Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade

A lenda Arthuriana ao som de Raul Seixas

Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade acompanha Arthur (Paulinho Moska) repensando sua vida, enquanto tenta lidar com a separação entre os Bretões e os Romanos, seu casamento com a rainha Guinevere (Larissa Bracher) e sua amizade com Lancelot (Gustavo Machado), ao mesmo tempo em que busca seguir os ensinamentos de Merlin (Vera Holtz).

O texto é de Márcia Zanelatto, com direção de Guilherme Leme Garcia e músicas de Raul Seixas na trilha sonora.

Flashback

Parte da peça é contada em flashback. Começamos acompanhando Arthur, já nos seus 40 anos. Ele repensa sua vida e o que ele fez desde que se tornou rei. Então, por alguma quebra do tempo e espaço, ele entra em contato com sua versão de 20 anos. Um Arthur que ainda acredita ser filho de um camponês. A partir daí, passamos um tempo assistindo ao Arthur de 20 anos e passando por momentos importantes da sua vida. O encontro com seu grande amigo Lancelot; a retirada da espada da pedra; os conselhos de Merlin; a coroação e o casamento com Guinevere.

Merlin, Lancelot, Guinevere e Arthur
Merlin, Lancelot, Guinevere e Arthur

Então, avançamos novamente para o Arthur de 40 anos, que ainda tenta unir os Bretões e os Romanos (em algumas versões da lenda, Arthur é conhecido por unir os cristãos e os pagãos) e a sua ideia de criar a távola redonda.

Todas essas idas e vindas no tempo podem soar absurdas quando se pensa que a peça trata de uma lenda medieval, mas, de certa maneira, elas fazem muito sentido dentro do universo Arthuriano, que é extremamente calcado na magia. Essa ideia também tem sentido dentro das composições de Seixas, que falam com frequência sobre o assunto. Até mesmo em Gita, que fala sobre uma pessoa que é “o inicio, o fim e o meio”.

Vera Holtz interpreta Merlin
Vera Holtz interpreta Merlin

Trama atual

Também é importante ressaltar que o personagem de Arthur não muda seus ideais com o tempo. O Arthur de 20 anos, embora seja mais ingênuo e inocente, tem os mesmo ideais do Arthur de 40. A guerra entre os Bretões e os Romanos é uma constante na peça e nas lendas do ciclo Arthuriano. Quando assume o reino, elas já acontecem e um dos objetivos do jovem rei é justamente unir os povos. Seu casamento com Guinevere é, a princípio, uma maneira de aplacar essa questão, já que ela é bretã e ele romano.

Embora consiga diminuir a rivalidade, ela nunca acaba; e volta para assombrar Arthur e o reino de Camelot quando ele já é um homem mais velho. Zanelatto e Leme Garcia fazem com a lenda de Arthur uma coisa extremamente interessante: lhe aplicam temas atuais.

Kacau Gomes e Patrick Amstalden em cena de Merlin e Arthur
Kacau Gomes e Patrick Amstalden em cena da peça

A divisão dos povos que Arthur tem que controlar faz sombra no país extremamente dividido em termos políticos dos últimos anos. Outras ideias são expostas na peça, como a diversidade. Uma das frases que saem da boca de Arthur é “a diversidade é nossa maior riqueza, não nossa maior desgraça”. E também o valor à educação. Rainha Guinevere diz que devemos combater a força com a arte e os livros e não com armas.

As lendas Arthurianas são por si só obras que falam diretamente com o mundo moderno, seja nas estratégias adotadas por Arthur para reger o país, seja nos ideais de cavalaria que as obras ensinam. O que Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade faz muito bem é dar mais forma a essas ideias.

Arthur, Lancelot e Guinevere

O triângulo amoroso mais famoso da literatura também não podia ficar de fora. É verdade que existem diversas versões da lendas Arthurianas, mas a relação entre Arthur, Lancelot e Guinevere está presente em todas elas. E é relativamente importante para a conclusão da história. Na peça, Arthur e Lancelot já são amigos há anos, quando o primeiro decide se casar com Guinevere, a paixão de Lancelot. Guinevere parece corresponder o amor de Lancelot e até combina de fugir com o cavaleiro. Mas ele volta atrás por amor a Arthur.

A peça Merlin e Arthur mostra Arthur repensando sua vida
A peça mostra Arthur repensando sua vida

A peça dá uma romanceada na relação entre eles. Guinevere aparece como uma jovem dividida entre Lancelot e Arthur, enquanto na maioria das versões ela é apaixonada por Lancelot e nutre uma grande amizade e respeito por Arthur. Arthur parece apaixonado por Guinevere, embora em muitas versões o casamento dos dois seja um mero arranjo para juntar dois povos diferentes e Arthur também tenha muito respeito e amizade por Guinevere.

Lancelot, no entanto, é um personagem mais bem trabalhado, embora apareça pouco. Apesar dos três integrantes do triângulo estarem extremamente ligados, Lancelot é o que sente mais dúvidas em relação a tudo. Ele ama Guinevere e ama Arthur e por isso, se sente extremamente culpado.

Arthur e Lancelot
Arthur e Lancelot

Leia aqui sobre a versão mais famosa do Rei Arthur

Alguns estudiosos do assunto especulam que Lancelot não é apaixonado por Guinevere, mas sim por Arthur. Isso nunca fica extremamente claro, mas a lealdade de Lancelot é uma coisa que não pode ser questionada. Em As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, a autora vai um pouco mais longe e coloca na boca de Lancelot uma admissão de que ele “ama Guinevere porque ama Arthur”. Em Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade isso não é explicito, mas os autores fazem uma alusão a isso. Afinal, Lancelot rouba um beijo de Arthur em determinado momento da peça.

Merlin

Merlin, um personagem quase tão importante quanto o próprio Arthur, tem uma concepção bem interessante dentro da peça. Primeiramente por ser interpretado por Vera Holtz, em uma escolha nem um pouco clássica, no entanto, muito inteligente. Merlin é um ser superior que sempre foi retratado como homem, mas ele tem acesso ao passado, ao presente e ao futuro. Ele é o universo, então, por que ele não poderia ser uma mulher?

A peça tem temas extremamente atuais
A peça tem temas extremamente atuais

Embora as lendas Arthurianas tenham diversos personagens masculinos importantes (Arthur, Lancelot, Merlin, Percival, Galahad), elas também são repletas de personagens femininas fortes e poderosas, que muitas vezes são responsáveis pelos destinos dos homens e, consequentemente, do reino, como Morgana, meia irmã de Arthur e sacerdotisa de Avalon e Viviane, a senhora do lago, que forjou a Excalibur.

Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade não fala dessas mulheres. Talvez por falta de tempo, talvez porque os habitantes de Avalon possam render uma peça à parte. Por isso, a ideia de que Merlin, o homem mais poderoso do reino, seja uma mulher, é uma boa forma de fazer alusão à essas mulheres importantes das lendas.

Sabendo que Merlin é capaz de ver o passado, o presente e o futuro fica mais do que claro a relação que existe entre ele e a música Gita, que funciona mais ou menos como a música tema do personagem. Ele também só aparece no telão, já que no período em que a peça se passa, Merlin não está mais em Camelot no posto de conselheiro de Arthur (isso de fato acontece no ciclo Arthuriano). Mas como Merlin tem acesso a tudo, é natural que ele também tenha acesso a Arthur.

Guinevere e Arthur
Guinevere e Arthur
Os vilões de Merlin e Arthur

O vilão mais famoso das lendas Arthurianas é Mordred, filho único de Arthur, fruto de uma relação incestuosa do rei com sua meia irmã, Morgana. Na peça não temos Mordred. Essa escolha me parece natural já que uma peça de duas horas não teria tempo de desenvolver a relação entre Arthur e Morgana, o nascimento e o crescimento de Mordred e a sua chegada a corte de Camelot.

Um dos vilões da peça se chama Dreadmor (Patrick Amstalden), um anagrama para Mordred. Ele é conselheiro de Arthur e constantemente trama contra o rei. A outra vilã Anamorg (Kacau Gomes) é um anagrama para Morgana, que em muitas versões é retratada como vilã. Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade ganha quando não dá os nomes diretos aos bois. Pelo menos no caso de Morgana, já é até meio batido usar essa personagem como a responsável pela derrocada de Arthur.

Lancelot e Guinevere em Merlin e Arthur
Lancelot e Guinevere

Na peça, os dois não são mãe e filho como no cânone clássico, mas sim amantes que desejam a coroa a todo custo. A dupla tem um número musical juntos, que é provavelmente o melhor número da peça, uma versão da música Rockixe. A atuação de Patrick Amstalden e Kacau Gomes é ótima e os dois tem muita química em cena.

Aspectos técnicos de Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade

A princípio, juntar a lenda do Rei Arthur com as músicas de Raul Seixas parece um pouco absurdo, mas tudo faz muito sentido dentro da peça. Este não é o primeiro musical sobre Arthur (existe uma peça da Broadway chamada Camelot, que virou um filme de mesmo nome em 1967), mas Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade faz uma versão brasileira, que faz mais sentido para quem assiste à peça nos dias de hoje. A modernização da lenda que, na verdade, só dá mais destaque aos aspectos já presentes nas obras originais, faz com que a peça possa se relacionar com grande parte da audiência.

A peça toma diversas liberdades poéticas
A peça toma diversas liberdades poéticas

A produção não é grande, o cenário é o mesmo do começo até o fim da peça, mas isso não atrapalha. Somos presenteados com uma grande variedade de figurinos, especialmente quando se trata da rainha Guinevere, e todos eles, embora façam referência à idade média, também tem um tom futurístico, dando a entender que aquela é uma trama que poderia se passar em qualquer época ou período.

Também existe muito cuidado ao retratar os personagens em idades diferentes. Os atores que interpretam as versões mais jovens de Arthur, Lancelot e Guinevere são caracterizados de maneira correta para que a audiência possa entender que eles representam fases diferentes dos mesmos personagens.

Leia aqui sobre O Menino que Queria ser Rei

Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade toma liberdades poéticas não só em relação a cânones clássicos da lenda (Mordred e Morgana, por exemplo), mas também em relação aos costumes da época. Mulheres aparecem como guerreiras, algo que não acontecia na idade média. E Arthur se refere a távola redonda como uma mesa onde “homens e mulheres são iguais”. No período medieval, homens e mulheres não eram considerados iguais. Por isso, seria absurdo pensar na távola como um lugar onde tanto homens quanto mulheres teriam a mesma voz.

Merlin guia Arthur mesmo sem estar presente
Merlin guia Arthur mesmo sem estar presente

Arthur é um rei um tanto quanto moderno para a sua época. Em diversas versões da lenda ele escuta o que sua esposa, sua irmã e a senhora do lago tem a dizer. Mas, como é possível ler em As Brumas de Avalon, um livro que retrata a história de Arthur pelos pontos de vista das mulheres da sua vida, o papel feminino nas lendas muitas vezes é restrito a induções e seduções aos homens. A presença disso na peça, no entanto, não incomoda e nem prejudica, dá um tom atual à obra e não deixa de ser uma maneira de proclamar igualdade de gêneros.

As músicas

O musical tem como trilha sonora só músicas de Raul Seixas. São usadas 25 músicas, entre elas Gita, Maluco Beleza, Mosca na Sopa, A Maçã, Metamorfose Ambulante e Rockixe. Todas em versões feitas especialmente para a peça.

Vera Holtz no telão
Vera Holtz no telão

Quanto à fidelidade da peça em relação à lenda, é impossível dizer, uma vez que não existe uma “versão original” das lendas Arthurianas. Afinal, existem alguns fatos que aparecem com maior ou menor frequência, então, tudo é valido. O importante é passar para frente uma lenda que tem tanto a ensinar, ainda nos dias de hoje, e a peça cumpre bem o seu papel.

Merlin e Arthur, Um Sonho de Liberdade está em cartaz no Teatro Frei Caneca, com sessões às sextas, sábados e domingos. Para mais informações, consulte: http://www.teatrofreicaneca.com.br/merlin-e-arthur-um-sonho-de-liberdade

Merlin e Arthur - Um Sonho de Liberdade

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