Cidade Invisível – 1ª temporada – Mistério e folclore

Em uma fantasia urbana de primeira

Carlos Saldanha e companhia souberam misturar bem os ingredientes em Cidade Invisível, essa sopa com forte identidade nacional. Cada casa, bar, rua e delegacia apresentados respiram e transpiram brasilidade, sem jamais parecer cenário. A equipe não só conhece bem o nosso folclore (que jamais cai nos clichês mais famosos já explorados por Lobato), como também fez direitinho a lição de casa ao não deixar diálogos artificiais, muito menos atuações, em um elenco impecável, dedicado e inspirado, dos veteranos aos jovens rostos.

Luis Carone arrebenta com uma direção cinematográfica e virtuosa, que não só fica a altura de muita obra gringa, como mostra para outras realizações nacionais um caminho a se seguir. Onde, ao explorar a fantasia urbana, consegue manter a firmeza de seus discursos sem soar cafona, sem cair em atuações bregas, nem em lugares-comuns. Os efeitos especiais são ótimos e o valor de produção é altíssimo. As ambientações são sensacionais e tanto fotografia e direção de arte são belíssimas. Com uma trilha envolvente e uma incrível abertura, este se torna então, um ótimo material para exportação.

Cidade Invisível

Cidade Invisível

Mas nada disso valeria se o roteiro não fosse encorpado, e ele é. Um enredo bem amarrado, que pega os vários clichês do gênero (que já vimos e revimos em vários filmes e séries por aí) – de mistério, investigação e de coisas estranhas rolando em meios comuns e cotidianos – e o converte em uma trama original. Assim, temos uma identidade brasileira nunca forçada, que orna na proposta e distribui bem as entidades entre suas representações ordinárias.

Inclusive sabe dar espaço para cada personagem, sem que um suplante o outro, na dose certa. É quase um “Deuses Americanos” passado no Rio de Janeiro, no sentido de como os autores planejaram a inclusão dos seres fantásticos na sociedade e de como isso funciona orgânica e naturalmente. Enquanto o carismático protagonista conduz a narrativa em sua investigação alucinada, figuras vem sendo assassinadas por um vilão desconhecido e temos um “traidor” entre os rostos conhecidos.

Uma bela produção nacional

Todas as fórmulas já se provaram eficientes em outras produções antes e aqui funcionam do começo ao fim. Ou seja, justamente pelo tempero nacional, pela personalidade imposta e pela ousadia de explorar o terreno do fantástico. Tudo isso sem vergonha de ser feliz. Uma das melhores séries dos últimos anos (e digo isso comparando com as gringas).

Da maravilhosa Alessandra Negrini ao boa praça Marco Pigossi, do enervante Samuel de Assis aos experientes José Dumont e Fábio Lago, das lindíssimas Jéssica Corres e Tainá Medina à fofinha e prodígio Manu Diegues, da representação da Cuca a do Saci, do Boto à Iara (com cada criatura folclórica sendo atrelada ao passado caipira, escravocrata e machista do Brasil, de maneira intrínseca e jamais panfletária), tudo em Cidade Invisível soa apaixonado e bem realizado. E de fato é.

E você, enquanto espectador, não tenha vergonha de assumir que o Brasil pode realizar algo tão incrível ou superior quanto a turminha lá de fora. Nós sempre pudemos (vide “Hoje é Dia de Maria” e “A Casa das Sete Mulheres“, só para citar dois exemplos irrefutáveis) e agora temos mais um belo exemplar, que não só pode servir de cartilha para o futuro de outros seriados nacionais, como tem um potencial imenso de crescer em futuras temporadas. Cidade Invisível já mostrou que não tem medo de ousar com suas escolhas narrativas, portanto ganhou meu coração e a minha atenção. Só vem.

Cidade Invisível - 1ª temporada

Nome Original: Cidade Invisível
Elenco: Jéssica Córes, Samuel de Assis, Manuela Dieguez, Alessandra Negrini, Marco Pigossi
Gênero: Crime, Drama, Fantasia
Produtora: Prodigo Films
Disponível: Netflix
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