Resenha: As Brumas de Avalon

Marion Zimmer Bradley

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Sinopse: Grande clássico da literatura mundial retrata a mítica história do rei Artur a partir da perspectiva de mulheres mágicas e poderosas.
Por séculos, as lendas arturianas povoaram o imaginário de leitores de todo o mundo. As brumas de Avalon é considerado por muitos a versão literária definitiva do mito e muitas gerações de mulheres se deixaram arrebatar pela escrita envolvente de Marion Zimmer Bradley.
Pelos olhos de mulheres complexas e poderosas como Morgana das Fadas, Viviane, a Senhora do Lago, Igraine, Morgause e Gwenhwyfar, os reinos de Camelot e de Avalon são revisitados neste clássico, repleto de magia, sensibilidade e intrigas.
“Uma releitura monumental das lendas arturianas… Ler As brumas de Avalon é uma experiência profundamente tocante, e muitas vezes fantástica. Um resultado impressionante.”
“O enredo elaborado com maestria e a escrita maravilhosa de As brumas de Avalon jogam nova luz a antigos personagens, em especial Morgana das Fadas, Merlim, Lancelote e Gwenhwyfar. Um romance épico, com violência, ambição, lealdades dolorosas e feitiços assombrosos.”

Fonte: Amazon

Existem milhões de livros sobre As Lendas Arthurianas, mas o meu favorito é sem dúvida, As Brumas De Avalon.

Originalmente dividido em quatro livros, As Brumas de Avalon reconta a lenda do Rei Arthur, mas do ponto de vista das mulheres da vida dele.

Nós começamos a acompanhar a história do ponto de vista de Igraine, a futura mãe de Arthur, casada com o Duque da Cornualia e presa em uma situação comum as mulheres da época: um casamento arranjado, com um marido violento.

Uther Pendragon, o rei da Bretanha e futuro pai de Arthur, se apaixona perdidamente por Igraine e com a ajuda de Merlin, consegue passar uma noite com ela, assim gerando Arthur.

Assim que Arthur nasce ele é levado por Merlin para ser criado em uma família humilde e sem saber que ele é o futuro rei da Bretanha.

O segundo ponto de vista que acompanhamos é o de Morgana, a meia irmã de Arthur, que logo depois de Arthur, é levada para Avalon, para estudar e se tornar uma sacerdotisa. Em Avalon, também lemos a história do ponto de vista de Viviane, tia de Arthur e a Sacerdotisa mais poderosa de Avalon, que sabendo o futuro tanto quando Merlin é responsável por manipular os acontecimentos para que as coisas se realizem.

O quarto ponto de vista da série é o de Gwenhwyfar, esposa de Arthur, que leva como dote a famosa Távola Redonda e que na verdade, é apaixonada pelo melhor amigo de Arthur, Lancelot.

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Além das quatro protagonistas, o livro tem milhares de personagens e a maioria deles é muito interessante. Temos o próprio Arthur, que aqui é retratado de maneira bem diferente da que costumávamos ver. Enquanto na maioria das obras sobre ele, Arthur é forte e um grande cavaleiro, aqui ele aparece como um homem sensível e inteligente, que se ocupa mais em fazer estratégias do que da batalha em si.

Merlin(que inclusive é um titulo, não um nome próprio. O Merlin famoso, que todo mundo conhece chama Taliesin) que normalmente é retratado como um senhorzinho bonzinho, aqui aparece como uma pessoa um tanto quanto manipuladora que visa o bem estar do mundo, ao invés do bem estar das pessoas que ele conhece. Conhecemos também Morgause, a irmã mais nova de Igraine, que é egoísta e só pensa em dinheiro e Lancelot, que está o tempo todo dividido entre o seu amor pela rainha Gwenhwyfar e sua devoção(e amor) a Arthur.

A própria Marion Zimmer Bradley diz que a inspiração para escrever As Brumas de Avalon veio da sua infância, onde ela ouvia as lendas Arthurianas com freqüência, mas ela fez diferente de todos os outros autores que escreveram sobre o tema, Marion escreveu do ponto de vista feminino, que nunca tinha sido explorado antes. Ler a história desse ponto de vista quer dizer que praticamente não vemos batalhas físicas, mas vemos batalhas muito mais interessantes. Viviane é a sacerdotisa mais poderosa de Avalon e é responsável por mudanças significativas no mundo, Morgana está estudando para que um dia possa ficar no lugar de sua tia, Igraine enfrenta o dia a dia de uma mulher na idade media, forçada em um casamento sem amor e Gwenhwyfar é vista só como uma mulher bonita e intocável. Enquanto os homens batalham nos campos, as mulheres travam batalhas mais importantes e mais definitivas dentro de casa, que podem traçar o rumo do mundo tanto quanto(ou até mais) do que as guerras.

Por isso, não preciso nem dizer que o livro tem protagonistas femininas fortes e também tem fracas, porque o livro retrata vários tipos de mulheres, colocadas em diferentes situações. Zimmer Bradley fala muito claramente sobre a situação das mulheres na idade media e dos meios que elas usavam para conseguir poder. Embora, Arthur seja o rei, as mulheres da sua vida que o criaram e amaram, comandaram a sua vida e as suas decisões em muitos momentos.

A religião é mostrada em uma linha de tempo real

O livro também fala muito da chegada do cristianismo e de como as religiões pagãs e antigas começaram a desaparecer. Os habitantes de Avalon são pagãos e cultam A Deusa, enquanto boa parte das cortes da Bretanha são Cristãs e cultam um Deus e a relação entre as duas religiões é demonstrada de maneira bem clara na relação entre Morgana e Gwenhwyfar, as duas se odeiam e disputam o amor tanto de Arthur, quanto de Lancelot, mas precisam de tolerar muito em função desses dois homens. O livro também questiona se todas as religiões não tem a mesma origem e se a intolerância religiosa tem algum sentido, já que Arthut, o grande rei da Bretanha, tem uma origem pagã, mas aceita o cristianismo quando se torna rei.

A obra também aborda a homossexualidade, embora não de maneira muito clara. A relação de Arthur e Lancelot nunca fica muito clara, e em alguns momentos Zimmer Bradley insinua que existe muito mais do que devoção e amizade por parte de Lancelot.

Existem relatos da Lenda Arthuriana que são muito pautados na realidade, As Brumas de Avalon não é assim. A história usa de magia para contar a lenda e embora a gente nunca vá saber qual é a história real de Arthur(ou se existe uma história real), a versão desse livro é particularmente a minha favorita e também é a versão que fez eu me apaixonar pelas lendas a ponto de ler todos os livros sobre o assunto que caem na minha mão.

Antes de ler As Brumas de Avalon, eu só tinha tido contado com literatura infantil ou juvenil e uma coisa que me surpreendeu muito nesse livro é que os personagens não são só bons ou ruins, como acontece com freqüência na literatura voltada para crianças e adolescentes. Em As Brumas de Avalon os personagens agem de acordo com o interesse deles, mais ou menos como na vida real e isso torna os personagens desse livro extremamente realistas e humanos.

A leitura é extremamente fácil e prazerosa e você tem a sensação de que conhece aqueles personagens.

Marion Zimmer Bradley conseguiu transformar uma lenda que era repleta de protagonistas masculinas, em uma história profunda e tocante sobre mulheres, que mesmo que algumas vezes sejam personagens irritantes, desagradáveis e até más (ou fortes, inteligentes e interessantes) merece ser lida.

Fernanda Cavalcanti
Formada em cinema, apaixonada por literatura, divide seu tempo livre entre ler, escrever e dançar. Gosta especialmente de terror, mas lê/assiste de tudo. Também escreve para o blog Além da Toca do Coelho