Incidente em Antares, de Érico Veríssimo

Uma crítica cômica à política brasileira

A pequena cidade de Antares, no Rio Grande do Sul, entra em greve aos poucos, até que isso chega ao cemitério da cidade, onde os coveiros e o zelador param de trabalhar.

No dia seguinte, 13 de dezembro de 1963, sete defuntos que esperavam ser enterrados, se levantam dos seus caixões para protestar pelo direito a um enterro digno, caso isso não aconteça, eles ameaçam assombrar a cidade.

Enquanto não são enterrados, no entanto, os sete defuntos, agora sem medo de nada e livres de qualquer inibição, começam a contar os podres e os segredos de todos os moradores do local.

Incidente em Antares

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, acompanhamos a história da cidade e como ela se tornou o que é hoje em dia, enquanto na segunda, o narrador nos conta sobre o incidente que dá nome ao romance.

Érico Veríssimo
Érico Veríssimo

É impossível negar a criatividade de Érico Veríssimo enquanto se lê Incidente em Antares, uma vez que o escritor não só criou uma cidade e uma trama que se passa nela, como também toda uma história que explica a criação e a formação do local e tudo é muito complexo.

Antares é uma cidade fictícia localizada quase na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. A cidade, no começo, era dominada por Francisco Vacariano, mas logo Anacleto Campolargo demonstrou interesse em comprar um terreno no local, o que causou a ira de Vacariano e começou uma briga entre famílias que duraria anos e anos.

Na primeira parte do livro, Verissimo nos conta essa história enquanto apresenta todos os detalhes que dizem respeito a briga dessas duas famílias, que nos anos 1960, quando a trama do livro acontece, ainda são as mais poderosas da cidade.

O que o autor narra nessa primeira parte do livro é quase uma saga, afinal, acompanha vários anos da briga, citando nomes e eventos que não se repetem.

Os mortos da minissérie de 1994
Os mortos da minissérie de 1994

O incidente

A segunda parte de Incidente em Antares começa no dia 12 de dezembro, quando uma greve geral atinge a cidade, e cada profissional de Antares para de trabalhar, inclusive os responsáveis pelo cemitério.

No entanto, sete cadáveres esperam pelo seu sepultamento: Quitéria Campolargo, matriarca da família Campolargo, que teve um infarto fatal; Barcelona, o sapateiro da cidade e sindicalista, que sofreu um aneurisma; Menandro Olinda, um pianista deprimido, que cometeu suicídio; Cícero Branco, advogado, vítima de AVC; João Paz, pacifista, torturado até a morte pela polícia; Pudim de Cachaça, um bêbado da cidade que foi envenenado pela esposa; e Erotildes, uma prostituta tuberculosa que morreu de complicações da doença depois de não ser atendida com muita atenção pelos médicos da cidade.

Assim que a greve começa, os sete se levantam para pedir um enterro decente.

Os mortos de Verissimo não são zumbis e nem fantasmas, eles se movimentam como pessoas vivas e podem tocar em objetos e outros humanos. Basicamente, eles se comportam como pessoas vivas, embora estejam mortos. Por outro lado, eles têm características bem peculiares e criativas: eles não respiram e nem têm batimento cardíaco, não aparecem em fotos, não têm sombra, nem reflexo, não sentem dor, nem sono, têm a córnea opaca e já estão começando a se decompor, o que claro, causa um odor terrível.

Incidente em Antares é dividido em duas partes
Incidente em Antares é dividido em duas partes

Os mortos decidem que se não forem enterrados, vão começar a assombrar a cidade e, nesse caso, o assombrar não é usado no sentido mais clássico e comum da palavra, já que os mortos não pretendem assustar as pessoas da cidade, mas sim, começar a contar os segredos de cada um. É dessa forma que Verissimo expõe os podres de todos os moradores, inclusive dos poderosos e dos que vendem a imagem da perfeição e do moralismo.

Fatos históricos

Incidente em Antares é uma história fictícia, que se passa em uma cidade fictícia, mas o livro cita vários eventos reais, que de fato aconteceram.

O livro foi publicado em 1971 e algumas das escolhas de Veríssimo não são arbitrárias. Entre os fatos históricos que o autor cita na trama estão a Guerra dos Farrapos, a Guerra do Paraguai, a abolição da escravatura, a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, Era Vargas e os governos de Eurico Gaspar Dutra, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart.

Mas o período que parece ganhar mais destaque no livro é a ditadura militar. A escolha do dia em que os mortos levantam em Antares, por exemplo, parece fazer uma referência a 13 de dezembro de 1968, dia em que o AI5, o ato institucional mais severo e que deu início ao período mais sombrio da ditadura militar, foi decretado.

O livro fala de uma série de eventos históricos
O livro fala de uma série de eventos históricos

A morte de João Paz, que foi torturado pela polícia até a morte, também é um jeito de denunciar o que acontecia nos porões do regime militar. Mais tarde, a mulher de João, que está grávida, também é torturada, o que também acontecia no Brasil. A polícia então, falsifica um atestado de óbito que diz que João morreu de embolia pulmonar, o que também aconteceu durante a ditadura, como no caso do jornalista Vladimir Herzog, que foi preso e morto durante a tortura, mas que teve sua morte mascarada como um suicídio.

O livro ainda fala diretamente com os dias de hoje quando retrata um episódio da cidade onde pesquisadores passam dias no local para estudar Antares. Entretanto, quando o livro com os resultados dessa pesquisa é publicado, não agrada a população, que através do negacionismo e do conspiracionismo tenta a todo custo desmentir a obra.

O livro ainda fala de temas atemporais como a depressão, com o suicídio de Menandro Olinda; o descaso e o preconceito contra as profissionais do sexo, com o descuido em relação a saúde de Erotildes; e da violência doméstica, quando retrata o envenenamento de Pudim de Cachaça por sua mulher, depois de anos de maus tratos.

Incidente em Antares na mídia

Esta não é a obra mais famosa de Erico Veríssimo, mas é bem conhecida, por isso já ganhou algumas adaptações.

Incidente em Antares ainda é relevante nos dias de hoje
Incidente em Antares ainda é relevante nos dias de hoje

O livro já virou peça em 2005 e em 2012, e em 1994, Incidente em Antares virou uma minissérie da Globo, que mais tarde, ganhou um corte em formato de filme.

Incidente em Antares mistura literatura fantástica com fatos reais, e quando faz isso fala não só sobre o período em que foi escrito, mas também sobre toda a cultura brasileira e continua relevante ainda nos dias de hoje.

Nome Original: Incidente em Antares
Autor: Érico Veríssimo
Editora: Companhia de Bolso
Gênero: Clássico, Fantasia
Ano: 1971
Número de Páginas: 496

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