Vingadores: Guerra Infinita

Depois de uma década, três fases e 18 filmes, a Marvel atinge seu ápice cinematográfico com Guerra Infinita, com algumas decisões ousadas e ritmo frenético, até seu apoteótico final.

Definitivamente este é um filme de Thanos. Os irmãos Russo acertaram ao entregar o protagonismo para o maior vilão do Universo Cinematográfico da Marvel, que mais do que obcecado em sua jornada através de uma visão muito particular de sobrevivência (em uma superlotação, só a metade sobrevive), o Titã Louco também gera empatia com o público, apanhando e surrando, gritando e chorando, rindo e se enfurecendo, sendo misericordioso, uma figura completamente humanizada e de longe o melhor personagem do longa, que apresenta boas surpresas.

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Guerra Infinita começa imediatamente de onde Thor: Ragnarok parou (provando a eficiência episódica que os filmes Marvel estabeleceram), decretando um palco trágico ao mesmo tempo que poético antes do próximo passo. Depois, seguem-se rápidas atualizações de contexto dos personagens, onde estão, com quem estão, como estão e quem é Thanos, afinal? Bruce Banner, Wong e Gamora assumem esse lado didático sem perder tempo, pois todo o primeiro ato do filme (assim como praticamente o filme todo) é embalado por ação seguido de ação, com poucas cenas de fôlego, já que são muitos heróis e situações em jogo para pouco mais de duas horas de duração.

A busca pelas Jóias do Infinito se sustenta e se mostra eficiente do começo ao fim, considerando que seus mitos já haviam sido estabelecidos nos filmes anteriores, o que contribui para toda a jornada (além de serem muito bem utilizadas por Thanos, das formas mais criativas possíveis), tanto do vilão quanto de alguns heróis — que se dividem em algumas frentes para missões distintas, compondo dessa maneira um cenário épico (comparável ora a O Retorno do Rei, ora a O Império Contra-Ataca — aqui, pelos desfechos amargos).

Acima de tudo, Guerra Infinita é um autêntico gibi de super-herói, no sentido intrínseco da palavra. Isso é notável tanto nas interações entre personagens, nos diálogos inspirados, no tom melodramático (mas não piegas), no resgate de figuras e elementos antigos (por isso rever ou se lembrar dos filmes anteriores é tão importante, acredite) e principalmente nas empolgantes batalhas — algo nunca visto antes nem mesmo nos filmes da Marvel. Entre as melhores lutas, temos duas memoráveis que ocorrem no planeta Titã, que remete imediatamente a um quadrinho. Quem é leitor (ainda mais os de longa data) e não só espectador, terá uma experiência redobrada por aqui.

Falando dos personagens, num elenco robusto como este, era esperado que alguns brilhassem mais do que outros mesmo. E isso vale tanto no bom sentido, quanto no mal. Homem de Ferro e sua nanotecnologia estão fantásticos, principalmente nos embates contra o Titã Louco, e a nova armadura se prova muito mais do que esteticamente linda, sendo também poderosa em mais de um sentido. Tony Stark busca dar os próximos passos com Pepper até ser interceptado pela invasão vilanesca, sendo obrigado a assumir o manto do maior herói Marvel novamente. O Homem-Aranha está mais Homem-Aranha do que nunca (e muito mais do que foi visto no instável De Volta ao Lar), não só em suas piruetas e devoção nerd, mas principalmente no que tange a proteção e salvação de pessoas (e aliens). Este é o Peter que todos esperávamos ver nas telonas — e a ele são também dados ótimos momentos de ação.

O Senhor das Estrelas é o que melhor fornece timing de humor, ainda mais referente a seu infante ciúmes de Thor. O personagem cresce através da dor e protagoniza uma das sequências mais divertidas e quadrinhísticas do longa, quando rola um breve embate entre Guardiões e parte dos Vingadores. Rocket por outro lado, segue sendo o coração da trama. Groot é apenas pedante, ainda que uma parte de si tenha certa relevância em um momento crucial. Drax e Mantis equilibram a ingenuidade já vistos em Guardiões 2, mas não passam muito disso.

Está em Gamora a chave da história, numa sacada e tanto dos roteiristas Stephen McFeely e Christopher Markus, inesperada por praticamente qualquer especulador da internet. Nebula ajuda no arco da meia-irmã de maneira eficiente.

A Feiticeira Escarlate é outra que ganha luz própria (e talvez a maior que teve até então), sendo importante praticamente em todas as cenas em que aparece, principalmente pelo seu avanço na relação com Visão, aqui mais humanizado e fragilizado, virando um inevitável McGuffin para os vilões. Doutor Estranho é outro que se revela poderosíssimo como esperávamos (nos quadrinhos o mago sempre trazia essa aura junto de seu conhecimento), protagonizando as melhores sequências pirotécnicas do filme, além da misteriosa descoberta sobre como as coisas podem realmente se encerrar (… em Vingadores 4).

Steve Rogers (não mais Capitão América, e nada de Nômade citado aqui) é o grande desapontamento da obra. O herói, que sempre foi o melhor trabalhado na franquia, com também os melhores filmes, em Guerra Infinita só serve pra ação e algumas interações pontuais, mas não tem absolutamente nada a fornecer para a história que seja realmente relevante. Sem erro, o maior problema do filme reside nele, ainda que não chegue a atrapalhar o andamento da história — afinal, ele estando ali ou não, faz pouca diferença, infelizmente. O Pantera Negra não faz muito mais, ainda que esperássemos mais presença do Rei de Wakanda depois do absurdo sucesso de seu filme solo.

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Máquina de Combate mais uma vez tem bons momentos de batalha, junto de Falcão, Okoye, Viúva Negra, Bucky e Shuri — todos competentes em suas funções e posições.

Bruce Banner acaba sendo uma boa surpresa, após o Hulk amarelar (desculpem o trocadilho), e Thor ganha um escopo brilhante em uma jornada própria, quase roubando o filme para si em certo momento (bem justificado, considerando sua tragédia particular). De qualquer maneira, sabendo que a trinca da Marvel sempre foi formada por Stark, Capitão e pelo Deus do Trovão, existia uma promessa de que os três tivessem um equilíbrio dentro do enredo, algo que acaba não acontecendo — por isso, fica mais uma expectativa pelo nebuloso Vingadores 4.

A Ordem Negra, por sua vez, serve apenas como bucha de canhão, não são vilões memoráveis. Dentre eles, apenas Fauce de Ébano tem algo mais a se fazer e lembra muito um inimigo trazido dos animes (ainda mais no que se refere aos seus curiosos poderes) — de uma maneira pra lá de bem-vinda.

Com cenários variados e cenas com boas transições para não cansar o público, acabamos visitando cinco lugares incríveis (muitos deles decadentes), com pelo menos dois revelando de maneira inesperada personagens esperadíssimos. É o tipo de surpresa que faz o espectador ficar atônito e feliz ao mesmo tempo.

Por fim, a batalha final em Wakanda acaba sendo a menos empolgante (depois de tantas sequências portentosas, era de se esperar), mas o contexto funciona ao entregar tensão e fortes emoções. Mas são nos momentos pós-clímax que reside a verdadeira ousadia dos roteiristas e diretores, realizando algo impensável para um filme do gênero, que pode gerar desconforto em uma pessoa mais desavisada. É algo quase shakesperiano, mas não sei afirmar se num sentido positivo ou negativo, o tom divide sensações.

De qualquer maneira, para muitos de nós que sabemos dos próximos filmes da agenda da Marvel, essa ousadia toda perde completamente o efeito. Em mim, pelo menos, não gerou qualquer comoção. Afinal, neste filme, temos perdas e “perdas”. Só assistindo pra entender.

Aliás, apenas uma cena pós-crédito, trazendo velhos personagens de volta e apontando para uma novidade esperada para 2019.

Guerra Infinita consegue entregar um filme épico e trágico, que mais fecha portas do que as abre, preparando um terreno completamente improvável e misterioso para o próximo longa, mas acima de tudo é um verdadeiro gibi da Marvel. E era isso que todo nerd sempre quis ver.

Thanos não será esquecido tão cedo.

Vingadores: Guerra Infinita

Nome original: Avengers: Infinity War

Elenco: Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Chris Evans, Scarlett Johansson

Gênero: Ação, Aventura, Fantasia

Produtora: Marvel Studios

Direção: Anthony Russo e Joe Russo

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