O Bar Luva Dourada, universo dos excluídos

O filme O Bar Luva Dourada nos mostra um período na vida de Fritz Honka, um homem que assassinou brutalmente quatro mulheres nos anos 1970 em Hamburgo, na Alemanha. Desde criança, o diretor Fatih Akin tinha vontade de fazer um filme do gênero, mas traz aqui, muito mais do que terror. O Bar Luva Dourada nos mostra os horrores da degradação humana.

O roteiro optou por não mostrar a infância de Honka, os problemas familiares e suas repercussões. Mas uma breve pesquisa sobre o serial killer nos esclarece que ele era o terceiro de dez irmãos e que viveu boa parte de sua infância em orfanatos. Nasceu em 1935, sofreu abusos e espancamentos, e em 1956 se envolveu em um acidente que lhe amassou permanentemente o nariz e lhe acometeu problemas de fala. Teve então alguns relacionamentos e até um filho. Mas seu comportamento extremamente violento lhe afastou de todos.

Jonas Dassler interpreta Fritz Honka em O Bar Luva Dourada
Jonas Dassler interpreta Fritz Honka

Prepare-se

A primeira cena do longa retrata seu primeiro assassinato. A mulher, uma prostituta ocasional, já está morta na cama enquanto Fritz tenta colocá-la dentro de um saco. Tendo em vista a grande dificuldade de fazer caber o corpo da moça no pequeno espaço, Fritz resolve serrá-la em pedaços. Não sem antes tomar mais algumas doses de vodca e colocar a música certa para rodar no vinil. Es geht eine Träne auf Reisen do cantor italiano Adamo.

Esta cena, que prepara o espectador para o clima geral do filme, é, ao mesmo tempo, grotesca e espetacular. Já chegamos com a ideia de sentir ódio pelo protagonista, mas ao conhecer seu modus operandi, sentimos repulsa, nojo, ânsia, tudo isso além do ódio. E é ali, bem no começo mesmo, que podemos notar também a podridão de sua residência, o porão de um prédio antigo. É quase possível sentir o cheiro que emana daquelas mobílias empoeiradas e do piso de madeira.

Gerda topa tudo por um pouco de vodca

Uma bela produção

A direção de arte foi certeira em reproduzir o apartamento de Honka, com suas fotos de mulheres nuas pelas paredes, bonecas espalhadas pela sala e aromatizadores pendurados no teto para disfarçar o odor fétido de seu lar. Garrafas para todos os lados, comida apodrecendo na mesa, e a portinha de um sótão que escondia partes de corpos esquartejados. A produção acerta também na caracterização tanto de Jonas Dassler, um homem lindo fazendo o papel de um monstro, quanto de todas as pessoas que circulam pelo Bar Luva Dourada.

Entre os clientes desta pocilga estão ex-militares que perderam metade da audição e da visão na guerra; prostitutas “aposentadas”; um homem que fica brincando com absorventes internos e eventualmente comendo-os; e todos os tipos de perdedores, depressivos e pessoas sem perspectivas na vida. Sempre regados a muito álcool, eles comemoram e choram praticamente todas as noites, repetindo um ciclo sem fim de ida ao fundo do poço. Com seus discursos suicidas disfarçados, todos estão ali só à espera da morte.

O bar Luva Dourada é uma verdadeira espelunca que vive com as cortinas fechadas, pois, de acordo com seu dono, ninguém bebe se o sol está brilhando. O estabelecimento existe até hoje e funciona 24 horas. Pelas imagens no Google Maps, continua sendo um bar fétido e mal cuidado, mas deve estar lucrando bastante com a publicidade do filme. Colocaram até o nome de Honka na porta… pois que jeito estranho de se promover…

O Bar Luva Dourada em foto do ano passado
O Bar Luva Dourada em foto do ano passado no Google Maps

Ficção vs. Realidade

Pra quem gosta de filmes sobre crimes reais, O Bar Luva Dourada é uma boa pedida, pois mostra como Fritz Honka agia escolhendo suas vítimas e acabando com suas vidas já miseráveis. Mas para aqueles que gostam de mais sangue jorrando, mais membros cortados, violência gratuita e muitos sustos, o filme pode decepcionar. Em medida de violência, A Casa Que Jack Construiu é bem mais pesado, mas não se baseia em fatos reais. Então cabe colocar na balança onde está o horror verdadeiro, né?

A trilha sonora é algo interessante, pois Honka gosta de abafar o barulho de sua violência no apartamento colocando o mesmo disco pra tocar na vitrola. Ao fim do filme a plateia já quase decorou a letra. Eu já estou até ouvindo em casa e achando super legal… hahaha… A música alemã é muito bonita. Há a música das mortes, a música da melancolia no bar e a música do fim do filme, Wir Sind Jung, Wir Sind Frei, interpretada por Stein Ingersen. Entretanto, a canção é mais famosa na versão de Terry Jacks (Seasons in the Sun). Ótima escolha, afinal, a música parece feliz, mas no fundo é triste pra caramba, dando aquela confusão mental ao fim do longa. Gostei? Detestei? Quem sou? Onde estou?

O jovem Jonas Dassler
O jovem Jonas Dassler

O Bar Luva Dourada

Sendo assim, não leve a publicidade em torno do filme tão a sério. O Bar Luva Dourada pode ser bem perturbador com seu desenho de som excelente (aqueles que fecham os olhos nas cenas de morte vão continuar aflitos), mas também pode entreter e nos fazer pensar. As escolhas das pessoas; como a guerra atingiu a população; xenofobia; abusos e, principalmente, o alcoolismo.

O diretor escolheu não colocar no longa as cenas já filmadas que mostravam os abusos sofridos por Fritz quando criança. Ele não queria que isso fosse uma “justificativa fácil” para seu comportamento. Entretanto, a trama nos mostra em determinado momento sem bebida, que Honka poderia ser um homem normal. Assim, a bebida acabou sendo seu principal motivador. Aliás, a bebida é o que move praticamente todos os personagens do filme. Em troca de alguns goles a mais, mulheres aceitam ir ao seu apartamento sem nem mesmo conhecê-lo. Socorro!

O Bar Luva Dourada foi baseado no livro de mesmo nome escrito por Heinz Strunk, lançado em 2016. O filme com ares de humor negro e muita violência entra em cartaz hoje.

O Bar Luva Dourada

Nome Original: Der goldene Handschuh
Direção: Fatih Akin
Elenco: Jonas Dassler, Margarete Tiesel, Adam Bousdoukos, Marc Hosemann
Gênero: Crime, Drama, Horror
Produtora: Bombero International, Warner Bros. Film Productions Germany
Distribuidora: Imovision
Ano de Lançamento: 2019
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