Game of Thrones – 8ª e última temporada

O desfecho morno e agridoce de um dos maiores marcos da cultura pop atual

Depois de três primeiras temporadas excelentes, Game of Thrones foi, evidentemente, se descaracterizando dentro do que se propunha. Gerou desapontamentos tanto entre os fãs quanto no próprio elenco, desde a sexta temporada. Atropelando ocorrências e abandonando elementos, a produção se enriqueceu na escala, no CGi e na direção de arte, mas perdeu em desenvolvimento de personagens, em narrativa coesa e passagem de tempo.

Tudo isso culminou em uma season finale apressada que poderia ter se dividido em duas. Assim, talvez a oitava fosse dedicada ao combate contra o Rei da Noite e a nona contra os exércitos de Cersei. Mas não estou aqui para pensar em “como deveria ter sido” e sim analisar como foi.

Já desapegado emocionalmente da série e ainda um fã confesso e apaixonado dos livros, relevei o desvínculo que a HBO fez do material original. Então comecei a interpretar a produção pelo o que ela é: um bicho próprio. Dessa maneira, por mais que o surto de Messias (e não “loucura”) de Daenerys não se justifique na oitava temporada, ele de fato foi estabelecido em todos os anos anteriores. Infelizmente o roteiro não soube como trabalhar isso, mas dentro de sua mediocridade, ainda conseguiu subverter as expectativas e colocar uma das heroínas da história como uma grande vilã.

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Game of Thrones – 8ª Temporada

Note que ualquer leitor dos livros ou fã de GoT sabe que o enredo sempre se valeu justamente pela subversão. Moldar uma intenção, para depois quebrá-la e assim surpreender o público. Como por exemplo a morte de Ned; o Casamento Vermelho; Jaime ficando maneta; Tyrion matando a amante e o pai; Dany queimando os escravagistas; Jon sendo morto e depois ressuscitando etc. Por isso, enxergando dessa maneira, tal reviravolta teve seu efeito.

O penúltimo episódio, aliás, é tão impressionante visualmente quanto qualquer filme de guerra (que aqui evoca O Resgate do Soldado Ryan indo Até o Último Homem), com uma fotografia suja, crua e intimista, pelo ponto de vista das vítimas, tirando Daenerys de cena justamente para fortalecer sua inumanidade (e qualquer cena recebe um enquadramento belo e poderoso, como o encontro dos Clegane na escadaria, o cavalo branco em meio às cinzas, a cidade em chamas etc). Mas uma incrível fotografia não salva um roteiro perdido.

Fanservice

Por isso, desde que David Benioff e D.B. Weiss decidiram que não mais impressionariam o público e sim entregariam justamente o que eles queriam, realizando um fanservice que foi a estaca no peito da série (como a ideia ridícula de um “dragão zumbi”, já sugerida por alguém em um fã-pôster um ano antes disso acontecer, entre várias outras), muita coisa soa gratuita e sem sentido.

Bran, Arya e Sansa em Game of Thrones
Bran, Arya e Sansa

Qual a lógica de Cão e Montanha brigarem no meio de uma destruição? Mesmo que fosse intencionada a tragédia, qualquer lógica aponta para as pessoas quererem salvar a própria vida. Ou do dragão sendo morto pelos piratas de um jeito completamente inacreditável? Afinal, como daquela altura eles não viram os barcos inimigos chegando? E por que Dany não aplicou de maneira eficiente e cruel o fogo sobre os mortos-vivos no terceiro episódio, da mesma maneira que fez depois em Porto Real?

E Euron (que deveria ter morrido junto dos outros) encontrar Jaime exatamente naquela bacia, só para ter uma luta totalmente desnecessária. E para que serviu a Companhia Dourada e a frota de Euron? Para nada, assim como foi com Dorne e vários outros núcleos nas temporadas anteriores. Showrunners completamente perdidos e desesperados querendo enxugar elenco, mas fazendo isso de maneira completamente pobre.

Pontos positivos

Por outro lado, aliado a parte gráfica, a última temporada acertou ao quebrar todas as expectativas, colocando Arya como a assassina do Rei da Noite (que nos livros nem existe e é só uma metáfora para o inverno, que nunca chegou na série, ficando apenas no norte, onde sempre foi frio), Theon e Sor Jorah com finais dignos, uma conclusão coerente para Varys e Melisandre, ainda que Cersei e Jaime tenham encontrado um fim ordinário (teria sido muito mais irônico e poético que o irmão tivesse dado fim a ela, mas isso não é um exercício de probabilidades).

Daenerys após a conquista da capital
Daenerys após a conquista da capital

Por isso, com tantos tropeços e poucos acertos, o último episódio optou pelo caminho seguro, colocando o improvável Bran como governante dos sete reinos, uma figura branda, sábia e mística, que pode determinar talvez uma nova dinâmica de reinado, enquanto os diretores brincam com a nostalgia, ao formar um novo Conselho (o que de fato gera boas saudades e diverte num curto momento, dando até vontade de ver em como seria um mundo administrado por Bronn, Brienne, Davos e Sam, com Tyrion no lugar de sempre).

A Jon e Daenerys, o acerto da série foi em romper qualquer solução clichê de herói ou heroína para ambos, relegando o isolamento para um e a morte para outra, sem deixar jamais de gerar rimas visuais (as asas de dragão, o retorno a neve e aos selvagens), enquanto coloca Sansa em seu lugar de direito e permite que Arya siga seu rumo independente, como lhe é de essência.

Portanto…

Dessa maneira, GoT não desaponta com as soluções, mas também não engrandece nada, e entre vários escorregões (e eu não citei nem a metade) e algumas conquistas, termina de maneira meio amarga meio agridoce, de um jeito morno, mais seguro, mas fazendo menos feio que LOST e Dexter, as comparações inevitáveis de grandes séries com finais desapontadores.

Assim, eu volto a repetir: passando suas emoções com Game of Thrones, se não leu, vá ler os livros. Ali reside a verdadeira experiência, que ainda não acabou. E quando chegar ao fim, seja daqui uma década ou mais, vai ser arrebatadora. Afinal, o maior vilão da série, sempre foi o roteirismo.

Game of Thrones - 8ª Temporada

Nome Original: Game of Thrones
Elenco: Emilia Clarke, Peter Dinklage, Kit Harington, Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey
Gênero: Ação, Aventura, Drama
Produtora: Television 360
Disponível: HBO

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