Caminhos da Floresta, um conto de fadas sem “final feliz”

Rob Marshall, que já tinha trabalhado com o gênero em Chicago (2002), equilibra aqui o tom fabulesco (que ao mesmo tempo carrega um teor clássico cinquentista) com humor contemporâneo, embalados em uma bela fotografia, figurino e cenografia, com a trilha inspirada de Stephen Sondheim. O elenco é outro ponto forte, com todos os atores se divertindo em seus papéis (ainda que Johnny Depp e Chris Pine não tenham qualquer atributo para cantar), assumindo personas típicas das famosas lendas, com a maioria dos personagens sem nomes (como A Bruxa, os Príncipes Encantados, a Esposa do Padeiro etc) a medida que traz os famosos Cinderela, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho e o João, aquele do pé de feijão. 

O roteiro é certeiro ao saber amarrar tantas narrativas dentro de uma história coesa que funcione de um jeito próprio, ainda que forneça as mesmas resoluções dos contos originais. A trama coloca alguns pontos principais, com o Padeiro e sua mulher sonhando em ter um filho e fazendo um acordo com a Bruxa local para conseguir alguns objetos (responsáveis por linkar os demais elementos) a fim de conquistar o que almejam. E todos os personagens desejam algo aqui. A primeira metade do filme, mais feliz e cantante, mostra figuras carentes e precárias desejando coisas (ir à festa, comer muito, ter um filho, ficar rico etc), com vilões típicos em suas jornadas (o lobo mau, a bruxa, o príncipe perseguidor, a madrasta má etc), tendo em comum a floresta do título, que não é só um cenário comum nas fábulas, mas também o símbolo do âmago humano, como se explicitasse suas ambições e revelasse o lado podre de cada um, alguns menos evidentes do que outros, mesmo assim sem perdoar ninguém pelo caminho. Ninguém está a salvo.

Os argumentos também são inteligentes, e mesmo sendo este um autêntico filme Disney, ele não abandona a essência dos contos de fada originais, que de belos nada tinham. Assim, as palavras que o Lobo canta para a Chapeuzinho apresentam um claro desejo sexual, e um dos príncipes não esconde seu lado de macho branco opressor que foi criado para galantear, não ser fiel. Assim, Caminhos da Floresta pode não ser exatamente o filme para se ver em família como alguns imaginaram.

Dessa maneira, a segunda metade do filme surpreende bastante. Quando o final de felizes para sempre aponta no horizonte ensolarado com todos os personagens reunidos e realizados, uma reviravolta dentro do contexto arruína tudo, trazendo tragédia e muito mais nas entranhas da floresta. Assim, uma menina perde a avó e a mãe, o marido perde a esposa, o garoto perde a mãe, a mãe vê sua filha partir, a princesa enxerga que nem tudo são flores etc. E ainda que eu ache bem destoante o adultério aleatório, que culmina em morte, ele serve ao outro personagem desse jogo para que ele evidencie seu perfil podre. Em outro momento chave do enredo, as figuras sobreviventes culpam uns aos outros por suas ações individualistas que levaram à tragédia, na culpabilização de um erro-mor, onde ninguém assume o problema — criando imediatamente um paralelo com as redes sociais, onde todos estão errados, mas se acham certos e precisam vilanizar o outro lado.

O egoísmo impera aqui e não existe final feliz. Assim como um bom conto de fada.
Era uma vez.
Até que não foi mais.

Caminhos da Floresta

Mais um musical vibrante da Disney, que homenageia vários contos de fada e apresenta nuances completamente inesperadas entre uma canção e outra.

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Douglas MCT

Douglas MCT já escreveu para os gibis da "Turma da Mônica", roteirizou o desenho animado "Galera Animal" da TV Globo, participou do enredo do game "Chico Bento" para as redes sociais, é autor dos quadrinhos “Edgar Alan Corvo”, "SUPER" e “Hansel&Gretel”, e dos livros "O Coletor de Almas" e da série "Necrópolis".

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