A Maldição da Residência Hill (2018)

Produção primorosa da Netflix, A Maldição da Residência Hill consegue ser uma espetacular história de casa mal assombrada e drama familiar ao mesmo tempo, em uma qualidade rara para os dias de hoje.

A série é baseada no livro A Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson. Note que eu disse baseada, então não espere uma adaptação, mas sim uma inspiração. Aliás, esta autora influenciou grandes autores, entre eles Stephen KingA Maldição da Residência Hill narra a história da família Crain, que se muda para a Residência Hill com o objetivo de reformá-la e, após alguns poucos meses, revendê-la ganhando um bom lucro em cima. 

No entanto, cada noite se revela um desafio para o casal e seus cinco filhos. Tudo graças à aparição de fantasmas e outras alucinações. Vinte anos depois, os membros da família se reúnem para lidarem com as consequências do tempo vivido na mansão. Uma lembrança que os persegue até hoje…

As cabeças por trás da série

Um dos grandes responsáveis pelas 10 horas de horror de primeira linha, é o roteirista, produtor e diretor Mike Flanagan, que começou sua carreira timidamente com produções como Hush e a elogiada continuação de Ouija, além de um dos melhores filmes de 2017, adaptando King: Jogo Perigoso. Diretor de mão cheia e abertamente inspirado pela primeira temporada de LOST, ele compõe aqui uma narrativa fragmentada e não-linear, mostrando tanto eventos passados na Residência Hill quanto no tempo presente (e também de uns anos anteriores ao presente), intercalando situações de maneira compreensível, quase como se o tempo fosse um círculo e não uma sequência, refletindo eventos, ecoando contextos e assim traçando uma linha complexa e inevitável, onde muitas vezes os atos humanos são mais assustadores do que uma aparição no canto da parede. E nem tudo é o que parece.

Outro responsável por abrilhantar a produção é o inspirado elenco. A começar que o responsável pela escolha dos atores do passado e do presente foi certeiro, pois eles são extremamente semelhantes. Inclusive na linguagem corporal. Nem mesmo as crianças desapontam, entregando atuações densas e bem representadas.

Henry Thomas e Carla Gugino em cena de A Maldição da Residência Hill
Henry Thomas e Carla Gugino em cena de A Maldição da Residência Hill

Entre os nomes que valem destaque, temos:

A queridinha do diretor, Carla Gugino, que aqui interpreta a matriarca, única que não tem uma versão no presente, já que não sobrevive à casa; Saindo de GoT, temos Michiel Huisman, um escritor de terror que não acredita nas próprias histórias que viveu; Elizabeth Reaser, centrada mãe de família, que mantém um conveniente negócio funerário; a meiga e impressionante Victoria Pedretti, que sofre com visões intermináveis mesmo após a fase adulta, além de ser o coração da trama; o pobre e viciado Oliver Jackson-Cohen; e a exuberante Kate Siegel, esposa de Flanagan (e também protagonista de Hush), que faz aqui a “típica irmã do meio”, equilibrada e sensata, mas desapegada, com uma sensibilidade ímpar.

O elenco ainda conta com outros grandes nomes, como Henry Thomas (o Elliot, de E.T.) interpretando o patriarca no passado; e o Vencedor do Oscar Timothy Hutton (visto há pouco na série Jack Ryan), que faz o misterioso e melancólico pai no presente.

Produção de peso

A série é ancorada pela Paramount e Amblin, aquela do Spielberg, sabe? Isso carimba a notável qualidade em todos os aspectos da produção. Indo da fotografia (bem alternada entre passado e presente, dia e noite); figurino (o noventista e o contemporâneo); cenário (especialmente a Residência Hill, que é quase um personagem próprio); e até mesmo da ora triste, ora aterrorizante, ora intimista trilha sonora.

As Referências de A Maldição da Residência Hill

Existem várias referências evidenciadas por aqui. Por vez, caminhando pelos corredores da mansão antiga e a estranheza que certas visões nos causam, remetemos ao hotel de O Iluminado, de Kubrick. A construção de suspense com entrega de terror pipoca, vem dos dois Invocação do Mal. A situação presente na casa funerária muito se assemelha a Six Feet Under. A forma como algumas aparições surgem, meio que organicamente, podem lembrar o trabalho de arte feito em A Colina Escarlate, mas menos escandaloso e bem mais dosado. Flanagan não abusa das jumpscares. Mas elas existem e surgem aqui e ali, somente quando necessário. A do carro, especialmente, é a única realmente inesperada e digna de pular do sofá.

O drama familiar, do irmão viciado, de uma tragédia recente, de uma possível traição, além das várias desavenças entre os irmãos, é outro ponto crucial para o triunfo da série, que depende tanto desses riquíssimos personagens quanto do terror da mansão para se sustentar do começo ao fim. Aliás, o diretor foi genial ao equilibrar ambos elementos para construir sua narrativa, carregada de coração e diversas sensações, como misericórdia, luto e ira.

Nisso, ele assume: “Eu posso admitir sem vergonha que foi algo que eu aprendi assistindo a primeira temporada de Lost. Eu amei o jeito que a série me colocava na pele de um personagem específico por um episódio e então largava. Isso criou uma antecipação pra mim, porque eu disse, ‘Eu mal posso esperar para voltar a explorar esse personagem’”.

Série muito bem feita

A edição é inteligente ao mesclar as duas linhas narrativas de forma quase simultânea. Por exemplo, coisas, imagens e diálogos vistos no capítulo um, só farão sentido muito adiante. E estas mesmas sequências serão revisitadas posteriormente, porém sob outros pontos de vista, oferecendo e possibilitando novas interpretações. É como um grande quebra-cabeças, com pedaços espalhados ao longo das dez partes que compõem toda a série.

Fantasmas e criaturas

As criaturas também não ficam devendo. Desde a “moça do pescoço torto” (que tem um plot-twist formidável mais adiante) até o imenso homem de chapéu, que flutua enquanto tateia o chão com sua bengala, passando pela velha na cama, até algumas outras figuras de esguelha, A Maldição da Residência Hill sabe fazer bom uso de seus fantasmas, sempre desfocando a lente quando um deles aparece, ou jogando mais sombra, tornando-o uma silhueta, ou até num canto da tela (tente pescar todos, nem sempre o diretor faz questão que você os veja… mas eles estão ali, nos lugares mais improváveis).

É claro que alguns gestos e atos intrinsecamente humanos são tão ou mais terríveis do que as entidades, como um surto ou um amor maternal imenso. E eu já disse, né, que nem tudo é o que parece. Inclusive o que você acha ser um fantasma ou visão, as vezes pode ser outra coisa.

Para encerrar, peço aplausos para o maior trabalho realizado nesta série, visto no magistral sexto episódio (intitulado “Duas Tempestades”), onde Flanagan trabalha com um plano-sequência para os dois tempos (tanto do presente quanto do passado) durante toda a uma hora, com um travelling de respeito, permitindo a seus atores entregas ainda mais excepcionais, enquanto outros eventos se desenrolam em paralelo pelo cenário. Sério, espetacular. A história já vale somente por este episódio.

Mentira, ela vale por tudo. Uma obra-prima do horror recente, como há muito não se via nas telinhas. Uma escola para produções futuras.

Agora é com você. Vamos entrar no quarto vermelho? É uma viagem só de ida, mas para cada um a resposta será diferente. E qualquer que seja essa resposta, ela será maravilhosa, de uma maneira terrível, mas ainda sim maravilhosa.

A Maldição da Residência Hill (2018)

Nome original: The Haunting of Hill House

Elenco: Carla Gugino, Michiel Huisman, Victoria Pedretti, Henry Thomas, Oliver Jackson-Cohen

Gênero: Drama, Horror, Mistério

Produtora: Amblin Television, Paramount Television

Disponível: Netflix

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