8π, um quadrinho que recupera as origens do Brasil

Em , Magé é uma jovem descendente de indígenas, de 16 anos, que estuda em uma escola para superdotados. Quando seu avô morre, a menina precisa voltar para Altamira. Uma vez em sua cidade natal, Magé atrai a atenção de Hovah, um ocultista que persegue indígenas há tempos. Cabe a Magé, entrar em contato com as suas raízes e despertar os Deuses Tupi-Guarani para salvar sua aldeia e seu povo.

Uma das coisas mais interessantes de é a representação que ele apresenta, tanto nos seus personagens, quanto na sua trama. O quadrinho é focado na população indígena, assim, a história começa em uma tribo que é brutalmente atacada e depois segue Magé, uma descendente dessa tribo. Embora ela, aos 16 anos, viva na cidade grande, ela ainda mantém suas origens e logo tem que retornar a Altamira.

8π trata de temas fortes
8π trata de temas fortes

Quando isso acontece, Magé então, entra em contato com aspectos da sua vida que ela tinha deixado para trás e consegue se conectar com a tribo. Ela mesma diz que na cidade até escuta os conselhos dos sacis que a acompanham, mas que os ignora, mas uma vez em Altamira, ela começa a prestar atenção neles mais uma vez.

Além disso, é impossível negar que a personagem por si só já mostra uma representatividade diferente do que estamos acostumados a ver. Afinal, é raríssimo vermos personagens que tem origens indígenas representados na literatura, cinema, TV ou quadrinhos. Quando isso acontece e ainda retrata os povos indígenas do Brasil, temos um ponto a mais.

Magé
Magé

O povo indígena

Mas vai mais além, o quadrinho não quer só nos entregar uma trama ficcional que envolve indígenas, ele também quer falar dos problemas e do preconceito que essa população vem sofrendo desde que o país foi colonizado. O quadrinho toca em temas como a exploração e a escravidão do povo indígena, os massacres das tribos, a desapropriação de terras e o preconceito descarado e óbvio.

Nesse aspecto, embora o quadrinho use de vários elementos do fantástico, ele também tem um toque bem realista. Mesmo a trama fantástica que pincela as páginas de tem forte apelo às lendas e crenças indígenas. Por exemplo, o autor Danyael Lopes usa dos Deuses e das crenças Tupi-Guarani para cercear sua trama e ainda acrescenta aspectos do folclore brasileiro, como o Saci, a Mula Sem Cabeça, o Curupira e o Mapinguari.

Os desenhos são lindos
Os desenhos são lindos

Uma vez que quase nunca vemos essas criaturas incorporadas a obras artísticas, é muito interessante ver como o autor usa tudo isso no seu trabalho e como isso funciona muito bem. é um trabalho cheio de representação, seja nos seus personagens, seja na sua trama.

O quadrinho

A parte técnica de também é muito cuidadosa, o desenho é muito bem feito e combina bastante com o texto. Os personagens também são desenhados de acordo com suas origens e nem podia ser diferente, uma vez que o autor parece disposto a divulgar a cultura indígena.

O quadrinho também tem uma aura meio sinistra, mesmo porque trata de temas pesados, não só a perseguição a jovem Magé por parte de Hovah, mas também a maneira com que a sociedade trata os povos indígenas. As criaturas que aparecem na página dos quadrinhos acompanham essa ideia. O Saci, que é sempre representado como um garoto sorridente, aqui aparece como uma criatura um tanto quanto assustadora.

Os Sacis em 8π
Os Sacis

É bom ressaltar que as lendas na sua origem são bem mais assustadoras do que as que chegaram para o público atual, então, essa interpretação é só uma recuperação de suas origens. é um quadrinho de leitura fácil e tranquila. A trama, que é interessante e sinistra na medida certa, torna a leitura ainda mais prazerosa. A edição também vem com alguns sketches do autor e com uma prévia do próximo volume.

é um quadrinho que recupera nossas lendas, nosso folclore e nosso povo, e faz isso de maneira bem-feita e bem-pensada, com uma ótima trama e lindos desenhos.

Nome Original:
Autor: Danyael Lopes
Editora: Atacama Atômico
Gênero: Fantasia, suspense
Ano: 2019
Número de Páginas: 61

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