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Alias Grace, intrigante do começo ao fim

Outra grande obra adaptada de um livro de Margaret Atwood (agora mais famosa do que nunca, depois do sucesso de The Handmaid’s Tale), Vulgo Grace, narra a intrigante trama da empregada de 16 anos condenada pelo assassinato de um fazendeiro e sua governanta, no século XIX, no Canadá.

Independente do olhar apaixonado do Dr. Jordan, que conduz muito bem a narrativa de um psicólogo e sua paciente, e muito mais, entre ouvinte e narradora, temos aqui uma história onde a verdade não importa, nem se Grace Marks é realmente culpada ou não, já que as versões mudam o tempo todo, de acordo com o ponto de vista e mesmo em seus próprios monólogos. Não, o exercício aqui é outro.

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A começar por Sarah Gadon, uma das maiores atrizes de sua geração, rouba todas as cenas e é um espetáculo. À parte de sua beleza hipnotizante, é no seu olhar ora matreiro, ora ingênuo, mostrando 3 mulheres em uma, que reside a qualidade dessa minissérie, tão bem adaptada por Sarah Polley, que não cai no didatismo (portanto não nos subestima), nem toma o espectador pela mão, permitindo a atriz revelar várias facetas de uma mulher e abrir o debate do julgamento social como ponto focal do enredo.

Indo e voltando no tempo, sem nunca perder o fio da meada e se fazendo entender sem maiores complexidades, Alias Grace também acerta com um elenco inspirado, um andamento lento mas intrigante, um figurino vistoso e uma fotografia impressionante, onde a direção permeia os minimalismos e dá oportunidades aos closes certeiros, e nos espaços de reflexão entre uma contação e outra, que mostra momentos aparentemente irrelevantes, mas que verdadeiramente estão compondo a trama maior.

Sendo assim, o crime aqui é um pretexto para mostrar como a mulher é constantemente interpretada pelo olhar do outro, através de adjetivos como histérica, manipulável ou manipuladora, dependendo da situação e do interlocutor, a medida que a minissérie discute sobre o famigerado patriarcado, mais atual do que nunca, tocando ainda em temas como aborto, assédio, luta de classes e discriminação contra o imigrante no desenvolvimento das personagens secundárias, que de uma forma ou de outra compõem também a personalidade de Grace.

Sem se perder em grandes revelações ou em reviravoltas a cada desfecho de episódio, Alias Grace entrega personalidade, flerta com o horror, abre debates importantes sem cair na panfletagem barata e fornece uma história deliciosa de acompanhar, que prende do início ao fim. E quando termina, a experiência nos transforma. Quando os créditos sobem, voltamos ao mundo real, mas não mais como antes.

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Douglas MCT

Douglas MCT já escreveu para os gibis da "Turma da Mônica", roteirizou o desenho animado "Galera Animal" da TV Globo, participou do enredo do game "Chico Bento" para as redes sociais, é autor dos quadrinhos “Edgar Alan Corvo”, "SUPER" e “Hansel&Gretel”, e dos livros "O Coletor de Almas" e da série "Necrópolis".

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