Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia

Em Stip, uma pequena cidade da Macedônia, sempre no mês de janeiro o padre local joga uma cruz de madeira no rio e centenas de homens mergulham atrás dela. Quem recuperar o objeto tem garantia de boa sorte e prosperidade. Porém, Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia. Desta vez, Petúnia mergulha na água por um capricho e consegue agarrar a cruz antes dos outros, deixando os concorrentes furiosos. Afinal, como ousa uma mulher participar do ritual? Todo o inferno se abre, mas Petúnia mantém o seu chão. Ela ganhou a cruz e não vai desistir.

Lugar quente e harmonioso é o útero, todavia, na ausência deste, foi criado um outro, um Paraíso, um retorno à inocência perdida. É sabido que a cosmogonia Judaico-Cristã criou uma metáfora para tentar explicar o sofrimento causado pelo conhecimento dos pares opostos (vida x morte; mal x bem; etc ) que fundamenta boa parte de nossas crenças e que, para fins didáticos, raramente é interpretado com os devidos cuidados.

Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia

Arrisquemo-nos. O pensamento é simples, lógico: quem nos trouxe ao mundo, a esse mundo cindido, corrompido, efêmero, desarmônico? Somos lançados para essa realidade através do útero, logo, a mulher, segundo tal crença, é a culpada por vivermos nesta realidade morredora e injusta, pois somos lançados para cá de dentro dela.

Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia

O mito do pecado original por meio de uma relação de causa e efeito explica essa realidade. Entretanto, por se tratar de uma cultura originalmente nômade, patriarcal, guerreira, eis a necessidade de criar um deus homem, guerreiro, sanguinário etc. Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia nos faz pensar e repensar o lugar da mulher em uma sociedade patriarcal regida pelos valores cristãos e, além disso, nos coloca diante de um machismo de raízes mitológicas…

O enredo é simples, porém não menos genial por isso. Inspirada por uma manifestação tradicional da Macedônia, a diretora e roteirista Teona Struga Mitevska, se colocou à frente do seu tempo ao prever o momento em que uma mulher, que está à margem desta tradição revisitada exclusivamente por homens, por um impulso e um desejo de realizar-se, quebra essa barreira e vence uma competição de tradição religiosa e masculina.

Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia

O choque entre tradição e modernidade é abordado de forma central no longa. Uma cruz é lançada de uma ponte em um rio por padres. Os participantes se lançam para encontrá-la. Aquele que encontrá-la terá um ano de sorte… Entretanto, Petúnia se jogou na água e pegou a cruz primeiro que todos, iniciando assim um confronto entre Ela e os homens; entre Ela e uma sociedade patriarcal e machista; ou seja, entre Ela e a tradição de seu povo; entre Ela e a instituição religiosa e, nada mais nada menos, entre Ela e a representação masculina da ira de Deus…

É um bom filme e, com cruz ou sem cruz, um ótimo 2020 para todos nós.
Por Jonas Santos

Deus é Mulher e Seu Nome é Petúnia

Nome Original: Gospod postoi, imeto i' e Petrunija
Direção: Teona Strugar Mitevska
Elenco: Zorica Nusheva, Labina Mitevska, Stefan Vujisic
Gênero: Drama
Produtora: Sister and Brother Mitevski
Distribuidora: Pandora Filmes
Ano de Lançamento: 2019
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