Bojack Horseman – Sexta Temporada, Parte 1

Sou um fã declarado de Bojack Horseman. Não demorou muito para eu perceber que a série tinha algo muito além da excelente comédia onipresente em cada cena: um roteiro amarradinho, bem estruturado e que entregava uma carga dramática-depressiva que eu nunca tinha visto em nenhum outro desenho animado.

A derradeira temporada foi dividida em duas partes, e, tal qual sempre faço, acompanhei vagarosamente a primeira parte que estreou em 25 de outubro, saboreando cada episódio, sem pressa, deixando a série me deixar apropriadamente desgraçado da cabeça.

Isto posto, já é quase óbvio o resultado da minha crítica: sensacional; adorei; a série continua em alto nível, tanto comicamente quanto emocionalmente. As razões de tal paixão, mais do que o gosto pessoal, são novamente a altíssima qualidade do roteiro, o qual precisa de uma discussão quase filosófica e, para isso, o texto daqui pra frente vai ser cheio de spoilers.

Bojack Horseman

Bojack Horseman – daqui pra frente é só spoilers

Até o final da quinta temporada, a série desenvolveu um protagonista extremamente falho: Bojack (Will Arnett) não só é cheio de defeitos, como suas ações são prejudiciais a todos ao seu redor. Ele é egoísta, inseguro, mentiroso, cheio de vícios e um péssimo amigo.

Já na terceira temporada, Todd (Aaron Paul) desabafa: “Você não pode continuar fazendo merda e se sentir mal consigo mesmo como se isso compensasse. Você é o culpado de todas as coisas ruins que acontecem com você. Não é o álcool ou as drogas, ou qualquer coisa que tenha acontecido quando você era uma criança. É você.”

E Bojack termina a quinta temporada finalmente tomando uma atitude para tentar melhorar: entrando em um rehab. É a partir daí que a história segue, mostrando a reabilitação de Bojack.

Bojack Horseman

Sem tempo, irmão

Uma das características mais evidentes da nova temporada é a objetividade: com oito episódios nesta primeira parte, a série não perde tempo em histórias paralelas, recurso que sempre utilizou muito bem. Mesmo os episódios com formato mais experimental, coisa que a série sempre fez com esmero, são deixados de lado por enquanto.

Todos os personagens avançam com seus arcos o tempo todo, e tem espaço pra todo mundo. O amável Todd finalmente está se encontrando, até em questões familiares; Mr. Peanutbutter continua imaturo, mas agora já toma ações com o objetivo de melhorar seu relacionamento; Diane luta com uma depressão, mas começa a buscar um sentido para a própria vida; e Princess Carolyn ainda tenta abraçar o mundo, mas dessa vez com uma prioridade óbvia que é uma filha para cuidar.

O roteiro afiado continua tocando em temas delicados, como sempre fez: explorando a depressão, a exploração trabalhista, a relação dos personagens com seus parentes, e o espaço da mulher no mercado de trabalho. Este último tema ganha uma força grande no episódio focado em Princess Carolyn: é usado um recurso visual extremamente perspicaz para mostrar como ela precisa se dividir em várias para fazer todas as tarefas à qual se propõem.

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Depois, ele é novamente revisitado no último episódio: quando a diretora Kelsey é chamada para dirigir um filme de herói, ela contesta a escolha – e o estúdio realmente só faz questão de  uma mulher dirigindo por ser um filme de uma super-heroína e isso seria algo popularesco que iria de encontro ao gosto do público.

Ou seja, como sempre, a crítica está aí, é atual, é dura e reflexiva. E, quando Kelsey contesta escolhas dos produtores, a porrada também é grande: “As regras são diferentes para mulheres. Se você é uma mulher e salva o dia, ninguém vai te amar. Eles podem até te ressentir, ou te punir. Quanto mais poderosa você for, mais eles vão tentar tirar seu poder.”

A redenção de Bojack Horseman

Como é a última temporada, a série evolui em uma espécie de redenção para seu protagonista. Bojack abraça a reabilitação, faz boas ações e sua evolução é visível. Em uma carta que escreve pra Diane, ele diz “Eu passei tantos anos da minha vida sendo miserável porque eu simplesmente assumi que esse era o único jeito possível de ser. Eu não quero mais fazer isso.

Por toda a temporada, Bojack se comporta. Pela primeira vez, ele não é o imbecil que faz coisas ruins e depois fica se sentindo mal, muito pelo contrário. Bojack trata de reatar diversos laços que foram quebrados por conta de seus próprios atos em temporadas anteriores. Ao se tornar alguém melhor, baseado apenas em suas boas ações, ele define um caminho otimista para seu final.

Mas a série não te premia sem punir e o último episódio dessa primeira parte é o soco final que atinge o incauto telespectador. Nenhum dos personagens principais aparece nesse episódio, o que é uma escolha um tanto quanto arriscada – mesmo para uma série que fez um episódio inteiro em formato de monólogo. O episódio esquece de Bojack para focar em diversos personagens quase esquecidos que foram prejudicados por Bojack no decorrer da série.

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Assim, além da diretora Kelsey, acompanhamos Gina, que claramente guarda traumas pelo incidente com o cavalo e que podem prejudicar sua carreira. E, ainda revirando o passado cheio de lixo do protagonista, uma investigação sobre a morte de Sarah Lynn e uma revelação do incidente de Bojack com a filha de sua ex, em meados da segunda temporada.

Bojack Horseman

Quando finalmente a gente acreditava que Bojack Horseman tinha melhorado, somos apresentados a uma amostra das consequências de suas péssimas ações durante a história. Até a abertura do seriado, sempre cheia de piadinhas, se tornou uma retrospectiva das ações desprezíveis do personagem principal.

Esperando o final

O caminho para os episódios finais está definido e, mesmo que uma evolução seja visível em Bojack, a redenção não é óbvia. A pausa na temporada é em um momento bem escolhido justamente para fazer os fãs explorarem dentro de seus próprios princípios a resolução: afinal, seria justo que um personagem que, no decorrer de cinco temporadas fez tanto mal para tantas pessoas tenha um final feliz?

Para mim, soa óbvio que essa é a questão que foi propositalmente levantada nesses oito episódios. E isso que vai ocupar boa parte das discussões internas dentro da minha cabeça até o lançamento da segunda parte da sexta temporada, que só chega dia 31 de janeiro na Netflix.

E, mais uma vez, a série conseguiu me deixar reflexivo e deprimido. A nota só pode ser aquela de sempre: cinco estrelas. Mas não recomendo pra ninguém.

Bojack Horseman

Nome Original: BoJack Horseman
Elenco: Vozes de Will Arnett, Amy Sedaris, Alison Brie
Gênero: Animação, Comédia, Drama
Produtora: Tornante Company
Disponível: Netflix

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