Battle Royale, de Koushun Takami

Battle Royale tem uma premissa absurda, mas que a partir do momento em que você começa a ler, não quer mais parar. Certamente existem momentos de tensão, algumas piadas e outros momentos em que você vai ter raiva de cada um daqueles adolescentes. Mas quem nunca foi adolescente, né?

Em 1997, Koushun Takami, um jornalista e escritor japonês, teve uma grande decepção logo no início da sua carreira. O manuscrito de seu romance de estreia havia chegado à final de um concurso literário voltado para a ficção de terror, mas foi rejeitado. Aquele júri, mesmo acostumado com histórias de horror, ficou espantado com a história do jogo macabro entre adolescentes de uma turma escolar que, confinados numa ilha, têm de matar uns aos outros até que reste apenas um sobrevivente.

Pois é. República da Grande Ásia Oriental é o nome do país, como um Estado japonês totalitário e ditador. Logo na introdução ficamos sabendo o que é uma Battle Royale, a sangrenta disputa de luta livre onde todos os combatentes devem morrer, restando somente um vencedor. Uma porrada de lutadores sobe ao ringue, todos juntos. Então, imagine a zona. Mas nesse caso, estamos falando de adolescentes de 9º ano abandonados à própria sorte.

Battle Royale
A ilha e seus quadrantes

Battle Royale

Todo ano, uma sala de 9º ano é escolhida aleatoriamente para participar do Programa criado, supostamente, como forma de pesquisa militar. Assim, pensando que estão em uma excursão, felizes e contentes, os estudantes são jogados em uma ilha desabitada e apresentados ao coordenador do Programa, Sakamochi. Ele explica que, a partir daquele momento, eles devem matar uns aos outros, até que haja somente um aluno vivo. Para enfatizar que aquilo não é brincadeira, traz o cadáver do professor que estava na excursão com a turma e também mata dois estudantes na frente da classe toda, antes mesmo do jogo começar.

Dessa forma, eles são autorizados a carregar seus pertences e recebem um kit de sobrevivência cada um, que contém pão, água e uma arma. A arma pode não ser necessariamente de fogo, podendo ser uma faca, um bastão, arco e flecha, ou até mesmo uma ferramenta como chave inglesa ou um dispositivo de rastreamento. Se tiver azar, o aluno recebe algo realmente inútil, como um dardo ou um garfo. Porém, se tiver sorte, recebe um colete à prova de balas.

Eles também têm coleiras presas aos pescoços que os localizam no sistema do Programa. Assim, os computadores registram suas conversas, localização e eventuais mortes. Caso alguém tente arrancar o aparato, o mesmo explode liquidando o aluno. Explosões também ocorrem se estudantes forem localizados em quadrantes proibidos da ilha. Portanto, todos devem estar atentos aos avisos que Sakamochi transmite via áudio com o relatório de mortes das últimas horas e o anúncio de novos quadrantes proibidos.

Battle Royale
Quem está disposto a matar geral?

Adolescentes orientais

O jogo tem um limite de tempo, então, caso ninguém morra nas primeiras 24 horas, todas as coleiras explodem e o programa é suspenso. Imaginem a tensão que esses jovens estão vivenciando. Eles têm em torno de 13 a 16 anos, pois alguns são repetentes. Assim como toda classe escolar, existem diversas personalidades. Algumas situações são um tanto forçadas, mostrando adolescentes inteligentes demais. Em outras, apaixonados demais.

Com nomes como Shuya Nanahara, Noriko Nakagawa, Shogo Kawada e Kazuo Kiriyama, quem não está acostumado sofre um pouco para lembrar quem é quem. Existe uma dupla de garotas que inclusive morre junto, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, cujos nomes são Yumiko e Yukiko. What?! E em outra situação, nos vemos no mesmo ambiente com Yukie, Yuko e Yuka! Sério, essa parte foi difícil… Mas tudo bem, deve ser a mesma coisa quando temos uma Mariana, uma Marina e uma Marianne na mesma sala, né?

Outra característica marcante dos personagens é a fase em que vivem. A maravilhosa e adorada adolescência. Portanto, é de se esperar conversas do tipo “você está a fim de alguém da sala?” ou “ele era o campeão do time de basquete e todas as meninas eram caidinhas por ele”. Em certos momentos a baboseira juvenil chega a irritar. Algumas personalidades são mais exploradas, ou seja, temos um grupo de protagonistas, já outras ficam na beira do estereótipo mesmo.

Battle Royale
E… morreu

Kill them all!

Alguns jovens entendem logo de cara no que estão metidos e saem matanto adoidado. É o caso do garoto que tem uma metralhadora em seu kit e da menina que finge ser santa, mas que tem traumas de infância não resolvidos. A cada nova vítima, mais uma arma para a coleção e mais um detalhe da vida anterior ao jogo.

Existem os iludidos que acham que vão conseguir sair ilesos da ilha, em tentativas de fazer os estudantes pararem de se matar e ouvirem o que eles têm a dizer. Não levam em conta os participantes ativos e gritam, chamando a atenção de estudantes que estão ali para vencer. Ou seja, acabam morrendo de forma idiota.

O livro tem mais de 600 páginas, mas um recurso interessante que o autor utiliza para que os leitores não queiram largar a obra é a contagem de estudantes a cada capítulo. Começando com 42 estudantes, a contagem vai diminuindo e a gente vai ficando mais tenso e mais curioso para chegar ao final. Restam 38 estudantes… Depois restam 21 estudantes… Restam 9 estudantes… e por aí vai.

Em quem podemos confiar?

Battle Royale pra todo lado

A obra gerou um rastro de polêmica. Vendeu mais de 1 milhão de exemplares e foi comentada no Japão inteiro. A repercussão foi tão intensa que no ano seguinte já eram lançadas as adaptações para o cinema e para os mangás. O próprio autor resolveu escrever o mangá, tendo sequências e spin-offs escritos por outras pessoas.

O filme tem no elenco o ator e cineasta cult Takeshi Kitano, mas não é salvo de ser um grande trash japonês. Os detalhes do livro foram bem resumidos no filme, mas a atuação dos adolescentes não convence o suficiente. Algumas características físicas dos personagens mudaram drasticamente, o que faz a adaptação perder um pouco o encanto.

O final do longa também ficou bem estranho, com umas bizarrices que nem aparecem no livro. No geral, é uma experiência interessante ler Battle Royale e assistir ao filme em seguida. Entretanto, as expectativas não são superadas por vários motivos. Quentin Tarantino já afirmou que este filme é uma de suas referências cinematográficas, e confesso que se ele refilmasse, eu assistiria. Afinal, tem tudo a ver com suas obras cheias de sangue.

Tarantino curtiu

Tem mais Battle Royale?

Existe uma sequência chamada Battle Royale II: Requiem, mas achei que ia ser muita perda de tempo assistir. Em 2006 foi anunciado que estúdios americanos gostariam de fazer sua versão da adaptação (eles não curtem legendas, que novidade), mas depois foi desmentido.

Além disso, depois de um tempo foi lançado Jogos Vorazes (também adaptação de livro), que tem uma premissa muito parecida. Assim, descartaram a possibilidade da versão americana porque as pessoas iam achar que os japoneses que copiaram os americanos. ¯\_(ツ)_/¯

Acredito que, atualmente, uma série adolescente com tamanha violência seria absurda, porém divertida. Claro que não sendo levada a sério, com mais piadas e mortes esdrúxulas. Certamente teria público e as personalidades dos jovens seriam bem mais exploradas, com dúvidas, questionamentos e comportamentos relativos à adolescência. No fim, a questão que fica é “Do que o ser humano é capaz quando toda forma de violência passa a ser incentivada?”

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Battle Royale

Nome Original: Battle Royale
Autor: Koushun Takami
Editora: Editora Globo
Gênero: Horror, Ação, Adolescência, Violência
Ano: Escrito em 1997, lançado em 1999, mas aqui só em 2014
Número de Páginas: 664

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