Veronica, um terror na puberdade

A história coloca uma adolescente, a tal da Verónica (ótima na pele de Sandra Escacena), que aos 15 anos tem a responsabilidade diária de cuidar dos três irmãos pequenos (e acredite, as crianças parecem crianças de verdade e são umas das melhores coisas do filme), enquanto a mãe trabalha fora em horários malucos numa lanchonete. O diretor e roteirista Paco Plaza então, uniu dois mitos em um para entregar um filme de exorcismo com mitologia própria e funcionou, colocando três adolescentes lendo a Tábua Ouija exatamente durante um eclipse, “que abre as portas de outro mundo”.

O que soa dúbido durante todo o longa é sobre a existência da entidade que passa a perturbar Verónica, colocando em risco seus irmãozinhos. Seria tudo uma metáfora para a puberdade (as cenas de primeira menstruação e surto pela responsabilidade precoce estão ali, afinal), ou de fato uma fantasia de horror per se? A resposta chega até o desfecho, que é entregue em partes nos minutos iniciais (um recurso sempre funcional, como já visto por exemplo em Tropa de Elite 2), mas é válida a experiência da dúvida, até mesmo porque o filme se sustenta bem entrecortando sequências tensas com momentos cotidianos, a medida que a adolescente também vem sendo ignorada pela melhor amiga, após o primeiro grande evento chocante. Curioso também que as soluções para o problema são buscadas em revistas de banca, sobre esoterismo e tal, e essa carga cheia de ingenuidade, colabora para a verossimilhança de alguns momentos do enredo.

A entidade em si não é nada assustadora, mas a maneira como o diretor optou por mostrá-la, sempre através de silhuetadas sob o vidro da porta ou das janelas, acabou funcionando legal. Repare, inclusive, que há sempre um espelho ou um reflexo em uma cena com a garota, e o diretor nunca se perde em ângulos fáceis, explorando movimentos de câmera bastante interessantes, que trazem certo vigor a trama.

Veronica

Num mar de obras genéricas, Verónica se destaca, ainda que não seja revolucionário, mas entrega o que promete e não perdoa os inocentes, assim como deve ser um bom e terrível filme de terror.

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Douglas MCT

Douglas MCT já escreveu para os gibis da "Turma da Mônica", roteirizou o desenho animado "Galera Animal" da TV Globo, participou do enredo do game "Chico Bento" para as redes sociais, é autor dos quadrinhos “Edgar Alan Corvo”, "SUPER" e “Hansel&Gretel”, e dos livros "O Coletor de Almas" e da série "Necrópolis".

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