto oculto da tela, ou visões suspeitas de algo disforme. Não, não. A Bruxa te soca no estômago, cospe na sua cara e não precisa recorrer a nojeira para ser terrível e incômodo. Por isso, se você é fã daquela porcaria de franquia de Jogos Mortais (onde só o primeiro é um primor e o restante uma vergonha alheia), do péssimo A Colina Escarlate (cheio de clichês e nenhum susto), ou acha que bonecos assassinos e serial-killers adolescentes são o “verdadeiro terror” (esses eu até adoro, mas mais num sentido blockbuster da palavra), então talvez A Bruxa não seja pra você. Este filme também não é primo da Bruxa de Blair nem de O Exorcista, como a mídia tentou erroneamente vender. A obra quase se aproxima de O Iluminado ao elevar o terror psicológico (a família que vai se destruindo aos poucos no meio da paranoia) com a criatura real (mas só vendo para entender). O detalhe de acusar uma inocente como óbvia culpada, nos remete ainda ao As Bruxas de Salem. Anti-Cristo seria o irmão da obra no comparativo, ainda. Só que aqui o buraco é mais embaixo e não existe maneira de escalar para luz novamente.

Banidos da plantação onde viviam depois de um julgamento, os puritanos William (o excelente Ralph Ineson) e Katherine (a perturbada Kate Dickie) partem em direção ao interior inóspito da região levando seus filhos e poucos pertences. A clareira às margens de uma floresta onde se estabelecem, porém, não demora a dar sinais de que há uma força sombria trabalhando no local, especialmente quando a filha mais velha, Thomasin (a belíssima e promissora Anya Taylor-Joy), perde o bebê da família inexplicavelmente. Outros sinais vêm a seguir, envolvendo os insuportáveis gêmeos Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson), além do filho do meio Caleb (Harvey Scrimshaw merecia um Oscar de Ator Coadjuvante, sério), determinado a ajudar seus pais durante sua provação.

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Mark Korven também é assombroso na execução da trilha sonora, criando uma atmosfera perturbadora e claustrofóbica que vai te abraçar com intuito de sufocá-lo e levá-lo para dentro do filme, onde nem mesmo o dia parece servir como alívio durante a história. A ameaça do local, que nunca deveria ter sido profanado pela visita cristã, é presente, seja na intenção da atmosfera, nos olhares de visões que nunca alcançamos, na figura de animais (como um insuspeito coelho, e um bode que você deveria ficar de olho) ou na presença literal do “mal”. E como os bons suspenses psicológicos, a fonte de conflito é essencialmente humana.

Os próximos filmes de terror terão de suar muita a camisa para superar essa obra-prima definitiva, estejam certos disso. Robert Eggers não só nos fornece um grande filme de terror, como também de horror na essência, e se aproxima do filme de arte em níveis elevados. Sem entregar soluções fáceis, o desfecho porém opta por uma escolha conclusiva sem sombra de dúvidas, ainda que mistérios não sejam o mote dessa premissa. A trama não é didática, felizmente, e não para pra te explicar nada, e se conta sozinha, de maneira eficaz.

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Este filme segue com uma tensão crescente, e quando o terror aparece, ele chega pra valer. E não perdoa nada, nem vocês, nem eu. O bode bali, o corvo crocita e nenhum berro pode mais nos salvar.

A Bruxa não vai te fazer saltar da cadeira.
Vai te prender a ela.

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