Amor, Sublime Amor e as condições dos imigrantes

Amor, Sublime Amor é inspirado no musical West Side Story, que teve a sua primeira produção na Broadway em 1957. Mas o filme só entrou em cartaz em 1961.

Na Nova York dos anos 50, duas gangues diferentes, os Sharks, composta por porto-riquenhos e os Jets, composta por brancos de origem anglo-saxônica, vivem em guerra. Até que um ex-membro dos Jets, Tony (Richard Beymer) e a irmã do líder dos Sharks, Maria (Natalie Wood) se apaixonam.

Romeu e Julieta moderno

West Side Story é inspirado na peça clássica de Shakespeare, Romeu e Julieta. Na obra original, o casal de protagonistas não pode ficar junto porque suas famílias tem uma longa briga que nunca se resolve. Em Amor, Sublime Amor, Tony e Maria não podem ficar juntos em função das gangues da qual fazem parte.

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Tony e Maria se encontram

Claro que existe muito mais história nisso tudo. Maria é porto-riquenha, mais pobre que Tony, e sofre mais preconceito que ele, que é um americano branco. Inclusive entre os amigos dos dois. Anita (Rita Moreno), a cunhada de Maria, sabe do relacionamento dos dois e não faz um julgamento disso. Ela apenas aconselha Maria para tomar cuidado e para não confiar totalmente em Tony. Entretanto, os amigos de Tony, não aceitam Maria de jeito nenhum.

O preconceito é, sem dúvida nenhuma, mais forte de um dos lados. Embora os Sharks e os Jets vivam brigando o tempo todo, as provocações maiores são por parte dos Jets. Os Sharks apenas as respondem.

A ideia de usar uma peça tão antiga quanto Romeu e Julieta pode não necessariamente parecer uma boa. Mas a verdade é que ainda hoje se fazem adaptações do clássico. Já que a história, além de muito famosa, é universal. O que Amor, Sublime Amor faz muito bem é modernizar a trama e ainda dar contornos sociais para ela. O que na época do lançamento do musical era uma novidade.

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Uma das diversas cenas de dança do filme

Xenofobia

Os comportamentos das gangues que o filme apresenta são um ótimo exemplo de como funciona o preconceito contra imigrantes nos Estados Unidos. Afinal, metade dos personagens do filme é de porto-riquenhos vivendo em Nova York. Eles têm subempregos e moram nos piores lugares da cidade. Embora os Jets, que são americanos, não sejam exatamente ricos, é mais do que óbvio que eles sofrem muito menos preconceito que os Sharks.

A ideia de formar uma gangue, especialmente por parte dos Sharks, faz muito sentido. Uma vez que eles estão sozinhos, sem família, em um país que eles não conhecem e muitas vezes, nem conseguem falar a língua. Então, é natural que eles queiram estar próximos de pessoas da mesma nacionalidade e que compreendem o que eles sentem.

O que é estranho é o fato de nem eles, nem os Jets, quererem se misturar. Já que o relacionamento de Maria e Tony é condenado dos dois lados.

Rita Moreno como Anita
Rita Moreno como Anita

Embora o musical tenha sido escrito nos anos 50, e o filme tenha sido filmado nos anos 60, ele continua muito atual. A imigração sempre foi um problema para os americanos. E parece que nos últimos anos, o incômodo das pessoas em relação a isso aumentou ainda mais.

É surpreendente e assustador que esse filme se torne a cada ano mais atual. Amor, Sublime Amor se passa nos anos 50, mas poderia se passar nos dias de hoje, que talvez fizesse ainda mais sentido.

Os Jets e os Sharks se desafiam
Os Jets e os Sharks se desafiam

O sonho americano

É óbvio que os personagens porto-riquenhos que foram morar nos Estados Unidos, o fizeram porque buscavam uma vida melhor. E Amor, Sublime Amor também fala sobre isso.

Muitos deles falam sobre a ideia que tinham dos Estados Unidos quando estavam em Porto Rico. E da realidade que viram quando de fato chegaram a Nova York. A verdade é que morando nos Estados Unidos, eles continuam trabalhando muito (ou até mais), ganhando pouco e tendo poucos recursos.

A realidade em forma de música

A música America, cantada pelos Sharks, reflete com precisão a situação dos imigrantes nos Estados Unidos. As meninas do grupo falam sobre todas as vantagens que existem em viver em Nova York, enquanto os meninos respondem com todas as coisa negativas que vem com essas supostas vantagens.

Entre elas estão: buying on credit is so nice/one look at us and they charge twice (comprar em crédito é tão bom/uma olhada para gente e eles cobram o dobro); i have my own washing machine/what will you have though to keep clean? (eu tenho minha própria máquina de lavar/o que você tem para lavar?); i’ll get a terrace apartment/better get rid of your accent (eu vou conseguir um apartamento com varanda/melhor se livrar do seu sotaque); free to be anything you choose/free to wait tables and shine shoes (livre para ser qualquer coisa que você escolher/livre para servir mesas e encerar sapatos); e termina com life is all right in america/if you’re all white in america (a vida é ótima na América/se você é branco na América).

Tony e Maria
Tony e Maria

Os personagens do filme embarcaram em uma viagem em busca do sonho americano ainda crianças. E com a ideia de que iam prosperar em um país que não liga para eles e que só precisa dos imigrantes para fazerem as coisas que os nativos não querem. Mas para várias das meninas dos Sharks isso parece muito melhor do que viver na sua terra natal. A música deixa mais do que claro que um imigrante nos Estados Unidos não é nada mais do que um cidadão de segunda classe.

Aspectos técnicos de Amor, Sublime Amor

O filme é conhecido por suas extensas cenas de dança. Inclusive muitos dos acontecimentos dos filmes são retratados com cenas coreografadas. Um exemplo disso é uma das brigas entre as duas gangues.

As músicas usadas no filme são as mesmas do musical e foram compostas por Leonard Bernstein e Stephen Sondheim. Entre elas estão Maria, Toonigth, One Hand, One Heart, A Boy Like That, I Feel Pretty e claro, America.

Uma das fotos do ensaio West Side Story Revisited
Uma das fotos do ensaio West Side Story Revisited

O filme também tem atuações bem marcantes, como a de Natalie Wood no papel da mocinha Maria e Rita Moreno, no papel de Anita, que a rendeu um Oscar de melhor atriz coadjuvante.

No teatro

West Side Story ganhou sua primeira montagem no West End, em 1958, e teve revivals em 74, 84 e 98. Já na Broadway a peça voltou aos palcos em 60, 64, 80 e 2009. A montagem original, de 1958, ganhou dois Tonys (coreografia e cenário). West Side Story nunca ganhou uma montagem brasileira.

O filme foi indicado a 11 Oscars e ganhou 10, entre eles Diretor, Ator Coadjuvante (George Chakiris), Atriz Coadjuvante (Rita Moreno) e Melhor Filme, fazendo de Amor, Sublime Amor o filme musical com mais Oscars.

Cena do episódio de Glee que fez referência a Amor, Sublime Amor
Cena do episódio de Glee que fez referência a Amor, Sublime Amor
Sempre sendo relembrado

Mesmo tendo sido lançado há mais de 50 anos, Amor, Sublime Amor ainda é uma grande referência na cultura pop. Em 2009, o fotografo Mark Seliger fez uma sessão de fotos para a Vanity Fair, chamada West Side Story Revisited, que recriava cenas do filme. Entre os atores fotografados estavam Camilla Belle, Ben Barnes, Jennifer Lopez, Rodrigo Santoro, Chris Evans, Ashley Tisdale e Robert Pattinson.

O musical também ganhou sua homenagem em Glee, em alguns episódios da terceira temporada onde os personagens fizeram sua própria montagem de Amor, Sublime Amor. Além da série ter usado várias músicas da trilha sonora em outros episódios.

Amor, Sublime Amor também ganhou referências nas séries Curb Your Enthusiasm, Animaniacs e Tom e Jerry; e nos filmes Toy Story 3 (2010), As Apimentadas: Entrar Para Ganhar (2007) e no curta West Bank Story (2005), um musical que conta a história de um romance entre um judeu e uma palestina. Também existe um boato de que o filme logo vai ganhar um remake, dirigido por Steven Spielberg.

Amor, Sublime Amor é um musical extremamente bem executado, que é cada vez mais atual.

Fernanda Cavalcanti

Formada em cinema, apaixonada por literatura, divide seu tempo livre entre ler, escrever e dançar. Gosta especialmente de terror, mas lê/assiste de tudo. Também escreve para o blog Além da Toca do Coelho.

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