Coringa – o palhaço, Joker, o palhaço

A DC desistiu. Quando o novo filme do Coringa começa, já é possível perceber isso, afinal, nem o logo da empresa aparece no começo do filme. Conforme o longa, que estreia dia 03 de outubro aqui na República das Bananas, vai se aprofundando na mente de um dos maiores vilões dos quadrinhos, fica mais claro que a DC desistiu.

Primeiramente, a DC desistiu de criar seu Universo compartilhado. Depois de anos dominando praticamente sozinha as produções cinematográficas, a empresa viu a Marvel tomar a dianteira no cinema. Ela correu atrás tentando criar em dois filmes o que a concorrente levou anos para fazer e o resultado foi catastrófico.

Coringa não é parte de um universo compartilhado, não tem relação alguma com qualquer outro filme da DC, e não segue a fórmula-básica de filmes de herói. A história tem muito mais camadas do que isso. O Coringa, o bobo, o palhaço, é Arthur Fleck, fracassado como palhaço e sem graça como comediante, tentando sobreviver na década de 80, em meio a uma Gotham City caótica como uma São Paulo e violenta como um Rio de Janeiro.

Joaquin Phoenix é Arthur Fleck em Coringa
Joaquin Phoenix é Arthur Fleck

Coringa: Eu vou comer a tia do Bátema!

Apesar de fazer referências diretas à família Wayne, o filme não tem ligação proposital com nenhuma obra da DC. E, honestamente, nem faz falta, nem precisava dos Wayne, o filme poderia viver sem isso. Ele poderia se chamar “Arthur” e o espectador mais distraído nem perceberia nele qualquer inspiração nas HQs.

Mesmo que o personagem tenha inspiração no Coringa dos quadrinhos – mais precisamente uma parte da origem parece baseada na HQ “A piada mortal”, de Alan Moore e Brian Bolland – o filme me remeteu mesmo à Taxi Driver, de Martin Scorcese (e não só pela presença do Robert de Niro no filme). Portanto, é um drama pesado, de um homem que vai sendo moldado pela sociedade ao redor como uma pessoa transtornada, gerando resultados drásticos. É diferente de todos os filmes de heróis já feitos. Não há as batalhas épicas, não há lutinhas de homens fantasiados dando soquinho, não há cenas lindas de ação que estamos acostumados. E isso é ótimo.

Opa, opa! Que negócio é esse de me chamar de viado aí, hein?

O filme estreia envolto em polêmicas. Polêmicas desnecessárias, talvez. É, de fato, um filme violento (classificação indicativa de 16 anos no Brasil), mas, ao contrário do que vêm sendo dito, ele nunca romantiza a violência nele mostrada. É tudo muito pesado, cruel, é até mesmo desagradável. De forma nenhuma é possível concordar com as ações do protagonista, apesar de ser constantemente possível sentir compaixão por ele.

E, talvez, seja esse o grande acerto do filme: saber explorar camadas de um vilão sem a presença de um contraponto. Até agora, o Coringa nunca tinha existido sem o Batman, e nunca foi possível observá-lo sem a influência de seu antagonista. Ao focar a história unicamente no Coringa, a DC faz uma aposta extremamente ousada e a executa com louvor. Muito disso, graças ao excelente trabalho de Joaquin Phoenix.

Coringa

Tesudinho da mamãe

Apesar de muita gente (eu incluso) ter torcido o nariz aos anúncios de um novo filme do Joker, era impossível não dar um voto de confiança quando Joaquin Phoenix foi anunciado como quem interpretaria o famoso vilão. O cara já tinha mostrado que era um ator excelente, seja por seu perturbado Johnny Cash de Walk the Line ou pela sutil porém potente interpretação do depressivo protagonista de Her.

O Coringa sempre foi interpretado por atores acima da média. Desde sua primeira e icônica aparição, na década de 60, na interpretação de Cesar Romero (o Seu Madruga americano – como ele se recusava a raspar o bigode, seu personagem tinha uma maquiagem branca por cima da pelugem facial) na película Batman: Feira da Fruta; passando pela versão completamente psicopata de Jack Nicholson na visão de Tim Burton; eternizado depois no trabalho matador de Heath Ledger na versão de Christopher Nolan em The Dark Knight; depois sendo completamente esquecível na pele de Jared Leto, o qual eu nem devia citar aqui (afinal, que merda foi aquela?)…

Robert de Niro é Murray Franklin em Coringa
Robert de Niro é Murray Franklin

The Joker

Parece ser necessário para a execução do papel, além de um bom currículo, uma dose bem ponderada de imbecilidade, que foi ultrapassada por Leto (que chegou a enviar uma carcaça de porco e camisinhas usadas para os colegas de elenco), mas bem contida por Phoenix e Ledger. Foi amplamente noticiado que Joaquin largava algumas cenas no meio das filmagens e chegou a abandonar uma entrevista de coletiva de imprensa, antes de ser convencido pela equipe de marketing a voltar ao seu lugar.

E, se grande parte desses atores têm no Coringa o melhor papel de suas vidas, no caso de Joaquin Phoenix não é diferente. Cada momento do filme, dependendo da situação que o protagonista estivesse vivendo, é empregado um modo diferente de falar, de andar, de olhar. Do corpo curvado, com um jeito cabisbaixo e completamente derrotado de Arthur Fleck aos ombros erguidos e confiantes de Joker, a impressão que se passa é que não são a mesma pessoa. E realmente não são.

Phoenix é hipnotizante, empático, revoltante. O ator perdeu 23 quilos para o papel – e o diretor Todd Phillips audaciosamente soube explorar essa transformação corporal. Ele abusa das cenas do ator sem camisa, exibindo constantemente o dorso nu do ator, com a magreza extrema de um aidético com anorexia; um físico que só contribuiu para construir a ideia de um psicopata, um homem pobre e transtornado. Se a academia adora premiar transtornos mentais e mudanças corporais extremas, em Joker, Joaquin Phoenix assenta seu favoritismo a um Oscar há muito tempo merecido.

Um “lico” que faz cair pinto

A DC desistiu de fazer um filme família. A violência, como já foi falado, é explícita e forte, mas o que mais incomoda no filme não é o sangue pingando de crânios ou olhos sendo furados. É a psicologia profunda, é o mergulho em uma mente perturbada, é a vida difícil de uma pessoa que já perdeu tudo e continua perdendo o nada que têm. A promessa da DC é o surgimento de novos filmes cada vez mais autorais. De diretores e atores consagrados, se inspirando nos excelentes heróis e vilões que a editora possui para fazer suas obras.

Faz todo sentido. A Marvel possui em toda a sua essência a mente brilhante de Kevin Feige por trás, tomando todas as decisões, mexendo em todos os roteiros, amarrando todas as histórias. É notório que sempre foi muito difícil trabalhar com essas rédeas apertadas que a Marvel impõe. Depois da saída conturbada do excelente Edgar Wright de Homem Formiga, o estúdio relaxou um pouco, permitindo a James Gunn e Taika Waititi (por exemplo) colocarem um estilo um pouco mais autoral próprio em suas obras. Mesmo assim, o estúdio ainda precisa que a história se mantenha coesa e não pode deixar nenhuma obra ir muito longe de seu Marvel Cinematic Universe.

Com Coringa, a DC estabelece seu próprio caminho, em uma direção completamente contrária, tomando uma estrada muito mais arriscada, que fatalmente deve levar a alguns erros, é claro, mas que também deve atrair nomes de peso, já que a editora possui histórias muito poderosas em seu portfólio. Se ela começar a permitir uma liberdade em suas obras como a que é demonstrada em Coringa, ela vai acabar criando um futuro maravilhoso e empolgante para seus próximos filmes.

A DC desistiu. E talvez tenha sido a melhor coisa que eles fizeram.

Coringa

Nome Original: Joker
Direção: Todd Phillips
Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Jolie Chan
Gênero: Crime, Drama, Thriller
Produtora: BRON Studios, DC Comics
Distribuidora: Warner Bros.
Ano de Lançamento: 2019
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