O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë

O Morro dos Ventos Uivantes (1847), obra-prima da inglesa Emily Brontë, é um dos grandes clássicos da literatura mundial. Adaptado para o cinema inúmeras vezes, a história do amor intenso e turbulento entre Cathy e Heathcliff continua a arrebatar os leitores década após década. A narrativa se desenvolve na região inóspita onde se encontra a mansão que dá nome à obra, e possui traços góticos que aproximarão o leitor moderno. Cathy e Heathcliff desenvolvem, logo que se conhecem, uma afinidade que ultrapassa as convenções sociais, as diferenças de gênero e até a morte.

Fonte:https://www.amazon.com.br/Morro-dos-Ventos-Uivantes/dp/8544000185

Publicado em 1847, O Morro dos Ventos Uivantes é a única obra da inglesa Emily Brontë. O livro é um romance gótico, que até hoje faz barulho.

Em O Morro dos Ventos Uivantes acompanhamos a jovem Cathy, moradora da mansão Morro dos Ventos Uivantes, com seus pais, seu irmão e uma criada, que a trata como filha. Um dia, seu pai traz para casa um garoto cigano quase da mesma idade que Cathy, Heathcliff.

Hindley, o irmão de Cathy é cruel e maltrata Heathcliff. Já Cathy se torna amiga do garoto e logo os dois são inseparáveis. É natural que pelo começo da adolescência, os dois estejam gostando um do outro, embora Cathy tenha uma certa dificuldade em admitir seu amor.

Quando os pais de Cathy e Hindley morrem, o destino de Heathcliff parece traçado. Hindley passa a tratá-lo  ainda pior e Cathy, embora apaixonada por ele, resolve se casar com Edgard Linton, um jovem rico e de nome que mora na região. Heathcliff, desolado e amargurado, parte do Morro dos Ventos Uivantes, deixando Cathy sem qualquer consolo.

Juliette Binoche e Ralph Fiennes na versão de 1992.

Heathcliff retorna ao Morro dos Ventos Uivantes alguns anos depois, quando Cathy já teve uma filha (também chamada Cathy, uma vez que a mãe morreu no parto) e então, Heathcliff está pronto para se vingar de Hindley, de Edgard e até dos descendentes dos dois.

Quando contada assim, a história de O Morro dos Ventos Uivantes soa como uma história de amor, parecida com os livros de Jane Austen, mas não podia ser mais diferente. O Morro dos Ventos Uivantes tem uma aura quase sinistra em sua volta, ele não é um livro de terror, mas tem muitos dos elementos dos primeiros livros do gênero. As principais influências de Brontë foram Horance Walpole (que escreveu O Castelo de Otranto, considerado o primeiro romance gótico da literatura) e Mary Shelley (autora de Frankenstein), além disso, a casa dos Brontë tinha vista para um cemitério, o que com certeza inspirou Emily.

Emily era a quinta dos seis filhos do casal Brontë, suas irmãs Charlotte e Anne também eram escritoras e escreveram respectivamente Jane Eyre e Agnes Grey. O irmão dela, Branwell também escrevia e pintava, mas não publicou nenhuma obra. As três irmãs Brontë usaram de pseudônimos masculinos para publicarem seus livros.

O amor é com certeza a força motivadora por trás da história de O Morro dos Ventos Uivantes, mas o livro fala sobre diversos sentimentos e todos eles conflitantes. Os personagens do livro são extremamente bem construídos, Heathcliff começa o livro como um menino desamparado, que chega a mansão apenas para sofrer humilhações de todas as partes. Ele é apaixonado por Cathy, mas é rejeitado por ela e por isso se torna amargo, violento e vingativo. O amor de Heathcliff por Cathy é tão grade que é capaz de se consumir no ódio.

O elenco da versão de 2003.

Cathy é descrita como uma garota mimada, fútil, com um temperamento explosivo, ela é dada a acessos de raiva e choro sempre que uma coisa não acontece do jeito que ela quer, e para fechar o quadro, corresponde ao amor de Heathcliff, mas não se vê casada com um órfão pobre que acredita ser filho de ciganos.

A junção de Cathy e Heathcliff é uma combinação feita para explodir. Os dois se amam, mas não podem de maneira nenhuma ficar juntos. Ainda crianças, os dois tem brigas homéricas derivadas de ciúmes, que deixam mais do que claro que esse casal só daria certo se um dos dois estivesse disposto a anular completamente sua personalidade. Não é o caso, uma vez que tanto Cathy, quanto Heathcliff são extremamente orgulhosos.

O livro é descrito como uma história de amor, mas se analisado pelos olhos do século XXI, é cristalino que aquele nunca seria um relacionamento saudável.

Edgard Linton, por sua vez, tem a personalidade extremamente oposta a de Heathcliff e Cathy. Para começo de conversa, ele é rico e bem nascido, tudo que Heathcliff não é e tudo o que Cathy precisava que ele fosse, ele é calmo e gentil, e está disposto a aturar o temperamento difícil de Cathy.

Kaya Scodelario como Cathy, no filme de 2011.

Além do amor, existem outros sentimentos que rondam O Morro dos Ventos Uivantes, como o ciúmes de Hindley em relação a Heathcliff, de Heathcliff em relação a Edgard, de Isabel, a irmã de Edgard, apaixonada por Heathcliff, em relação a Cathy, a vingança de Hindley e de Heathcliff e o ódio, que parece estar presente em cada relação do livro. Outro ponto recorrente no livro é a não reciprocidade de sentimentos, os únicos personagens que parecem se amar reciprocamente são Cathy e Heatcliff, que também são os únicos que nunca conseguem ficar juntos.

O romance ainda tem vários elementos que podem ser interpretados como sobrenaturais, mas que também podem ser entendidos como alucinações de uma mente torturada pelo ódio e pela vingança.

Embora o livro seja um clássico e tenha de fato muita ação acontecendo, o elemento mais interessante de O Morro dos Ventos Uivantes é sem dúvida nenhuma os personagens e como eles se relacionam entre si. O livro também fala de como o amor às vezes vem cercado por sentimentos não tão bons, que são capazes de destruir tudo de bom que existe.

As influências de O Morro dos Ventos Uivantes são infindáveis. A primeira vez que o livro ganhou uma adaptação foi em 1920, logo depois, o livro foi adaptado mais uma vez, em 1939, com Laurance Olivier e em 1954, Luis Buñuel fez a sua versão. Já em 1970, o livro mais uma vez chegou aos cinemas, pela primeira vez em cores e com uma história ligeiramente modificada. Em 1992, Juliette Binoche interpretou Cathy (a mãe e a filha) e Ralph Fiennes interpretou Heathcliff em mais uma versão, e em 2003, a MTV produziu uma versão modernizada do clássico, em que os personagens estão no colegial e tem Erika Christensen como Cathy e Katherine Heigl como Isabel. A versão mais recente de O Morro dos Ventos Uivantes é de 2011 e tem Kaya Scodelario como Cathy.

Charlotte Riley e Tom Hardy na minissérie de 2009.

O Morro dos Ventos Uivantes também teve versões para a tv, em 1978 virou uma minissérie da BBC, e em 2009, a ITV lançou uma série de duas partes com Tom Hardy e Charlotte Riley. Já aqui no Brasil, O Morro dos Ventos Uivantes virou novela duas vezes, em 1967, com uma novela homônima e em 1973, com Vendaval.

As referências ao livro vão muito além de adaptações audiovisuais, o livro tem versões em óperas e em musicais. O livro também inspirou as músicas Wuthering Heights, de Kate Bush e It’s All Coming Back To Me Now, da Celine Dion e a sua trama principal (a ideia de um amante rejeitado e humilhado se vingar em gerações futuras) pode ser vista em diversas obras posteriores, como Harry Potter (na relação de Snape e Harry) e a atual novela das 21h, O Segundo Sol. Aliás, o nome do ator Heath Ledger era Heathcliff, justamente por causa do livro (e sua irmã se chama Catherine, também em homenagem ao livro).

O Morro dos Ventos Uivantes é uma história de amor completamente distorcida, que fala sobre pessoas amargas e egoístas, que não tem qualquer capacidade de amar, mas ainda é capaz de tirar o fôlego do leitor.

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Fernanda Cavalcanti

Formada em cinema, apaixonada por literatura, divide seu tempo livre entre ler, escrever e dançar. Gosta especialmente de terror, mas lê/assiste de tudo. Também escreve para o blog Além da Toca do Coelho.

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