Dica de Filme: Corrente do Mal

O sexo como punição em um slasher movie criativo e tenso

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Poucos filmes de terror são bons o suficiente para sobreviver ao público e sustentar o gênero, mas Corrente do Mal (It Follows, 2014) conquista isso com originalidade, embutindo em um slasher movie um tipo de tensão que não se via há décadas nas películas.

Usando e abusando de travellings laterais e zooms para gerar angústia, o diretor David Robert Mitchell compõe uma obra singular e única, dando novo fôlego pro terror indie, sem precisar de muitos recursos. E já nos fisga nos primeiros segundos, mostrando uma cena de uma pessoa que acha que está sendo seguida, para depois mostrar o que sobrou dela. Com isso, o público é conquistado para seguir adiante, preso na poltrona de tanta tensão.

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É na cidade-túmulo de Detroit que essa história se constrói, mostrando o cotidiano da protagonista Jay, sua irmã e amigos, em uma típica rotina de subúrbio americano. Eles assistem a filmes B antigos na TV (o terror de ficção científica dos anos 40) e no cinema como se isso fosse normal hoje em dia entre os jovens, ao mesmo tempo em que um dos personagens possui um smartphone modernoso, o que mostra que algo não se encaixa verdadeiramente nisso tudo — não que importe, claro, afinal o cenário abandonado e sem adultos relevantes, é apenas o palco para o mote principal.

O resumo da estranheza fantástica é o seguinte: Jay transa com Hugh, seu ficante, e descobre que caiu numa cilada: o rapaz transmitiu a ela uma maldição; a garota será perseguida por uma entidade homicida, que adquire a forma de pessoas variadas, e será morta por essa criatura se não transar com outra pessoa e passar o mal adiante (por isso o título nacional é tão sensacional a sua maneira).

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O recurso serve também como ironia para o fim da virgindade, afinal o ato sexual sempre foi punido em filmes de terror (a cinessérie Pânico, todos os Sexta-Feira 13 e aí por diante, mas também não podemos esquecer o puritanismo de American Pie), e dá uma passo além, servindo ainda como metáfora para a AIDS.

Sutil e sem pressa, Mitchell conduz o filme com tomadas precisas, sempre carregadas de gravidade e algumas abertas a interpretação (como a possibilidade de um ménage num barco, ou da relação com as prostitutas se consumar), com decisões difíceis e uma regra simples de seguir, com um novo monstro pro terror moderno, bem-vindo em toda sua estranheza, sem maiores revelações. Pois entre vários acertos, o diretor também sabe respeitar a inteligência de seu público, sem explicar o que não precisa e pode ser interpretado.

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Ainda que tenha um clímax imbecil (não per se, mas pelo comportamento dos personagens, afinal são adolescentes, não se espera-se menos), o filme deixa sua assinatura no gênero e um tensão difícil de ser esquecida pelos próximos anos, muito bem-vinda por sinal.

Evitando os sustos fáceis e as saídas ligeiras, Corrente do Mal conquista méritos pelo roteiro inteligente, pela criatividade singular enquanto slasher movie, na execução de uma entidade improvável e aterrorizante em vários sentidos, e na construção de personagens humanos e, ainda que anacrônicos, nos transmitem toda a perdição que é viver uma juventude sem futuro. Filmaço.

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E você? O que achou do filme?

Douglas MCT
Douglas MCT já escreveu para os gibis da "Turma da Mônica", roteirizou o desenho animado "Galera Animal" da TV Globo, participou do enredo do game "Chico Bento" para as redes sociais, é autor dos quadrinhos “Edgar Alan Corvo”, "SUPER" e “Hansel&Gretel”, e dos livros "O Coletor de Almas" e da série "Necrópolis".

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