Fantasia – Um clássico da Disney diferente

Fantasia reúne oito segmentos que contam histórias diferentes, embalados e inspirados por músicas clássicas, interpretadas pelo maestro Leopold Stokowski e pela Orquestra de Filadélfia, que participou de sete dos oito segmentos.

Como Fantasia surgiu

Fantasia é, certamente, um filme bem diferente de outras obras dos estúdios Disney, isso porque boa parte dos segmentos apresentados não tem personagens característicos da empresa – o único estrelado por Mickey Mouse é O Aprendiz de Feiticeiro -, e não seguem os padrões da Disney.

A ideia para o filme surgiu em 1936, quando a Disney achou que seu personagem principal, Mickey Mouse, estava perdendo a popularidade e precisava de uma imagem renovada. O próprio Walt Disney então, resolveu adaptar O Aprendiz de Feiticeiro, um poema de Johann Wolfgang von Goethe para um curta que teria Mickey como protagonista, e a trilha sonora seria uma peça musical de Paul Dukas, também inspirada pelo poema de Goethe.

Cena de O Aprendiz de Feiticeiro - Fantasia
Cena de O Aprendiz de Feiticeiro

A produção, no entanto, começou a ficar muito cara e o que a Disney gastaria não justificaria fazer apenas um curta metragem, é daí que vem a ideia de apresentar vários segmentos inspirados em músicas clássicas.

Os segmentos

O filme é dividido em oito segmentos que contam histórias diferentes através de suas músicas, sem diálogos. As músicas instrumentais são executadas por uma orquestra que aparece no começo de cada curta.

Tocata e Fuga em Ré Menor, BWV 565, de Bach, o primeiro segmento, é uma interpretação abstrata da música, que parece apenas refletir os sentimentos que a melodia passa. Suíte Quebra-Nozes, de Tchaikovsky, é uma representação das estações do ano, com animais e plantas.

O filme Fantasia é bem diferente de qualquer coisa que a Disney já fez
O filme é bem diferente de qualquer coisa que a Disney já fez

O Aprendiz de Feiticeiro, de Dukas, acompanha Mickey enquanto ele desobedece às ordens de seu mestre, um feiticeiro, e causa um enorme problema. Sagração da Primavera, de Stravinsky, remonta ao período pré- jurássico e apresenta como foi a evolução na Terra, começando com os seres microscópicos e chegando aos dinossauros. Sinfonia Pastoral, de Beethoven, acompanha um grupo de seres mitológicos, como deuses, centauros, cupidos e cavalos alados.

Dança das Horas, de Ponchielli, apresenta um balé dançado por animais, como hipopótamos, avestruzes, elefantes e jacarés, onde cada espécie representa uma hora do dia. Uma Noite no Monte Calvo, de Mussorgsky, o segmento mais assustador do filme, mostra o demônio Chernabog recolhendo almas na noite de Halloween e Ave Maria, de Schubert, é uma espécie de continuação do segmento anterior, que acompanha uma procissão seguindo para uma capela gótica.

Fora dos padrões da Disney

Hoje em dia Fantasia é considerado um clássico e sua qualidade técnica já foi reconhecida, mas na época do seu lançamento o filme ia contra vários padrões comuns na Disney. O primeiro era o fato de o longa ter só um segmento protagonizado por um dos personagens característicos da empresa, e para tal, foi necessário até modificar a aparência de Mickey e aumentar o branco de seus olhos, com a intenção de dar a ele mais expressão.

No segmento Sagração da Primavera, que foi inclusive usado por professores em salas de aula, a Disney optou por desenhar dinossauros extremamente realistas, o que não é comum para a empresa, que tem a tendência de humanizar os animais. Sinfonia Pastoral, no entanto, foi alvo de polêmica, primeiro porque mostrava cenas dos corpos dos centauros e das centauras e também porque tinha uma cena onde uma centaura negra fazia as unhas de uma centaura branca. A cena foi cortada em versões mais recentes do filme.

A animação tem como intenção transmitir os sentimentos que as músicas passam
A animação tem como intenção transmitir os sentimentos que as músicas passam

Uma noite no Monte Calvo então, é completamente diferente de tudo que a Disney já fez antes e depois, já que está muito próximo de um filme de terror. Chernabog, o demônio que aparece no segmento, é considerado até hoje um dos maiores vilões da Disney e a animação é uma das mais assustadoras que o estúdio já produziu. O curta ainda tem danças profanas e nus frontais de figuras femininas bestiais.

Mas mais do que isso, a ideia por trás de Fantasia era bem diferente do padrão da Disney, já que o estúdio vendeu o filme como uma espécie de espetáculo teatral, onde a plateia compraria seu ingresso antes, teria lugar marcado e receberia um programa do filme. Walt Disney pretendia acrescentar novos segmentos ao filme todos os anos e assim fazer com que as pessoas fossem ao cinema de novo. A ideia deu muito certo em capitais, mas não pegou nas cidades pequenas e o projeto foi abandonado.

Aspectos técnicos de Fantasia

É óbvio que Fantasia é um filme antigo e que talvez a técnica de desenho não possa ser comparada com as que existem atualmente, no entanto, o filme não envelheceu mal e o que vemos em cena é ainda muito bonito e impressionante.

Uma Noite no Monte Calvo é o segmento mais assustador do filme Fantasia
Uma Noite no Monte Calvo é o segmento mais assustador do filme

O que chama a atenção especialmente no longa é a diferença que existe entre um segmento e outro, que está presente não só nas músicas, que são de compositores diversos, e nos temas, mas também na técnica de desenho. O Aprendiz de Feiticeiro por exemplo, é um clássico da Disney, enquanto a Suíte Quebra Nozes é um desenho que parece ser mais simples, com menos detalhes. Sagração da Primavera é extremamente realista e não poupa seus telespectadores da violência do período retratado, enquanto Uma noite no Monte Calvo é um filme assustador e escuro.

Fantasia é um filme sem nenhum diálogo, o que pode parecer sem sentido ou chato, mas não é o que acontece porque a música traduz tudo que precisa ser dito. Claro que ele pode ser um pouco cansativo, especialmente para crianças dos dias de hoje, que estão acostumadas com muito movimento e edições rápidas, mas os segmentos são lindos, muito bem-feitos e tão variados, que é possível gostar de um e não gostar de outro.

Fantasia é de fato, um acontecimento.

A trilha sonora é composta por músicas clássicas
A trilha sonora é composta por músicas clássicas
As músicas

Este não é um filme musical clássico, nenhum personagem canta em cena, mas os sentimentos são expressos através da música e também é ela que leva a história para frente. No caso de Fantasia, isso acontece literalmente, já que são as músicas que inspiraram as histórias apresentadas e que o filme não tem nenhuma composição feita para caber em um roteiro, como acontece com musicais mais tradicionais.

As músicas que fazem parte da trilha sonora do filme são todas clássicas e a ideia por trás da animação parece ser transmitir para a tela os sentimentos que as músicas despertam.

O longa ainda impressiona
O longa ainda impressiona

Elas são Toccata and Fugue in D Minor, The Nutcracker Suite, The Sorcerer’s Apprentice, Rite of Spring, The Pastoral Symphony, Dance of the Hours, Night on Bald Mountain e Ave Maria.

Fantasia é um filme de 1940, que ainda hoje é impressionante e que chama atenção não só pela ideia original, até então, inovadora, como também pela incrível capacidade da Disney de roteirizar músicas clássicas de maneira tão eficiente e bonita.

Fantasia - 1940 Theatrical Trailer

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