Canções de Amor, um musical nada hollywoodiano

Canções de Amor é um filme 2007, dirigido por Christophe Honoré (A Bela Junie), que é bem diferente de todos os musicais de Hollywood.

Ismael (Louis Garrel) e Julie (Ludivine Sagnier) são um casal de namorados que, aparentemente, se dá muito bem. Eles então incorporam uma terceira pessoa a relação, Alice (Clotilde Hesme). Até que uma tragédia muda a vida dos três e dos demais personagens do filme.

Relações dúbias

O tema principal de Canções de Amor são as relações dúbias que existem entre seus personagens. O casal de protagonistas, por exemplo, aparece como um casal ideal, que divide um apartamento e que parece ser completamente apaixonado um pelo outro. E quando o espectador já tem certeza que o filme é uma comédia romântica, descobrimos que recentemente o casal incorporou um terceiro elemento ao relacionamento.

Julie, Alice e Ismael
Julie, Alice e Ismael

Mais tarde, em determinado momento do filme, Ismael se vê interessado por Erwann (Grégoire Leprince-Ringuet), um rapaz bem mais novo que ele. Embora seus sentimentos por Julie ainda sejam fortes.

A própria Alice, que parece completamente envolvida com o casal, também se envolve com Gwendal (Yannick Renier), o irmão mais velho de Erwann.

A conclusão que se pode tirar de Canções de Amor é que ninguém parece satisfeito com a sua situação romântica. Embora todos os personagens afirmem amar seus parceiros, eles também parecem mais do que dispostos a se envolverem em outras relações.

Erwann e Ismael
Erwann e Ismael

Toda forma de amor

Uma coisa importante sobre o filme é que ele não fala de traição em momento algum. Esse nem é um assunto que é questionado, uma vez que os relacionamentos retratados no filme são todos abertos.

Uma das coisas legais do filme é que ele não trata nenhuma dessas relações com moralismos. Muito pelo contrário, ele celebra todos os tipos e formas de amor.

O filme também defende uma tese interessante sobre a duração e a intensidade do amor. Uma vez que Ismael tem um relacionamento extremamente intenso com Julie (e Alice, muitas vezes), mas parece pisar no freio quando conhece Erwann. E o questionamento se mantem mesmo após o fim: é mais interessante amar intensamente ou por mais tempo?

O casal de protagonistas
O casal de protagonistas

Sexualidade fluida

Não é só em relação aos relacionamentos que o filme fala de pluralidade. Mas também em relação a sexualidade de seus personagens. Julie, quando perguntada pela mãe (Brigitte Roüan) se Alice era para Ismael ou para ela, responde que é “para os dois”. E ela mesma admite que embora os três mantenham relações a três, muitas vezes ela mantem relações só com Alice. Todo esse espectro poderia nos fazer classificar Julie, e Alice claro, como bissexuais.

Ismael por sua vez, mantem um relacionamento heterossexual com Julie por anos. Mas depois se vê interessado por Erwann, o que também poderia colocá-lo na categoria de bissexual.

Mas talvez a sexualidade dos personagens de Canções de Amor não seja tão importante. O filme deseja apenas falar de amor e das diversas formas pelo qual ele se manifesta. Seja em relações hétero, bi ou homossexuais.

Ludivine Sagnier como Julie
Ludivine Sagnier como Julie

Ismael, Julie, Alice e Erwann são apenas jovens que buscam o amor. E procuram realizá-lo independentemente da forma do corpo aonde esse amor habita.

Embora a irmã de Julie, Jeanne (Chiara Mastroianni) questione a sexualidade da irmã e mais tarde a de Ismael, nenhum dos dois parece preocupado ou sequer interessado em se explicar ou explicar os seus desejos para terceiros.

Influências em Canções de Amor

As influências do cinema francês são uma coisa comum em todo o trabalho de Honoré. Em Canções de Amor portanto, isso não podia ser diferente.

Ludivine Sagnier e Chiara Mastroianni em cena do filme
Ludivine Sagnier e Chiara Mastroianni em cena do filme

As relações a três que o filme retrata lembram muito os triângulos amorosos que eram comuns nos filmes da Nouvelle Vague. Mas se em filmes como Uma Mulher é Uma Mulher (1961) e Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois (1962), os amigos se limitam apenas a disputar a mesma mulher, em Canções de Amor os personagens vão um passo adiante, se relacionando entre si. Canções de Amor, por esse olhar, soa como uma modernização dos filmes da Nouvelle Vague, quase como uma Nouvelle Vague dos dias de hoje. Lembrando que Uma Mulher é uma Mulher também é um musical. Embora Honoré tenha dirigido posteriormente Bem-Amadas (2011), outro musical que lembra muito Uma Mulher é Uma Mulher, Canções de Amor bebe muito na fonte de Godard.

Não é só nesses termos que Canções de Amor nos remete ao movimento dos anos 60. Mas também nas cores e figurinos do filme, que lembram os filmes de François Truffaut, outro diretor da Nouvelle Vague. Especialmente os longas da série de Antoine Doinel (Os Incompreendidos, de 1959, Beijos Proibidos, de 1968, Domicilio Conjugal, de 1970 e O Amor em Fuga, de 1979).

Falando em Doinel

Esse era o personagem mais famoso de Truffaut. Ele funcionava mais ou menos como um alter ego do diretor. Doinel era interpretado por Jean-Pierre Leaud. Considerado o ator símbolo da Nouvelle Vague. Ele tem uma incrível semelhança física com Garrell, o protagonista de Canções de Amor. Leaud é inclusive padrinho de Garrell.

Louis Garrell como Ismael
Louis Garrell como Ismael

Porém, a maior influência de Honoré é com certeza o musical de 1964, Os Guarda-Chuvas do Amor, dirigido por Jacques Demy. O filme conta a história de uma jovem, interpretada por Catherine Deneuve (mãe de Chiara Mastroianni) que se apaixona por um rapaz que está prestes a ir para a guerra.

Claro que Os Guarda-Chuvas do Amor é um filme bem mais inocente (embora não tão inocente para a sua época). Mas os dois filmes são romances musicais e falam sobre jovens se apaixonando em Paris. Além do mais, a direção de arte é extremamente parecida, com seus tons pastéis e seus vestidinhos curtos, cobertos por casacos caquis.

Aspectos técnicos

As músicas usadas na trilha sonora de Canções de Amor foram compostas especialmente para o filme, por Alex Beaupain. Entre elas estão De bonnes raisons, Je n’aime que toi, As-tu déjà aimé?, Les Yeux au ciel, Ma mémoire sale e J’ai cru entendre. Elas são interpretadas pelos próprios atores, que se saem muito bem. Grégoire Leprince-Ringuet, que interpreta Erwann, é, inclusive, cantor de ópera.

Ismael e a família de Julie
Ismael e a família de Julie

O mais longe possível de ser um grande musical de Hollywood, que dirá da Broadway, os números musicais de Canções de Amor são discretos e fazem parte do dia a dia. O filme não apresenta nenhuma cena com grandes efeitos ou coreografias mirabolantes.

A direção de arte e o figurino nos remetem diretamente aos anos 60. Mais uma vez como uma referência a Nouvelle Vague, movimento chave do cinema francês, na década de 60.

O elenco é composto todo por jovens talentos, que se saem muito bem em seus papéis e que mais tarde, voltariam a trabalhar com Honoré. Entre eles estão Ludivine Sagnier (a Sininho do Peter Pan de 2003); Clotilde Hesme (de Chocolate), que foi indicada ao Cesar como melhor atriz revelação; Grégoire Leprince-Ringuet (A Bela Junie), que também foi indicado ao Cesar de melhor ator revelação; Chiara Mastroianni (Bem-Amadas), filha de Catherine Deneuve e Marcello Mastroianni; Alice Butaud (Em Paris) e claro, Louis Garrel (de Os Sonhadores), filho do cineasta Philippe Garrel e da atriz Brigitte Sy, que interpreta o protagonista Ismael.

Alice e Ismael
Alice e Ismael

O filme não ficou muito conhecido aqui no Brasil, mas ganhou o Cesar de melhor música original.

Canções de Amor fala sobre a busca desesperada pelo amor, seja aonde for e o faz sem qualquer julgamento.

Fernanda Cavalcanti

Formada em cinema, apaixonada por literatura, divide seu tempo livre entre ler, escrever e dançar. Gosta especialmente de terror, mas lê/assiste de tudo. Também escreve para o blog Além da Toca do Coelho.

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