A Menina que Matou os Pais e O Menino…

... que matou meus pais - Um crime, duas versões

É impossível viver no Brasil e ter mais de dez anos de idade e não conhecer o Caso Richthofen. Os filmes O Menino que Matou Meus Pais e A Menina que Matou os Pais apresentam, respectivamente, os pontos de vista de Suzane Von Richthofen (Carla Diaz) e Daniel Cravinhos (Leonardo Bittencourt), sobre o crime que chocou o país: os assassinatos de Manfred von Richthofen (Leonardo Medeiros) e Marísia von Richthofen (Vera Zimmermann), pais de Suzane.

Os filmes podem ser assistidos em qualquer ordem, mas o diretor Mauricio Eça recomenda que se assista primeiro O Menino que Matou Meus Pais.

O Menino que Matou Meus Pais – a versão de Suzane

A ideia por trás dos filmes é bem interessante: os dois contam a mesma história e retratam praticamente os mesmos eventos, mas de pontos de vista diferentes, dando ao telespectador uma visão maior dos assassinatos. Em O Menino que Matou Meus Pais acompanhamos tudo, em flashback, através do depoimento de Suzane.

Christian, Suzane e Daniel
Christian, Suzane e Daniel

Aqui Suzane é uma adolescente de dezesseis anos, loira, bonita, inteligente e rica, mas que vive praticamente presa em casa com um pai que exige muito dela e com uma mãe que não consegue argumentar com o marido. Quando Andreas (Kauan Ceglio), o irmão mais novo de Suzane, começa a fazer aula de aeromodelismo com Daniel, Suzane e o professor começam um romance que, no começo, é idílico e digno de um filme açucarado.

Mas, depois de um tempo, as coisas começam a azedar. Existe a diferença óbvia entre os dois, Suzane vem de uma família rica e aristocrática, vive em uma mansão, faz viagens constantes para a Europa e tem um futuro de sucesso completamente planejado. Já Daniel vem de uma família de classe média baixa, vive de bicos e não pensa em estudar ou mudar de vida. Os pais de Daniel (Augusto Madeira e Débora Duboc) recebem Suzane de braços abertos, mas o namoro rapidamente começa a ser mal visto pelos pais da garota, que acham que a filha merece mais e que Daniel não é uma boa influência para ela.

Além disso, segundo Suzane, Daniel a introduz à maconha e a pressiona o tempo todo para usar drogas. Mais tarde, ela descreve uma cena de sexo que está muito mais próxima de um estupro do que de uma relação consensual. O relacionamento então continua, com Daniel sempre lhe pedindo presentes e exigindo que os dois passem cada vez mais tempo juntos, até o dia 31 de outubro de 2002, quando Suzane, Daniel e Cristian (Allan Souza Lima), irmão de Daniel, assassinaram Manfred e Marísia.

Carla Diaz como Suzane von Richthofen em A Menina que Matou os Pais
Carla Diaz como Suzane von Richthofen

A Menina que Matou os Pais – a versão de Daniel

A versão de Daniel começa exatamente da mesma maneira que a de Suzane, no tribunal, onde ele, também em flashback, vai nos contar os mesmos eventos, mas do seu próprio ponto de vista. Os dois filmes têm, por exemplo, algumas cenas repetidas, mas que ainda narram versões diferentes e, em muitos casos, cenas que são apenas citadas em um, aparecem em outro, como acontece com o jantar dos Cravinhos na casa dos Richthofen, que é mencionado em O Menino que Matou Meus Pais e aparece em A Menina que Matou os Pais.

A grande sacada dos dois longas, no entanto, é apresentar as versões diversas das histórias. Aqui, Daniel e Suzane se conhecem durante as aulas de aeromodelismo de Andreas e se apaixonam, mas não é Daniel que faz com que o relacionamento se torne tóxico. Segundo ele, é Suzane que o apresenta a maconha e também é ela que toma a iniciativa na primeira vez que os dois fazem sexo, não existe nenhuma pressão de Daniel, que até parece assustado.

Suzane também reclama constantemente dos pais, que não lhe dão muita liberdade e especialmente de Manfred, que é muito exigente e quer que ela tire notas impecáveis, deixando pouco tempo para que a adolescente se divirta ou encontre o namorado. Manfred, nessa versão, é retratado como cruel, violento e muitas vezes preconceituoso, já que faz comentários sobre a classe social do namorado da filha.

Os filmes apresentam pontos de vista diferentes
Os filmes apresentam pontos de vista diferentes

Quando Manfred e Marísia viajam por um mês para a Escandinávia e Daniel passa a praticamente morar na mansão dos Richthofen, uma fria Suzane começa a sugerir que a vida dos dois seria muito mais fácil se os pais não existissem, afinal, eles iam poder namorar em paz, viver na bela casa e ter muito dinheiro livre.

A mesma história

É impossível saber com certeza qual das duas versões é a verdadeira ou sequer se qualquer uma delas é, já que mesmo que os filmes sejam inspirados nos depoimentos tanto de Suzane, quanto de Daniel, pessoas mentem o tempo todo, especialmente quando se veem de frente a condenações. Mas a ideia dos longas é justamente essa.

O Menino que Matou Meus Pais e A Menina que Matou os Pais são filmes bem inovadores em alguns aspectos, já que eles não só dão um pontapé inicial para a produção de filmes inspirados em crimes reais no Brasil, um gênero comum nos Estados Unidos, mas que nunca teve muito apelo por aqui, como também, por optar contar dois pontos de vista em dois filmes diferentes, algo que não existe nem no cinema americano.

Daniel e Suzane em A Menina que Matou os Pais
Daniel e Suzane

A ideia é, de fato, bem instigante, é como se a produção fornecesse todos os fatos e as versões para que a plateia possa decidir por si mesma o que aconteceu e criar a sua própria teoria e, uma vez que não existe qualquer dúvida sobre os culpados – e a produção não faz questão de esconder isso, já que nomeia os culpados logo no começo -, a dúvida sobre qual é a versão real é o mistério que resta ao caso Richthofen.

Mas se por um lado é legal poder acompanhar as duas tramas e exista uma diferença, mesmo que pequena, entre o que acontece em cada filme, os longas podem se tornar meio repetitivos e as duas versões poderiam facilmente estar presentes em um filme só.

Aspectos técnicos

O Menino que Matou Meus Pais e A Menina que Matou os Pais parece não ser uma produção especialmente grande, mas que tem cuidados com seus aspectos técnicos. É importante lembrar que os longas retratam pessoas reais e que, por isso, é necessário que exista uma semelhança entre a vida real e o que vemos na tela.

Acompanhamos versões bem diferentes do relacionamento
Acompanhamos versões bem diferentes do relacionamento

As obras ganham muito, por exemplo, na maneira que retratam as casas e as famílias de Suzane e Daniel, deixando claro que existe um abismo entre os dois. A casa dos Richthofen é grande, bonita, repleta de obras de arte e com uma piscina gigantesca, que circunda quase todo o jardim; já a casa dos Cravinhos é simples, pequena, sem luxos. As famílias também mostram esses extremos, Manfred e Marisia são sérios, exigentes, rígidos e, em muitos momentos, preconceituosos, uma vez que fazem comentários negativos sobre Daniel e a família Cravinhos, enquanto Astro e Nadjia, pais de Daniel, são acolhedores, simpáticos e permitem que Suzane e Daniel façam praticamente tudo que querem.

Os atores estão bem caracterizados, embora não sejam necessariamente parecidos com as pessoas que retratam. Vera Zimmermann, Leonardo Medeiros e Augusto Madeira estão bem parecidos com Marisia, Manfred e Astro, e se saem bem em cena. Carla Diaz não se parece tanto com Suzane, mas além de estar bem caracterizada, fazendo com que o telespectador a reconheça rapidamente, está muito bem, e consegue alternar entre a Suzane inocente de O Menino que Matou Meus Pais e a Suzane perversa e fria de A Menina que Matou os Pais.

Outro ponto bem interessante das produções é o figurino, e a maneira com que ele muda de um filme para o outro. Na versão de Suzane ela aparece sempre como uma garotinha, vestidos bonitinhos, tiara na cabeça e um ar inocente que não deixa dúvidas de que ela foi enfeitiçada por Daniel, enquanto ele é retratado como um malandro, com roupas descuidadas e inadequadas, interessado apenas no dinheiro e na boa vida que Suzane poderia lhe proporcionar.

A Menina que Matou os Pais
Os filmes partem de uma ideia bem inovadora

Já na versão de Daniel, Suzane é retratada quase como uma femme fatale, usando jeans, jaqueta, roupas decotadas e maquiagem forte, enquanto Daniel aparece com roupas mais arrumadas, que o deixam muito mais próximo da visão do namorado ideal, do que da ideia que o pai de Suzane fazia dele. Aqui Suzane o seduz com drogas, sexo, amor, uma vez que ele parece legitimamente apaixonado por ela, e a promessa de que eles ficariam juntos para sempre.

É certo que O Menino que Matou Meus Pais e A Menina que Matou os Pais poderiam obter um resultado mais satisfatório se fossem apenas um único filme e se abordassem a investigação e o pós-crime melhor, mas os filmes ainda marcam uma grande virada para o cinema brasileiro e não só retratam o caso Richthofen com certa fidelidade, dando espaço para os dois pontos de vista, como também abrem as portas para que mais produções do gênero true crime – “crime real”, em tradução literal – sejam produzidas no Brasil.

Os longas estão disponíveis na Amazon Prime Video.

O Menino que Matou meus Pais e A Menina que Matou os Pais

Nome Original: O Menino que Matou Meus Pais, A Menina que Matou os Pais
Direção: Maurício Eça
Elenco: Carla Diaz, Leonardo Bittencourt, Allan Souza Lima, Leonardo Medeiros, Vera Zimmermann
Gênero: Drama, Crime, Suspense
Produtora: Santa Rita Filmes, Galeria Distribuidora
Distribuidora: Galeria Distribuidora
Ano de Lançamento: 2021
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