She-Ra e as Princesas do Poder, na Netflix

She-Ra e as Princesas do Poder é mais um resultado da produtiva parceria entre a Netflix e a Dreamworks! Com uma animação infanto-juvenil que respeita suas origens, ao mesmo tempo que entrega um material autêntico e agridoce.

Encabeçada pela quadrinista Noelle Stevenson (da webcomic de sucesso Nimona – publicada no Brasil pela Intrínseca – e dos quadrinhos das Lumberjanes – saindo por aqui pela Devir), a produção acerta no tom otimista e redondinho, que carrega a assinatura cheia de personalidade dessa autora. Mas sem abandonar o material base.

She-ra e as Princesas do Poder acompanha Adora, uma órfã criada dentro de um regime militar chamado de A Horda. Ela é destinada a ser uma grande capitã deste cruel exército, que se encontra em constante guerra com o reino de Lua Clara. Até o dia em que empunha uma espada mágica, o que a leva a se tornar a campeã de Etéria.

A adolescente Adora
A adolescente Adora

A nova She-ra

O design de personagens é contemporâneo. Mais fofo, redondo e compacto. O que remete a livros ilustrados juvenis, tais quais a própria Nimona). Os olhos dos personagens são muito expressivos. Emprestados dos animes, mas com um jeito próprio. E a transformação em She-Ra remete muito a Sailor Moon, o que casou legal por aqui.

A animação é boa, mas nada surpreendente tecnicamente falando. Com cores quentes e vibrantes, num contexto sempre positivo, mesmo diante de muitas adversidades. Afinal, ainda estamos falando de um produto claramente realizado para o público infanto-juvenil. Mas que certamente pode cativar os adultos. Trabalhada de maneira independente, sem qualquer elo com He-Man dessa vez, a nova She-Ra conta com uma interessante mitologia girando em torno de sua própria trajetória.

She-ra
She-ra

Os personagens de She-ra e as princesas do Poder

Certamente são responsáveis por boa parte dos trunfos da série, a começar por Adora. Criada rigidamente e que logo tem que se adaptar a um novo modo de vida, uma figura falha e cheia de dúvidas, que passa longe de sua contraparte endeusada do original. Uma autêntica adolescente, que só muda visualmente quando transformada em She-Ra (uma mulher de quase três metros, uma piada incansavelmente citada). Mas mantém a personalidade e só mostra a que veio mesmo no final.

A nova versão do Arqueiro é incrível, com um cara pra lá de bacana. Um grande parceiro com a qual as meninas podem contar, além de sua habilidade nata com o arco e flecha. O vilão Hordak ainda aparece pouco, mais figurado como um paizão que apoia ações ou dá broncas quando algo sai errado. Permitindo assim que Sombria seja a verdadeira primeira ameaça dessa primeira temporada. Uma feiticeira que leva sua missão destrutiva muito a sério e tem uma complexa relação com Adora e Felina. De longe, a melhor personagem da história, com um background amargo, uma personalidade vibrante e agressiva, mas completamente plausível, e um dos melhores concepts em tela.

Sombria
Sombria

She-ra e as Princesas do Poder

Cintilante é outra que se destaca legal, sendo muito mais relevante no enredo do que sua versão original jamais foi. Aqui, a princesa de Lua Clara faz bom uso de seus poderes de teletransporte e esferas de luz. Quase uma mistura doce de Noturno e Jubileu. Sendo o verdadeiro coração da série, com seu perfil meigo e irredutível ao mesmo tempo. Além de sua relação com a mãe, a Rainha da Lua Brilhante (uma figura séria e sensata) e o crush platônico que tem com o Arqueiro, o que torna a menina bastante identificável com seu público.

No mais, temos ainda ótimos coadjuvantes tanto do lado do bem, quanto do mal. Como as princesas elementais de cada reino (com poderes de gelo, água, vento etc, e perfis que ornam com suas habilidades) – além de um casal gay colocado sutilmente ali, a divertida e estranha Scorpia (um tipo de Brienne sorridente e macabra). Ou até mesmo o pirata Falcão (uma mistura curiosa de Han Solo com Varrick). Apenas o unipégaso Ventania parece mal aproveitado aqui, surgindo logo no começo e só retornando num conveniente desfecho. Não esperem por Corujito, aqui ele é só uma pelúcia de easter-egg.

Empoderamento feminino

Funcionando quase como uma justiça poética, As Princesas do Poder tem a maior parte do seu elenco formado por mulheres (depois de milhares de produções ao contrário). Algo que funciona de maneira natural e não panfletária por aqui, com o empoderamento sendo parte integral de tudo o que compõe a série. Mas sem a necessidade de um discurso, já que neste mundo de fantasia, pelo menos, não se faz necessária qualquer provação.

Fãs de A Lenda de Aang e A Lenda de Korra podem encontrar nesse seriado, um primo próximo, que carrega sentimentos semelhantes. Ainda que fique bem aquém dos Avatar, principalmente pela falta de um senso maior de gravidade. Por outro lado, é nítida também a inspiração evidente em Star Wars. A Horda é o Império (inclusive na maneira como age, no traje de seus soldados etc), Hordak é Darth Vader e por aí vai. Uma referência bem-vinda, aliás.

Multiétnico e com muita representatividade, She-Ra e as Princesas do Poder é uma produção que serve na medida para agradar crianças, jovens e adultos de diferentes maneiras. Ao mesmo tempo que surge como um modelo de como poderiam ser as animações daqui em diante.

She-Ra e as Princesas do Poder

Nome Original: She-Ra and the Princesses of Power
Elenco: Vozes de Aimee Carrero, Joe Amato, Lauren Ash, Krystal Joy Brown, Dana Davis
Gênero: Animação, Ação, Aventura
Produtora: DreamWorks Animation Television, Mattel Creations
Disponível: Netflix

Douglas MCT

Douglas MCT já escreveu para os gibis da "Turma da Mônica", roteirizou o desenho animado "Galera Animal" da TV Globo, participou do enredo do game "Chico Bento" para as redes sociais, é autor dos quadrinhos “Edgar Alan Corvo”, "SUPER" e “Hansel&Gretel”, e dos livros "O Coletor de Almas" e da série "Necrópolis".

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