Hellboy e o B.P.D.P. 1952, o vermelhão no Brasil

Publicada originalmente em cinco edições (aqui reunidas num único álbum), Hellboy e o B.P.D.P. 1952 é a primeira aventura de uma série criada para mostrar, ano após ano, as missões que transformaram Hellboy no maior investigador de ameaças sobrenaturais que o mundo conheceu, até atingir o ano de 1993, quando então ele se inaugurou oficialmente, com o icônico álbum Sementes da Destruição.

Na história, uma bizarra série de homicídios e rumores sobre um perigo sobrenatural aterrorizam um humilde povoado nas entranhas amazônicas. Por isso, o professor Trevor Bruttenholm decide enviar ao Brasil um pequeno grupo de investigadores que inclui, em sua primeira missão oficial, o jovem Hellboy. No entanto, aquela que seria uma operação corriqueira para o Bureau de Pesquisas e Defesa Paranormal, pode rapidamente se tornar catastrófica, não apenas porque a ameaça é muito mais tenebrosa do que eles imaginam, mas também porque o fantasma da traição assombra a própria equipe.

Contando com a colaboração de John Arcudi nos roteiros (que segue eventos vistos no ainda não lido B.P.D.P. Origens 1946-1947, mas sua importância é explicada logo no início deste álbum), e arte do renomado Alex Maleev, que acima de tudo é um grande fã do Mignolaverso, o criador consegue resgatar o tom mais pulp das histórias do vermelhão, vistas principalmente nas primeiras histórias do personagem, com vilões nazistas e até “monstros de Frankensteins do mal” a rodo.

Na composição de cenários e de cenas estáticas, Maleev brilha com seu traço singular, mas que ao mesmo tempo orna com o de Mike Mignola, ao respeitar as bases estilísticas que consagraram Hellboy nos quadrinhos. Claro que as cores do sempre formidável Dave Stewart são outros pontos fundamentais para essa familiaridade com a arte, num geral. Por outro lado, o artista peca em sequências de ação, deixando tudo muito rígido e pouco fluído, o que muitas vezes pode gerar confusão no leitor, mas nada que estrague o todo da obra.

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O roteiro é redondinho, com bom começo, meio e fim, ainda que o início seja engatilhado a partir dos eventos do álbum anterior, 1946-1947 e tenha um desfecho que se volta a uma referência disso, a trama é redonda e autossuficiente, com todos os elementos clássicos das narrativas das HQs do vermelhão.

É claro que eu gostaria muito mais de ter visto Mignola explorando o folclore brasileiro no enredo, mas não é o que acontece aqui (fora uma curiosa e interessante participação de duas figuras de nossa mitologia um tanto quanto desconhecidas, que surgem de maneira inesperada em certo momento da trama). Vilões e figuras mais clássicas desse universo meio que voltam à tona, apenas usando um vilarejo amazônico como base – cenário este pra lá de bem-vindo. Como o Brasil carece de castelos góticos (o que de qualquer maneira soaria forçado por aqui), o autor foi muito inventivo ao aproveitar um presídio colossal abandonado no meio da mata, inspirado em um que realmente existiu, e que fornece todos os ares necessários para algo do gênero, bem satisfatório.

Os personagens humanos também são eficientes no enredo, a começar por Richie, que faz um papel de tiozão muito parceiro do nosso protagonista, enquanto que os outros três equilibram bem o ponto de ação durante a missão, com suas personalidades bem verossímeis (e o traidor entre eles nem é um grande mistério da história, já que é revelado logo no início, colaborando assim para uma tensão maior no restante do desenvolvimento narrativo). Os coadjuvantes, um padre, uma velha e um garoto, também servem bem à trama, em conjunto com as criaturas que os agentes do B.P.D.P tem de enfrentar, culminando num clímax inesperado e muito bem executado.

É interessantíssimo ver essa outra dinâmica do Hellboy entre quadros aqui com 8 anos (mas lembre-se, ele é um demônio, portanto tem um tempo diferente do nosso e já é enorme nessa idade, mas ainda meio adolescente), e sendo esta sua primeira missão (fora a desventura que vive enquanto moleque no divertidíssimo O Circo da Meia-Noite), acaba sendo bem curioso notá-lo reticente em ver corpos desmembrados ou se relegado a ações de estagiário no meio de um caso maior. Ainda que ele prove seu valor (e sua força) no desfecho, essa outra vertente dele ajuda a aumentar a dimensão do que compreendemos do icônico protagonista, que ao final — e isso não é um spoiler–, faz valer a justificativa de “humano honorário”, fundamentando assim daqui pra frente em diante e pra sempre, sua aceitação monstruosa entre os humanos sem causar estranhamento.

Hellboy e o B.P.D.P. 1952

Mignola conseguiu expandir o universo de Hellboy voltando 50 anos no passado e revelando suas primeiras missões, quando ainda era jovem. E não poderia ter feito estreia melhor do que usando o Brasil como cenário.

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Douglas MCT

Douglas MCT já escreveu para os gibis da "Turma da Mônica", roteirizou o desenho animado "Galera Animal" da TV Globo, participou do enredo do game "Chico Bento" para as redes sociais, é autor dos quadrinhos “Edgar Alan Corvo”, "SUPER" e “Hansel&Gretel”, e dos livros "O Coletor de Almas" e da série "Necrópolis".

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