As Virgens Suicidas, livro de Jeffrey Eugenides

Num típico subúrbio dos Estados Unidos nos anos 1970, cinco irmãs adolescentes se matam em sequência e sem motivo plausível. A tragédia, ocorrida no seio de uma família que, em oposição aos efeitos já perceptíveis da revolução sexual, vive sob severas restrições morais e religiosas, é narrada pela voz coletiva e fascinada de um grupo de garotos da vizinhança. O coro lírico que então se forma ajuda a dar um tom sui generis a esta fábula da inocência perdida.

As irmãs Lisbon são lindas, inteligentes e alvo da atenção, inveja e desejo de toda a vizinhança. É justamente por isso que todo mundo fica perplexo quando a mais nova das irmãs, Cecília, de apenas 13 anos, corta os pulsos na banheira. A menina é encontrada a tempo e sobrevive, mas alguns dias depois, ela se joga da janela e é empalada ao cair em uma das cercas na frente da casa.

Em resposta a morte de Cecília, a família começa a observar as meninas de perto, mas depois que Lux, de 14 anos começa a namorar o atleta Trip, os pais concordam em deixar as meninas irem ao baile. Tudo muda depois disso, já que Lux não volta para a casa com as irmãs e passa a noite no campo de futebol com Trip.

As Virgens Suicidas é um livro que tem como intenção se aprofundar na intimidade das garotas. O diferencial desse livro é que ele é narrado em primeira pessoa, por um grupo de garotos que mora na vizinhança e que é obcecado pelas irmãs, talvez por isso, o livro soe tão realista, já que o autor, Jeffrey Eugenides não escreve do ponto de vista das meninas, e nem tenta explicar os sentimentos delas, ele tenta entender as meninas, assim como os meninos que narram a história.

As Irmãs Lisbon

É a ideia de entendimento que permeia todo o livro, já que tudo que os garotos adolescentes querem, de uma maneira geral, é entender as meninas, e tudo isso começa com os narradores tentando compreender o universo feminino, mas acaba com eles tentando entender o que se passou na casa dos Lisbon.

Naturalmente que o livro fala da vida das meninas, uma vez que nos apresenta as dúvidas e as pressões pelas quais as Lisbon passam. O livro também insinua que por mais que os meninos (e os homens) de uma maneira geral tentem, eles nunca vão entender exatamente o que é ser uma garota adolescente. A conversa de Cecília, com seu médico logo após sua primeira tentativa de suicídio, mostra isso claramente, quando o médico pergunta: “Você nem tem idade o suficiente para saber o quão ruim é a vida” e ela responde: “Obviamente, doutor, você nunca foi uma garota de 13 anos”.

Embora o autor não explique os motivos do suicídio (talvez isso nem seja possível, afinal de contas), fica implícito no texto que tem a ver com a adolescência e mais especificamente, com o fato de ser uma garota adolescente, prestes a enfrentar um mundo que está sempre disposto a te julgar ou desvalorizar.

O livro vai mais além nesse ponto quando Trip, o cara mais bonito da escola aparece em cena. Ele está interessado em Lux, que corresponde seus sentimentos. Trip parece o namorado perfeito e quer levá-la ao baile, e para isso, ele conversa com os pais da menina e convence outros três garotos a levarem as irmãs de Lux ao baile. Durante o baile, ele também convence Lux a ir ao campo e fazer sexo com ele, o que faz com que ela não volte para a casa com as irmãs. Trip vai embora do campo antes do dia amanhecer e deixa Lux dormindo sozinha. Quando ela chega em casa, a mãe proíbe as irmãs de sequer saírem de casa.

As pressões sobre as quais o livro fala não são só pressões externas, mas também as internas, uma vez que os pais das Lisbon são extremamente religiosos e conservadores, e embora o mundo esteja passando por uma mudança (o livro se passa nos anos 70), os Lisbon não parecem acompanhar isso, e trazem as filhas em rédea curta. O leitor acompanha um verdadeiro choque de gerações entre os pais, que acreditam que as meninas devem ficar em casa e esperar até que se casem, e as quatro irmãs restantes que querem sair e se divertir, até o ponto em que esse embate se torna insuportável e a situação insustentável.

Centrado em um típico subúrbio americano, o livro tem um clima de tédio, que é muito comum a todos os adolescentes, é como se todos os personagens estivessem esperando que algo acontecesse em suas vidas, ou pelo menos no bairro, o que torna fácil entender as atitudes dos personagens.

Os narradores da história

O fato de As Virgens Suicidas ser o romance de estreia de Eugenides também é uma surpresa agradável, já que o livro é de uma sensibilidade impressionante. Mais tarde ele escreveria Middlesex, que conta, também com muita sensibilidade, a história de uma hermafrodita tentando se encontrar e se entender.

As Virgens Suicidas virou filme em 2000, pelas mãos de Sofia Coppola. A escolha não poderia ser melhor, já que toda a obra de Sofia é focada no universo feminino. As Virgens Suicidas é o primeiro filme da diretora, é muito fiel ao livro e é tão -ou mais- delicado que o livro. O filme é estrelado por Kirsten Dunst, no papel de Lux e tem Josh Hartnett, Kathleen Turner e James Wood no elenco.

As Virgens Suicidas é um romance sensível que tenta se embrenhar no universo feminino, através dos olhos de seus narradores, mas que descobre que nem tudo tem explicação, ou pelo menos, uma ao alcance dos olhos.

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Fernanda Cavalcanti

Formada em cinema, apaixonada por literatura, divide seu tempo livre entre ler, escrever e dançar. Gosta especialmente de terror, mas lê/assiste de tudo. Também escreve para o blog Além da Toca do Coelho.

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