Estou Pensando em Acabar com Tudo

Obra surrealista propõe digressões sobre a finitude, a solidão e o tempo

Este não é um filme para todos, tão pouco para quem espera ver uma DR na tela. Mas Charlie Kaufman é Charlie Kaufman e, portanto, você pode esperar um filme à lá Charlie Kaufman. Adaptação de um de seus livros favoritos da vida, a publicação Estou Pensando em Acabar com Tudo, de Ian Reid (lançado no Brasil pela Fábrica 231). O diretor e roteirista usa seu estilo único para promover uma versão fiel de boa parte do livro, e também reinventar outras passagens.

Com seu tom erudito e intelectual, a produção é ao mesmo tempo uma road trip, um drama existencialista, um thriller de suspense e… tantas outras classificações. Do balé ao teatro, do humor negro ao terror; nem mesmo a quarta parede sobrevive aqui e ali, emoldurada em uma tela quadrada, focada e inescapável.

Eu estou pensando em acabar com tudo
O livro

A trama de Estou Pensando em Acabar com Tudo

Uma moça namora Jake não faz nem dois meses e agora estão pegando a estrada durante uma tempestade de neve para ele apresentar seus pais num jantar. Ela questiona se esse relacionamento cinza e aguado tem futuro e justifica o título do longa ao considerar a ideia de terminar com o cara. E é isso, mas justamente não é. Fãs do roteirista vão identificar elementos semelhantes de uma de suas principais obras-primas, ”Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, pelo tema, pela neve e pela linguagem incomum.

De seu parceiro, Michel Gondry, Kaufman empresta a narrativa surrealista, de contornos melancólicos. Mas, enquanto a produção estrelada por Carrey e Winslet lembra um triste sonho, Estou Pensando em Acabar com Tudo remete mais a um pesadelo, longo, verborrágico e estranho. Muito estranho. Em certas passagens, como dentro da casa da fazenda, o cineasta usa dos mesmos recursos que Darren Aronofsky colocou em ”Mãe!”, com personagens sumindo do nada, aparecendo do outro; a passagem do tempo avançando ou retrocedendo de maneira orgânica, em cortes secos, em enquadramentos ousados, por vezes teatrais, como se vistos de uma casa de bonecas etc.

Estou Pensando em Acabar com Tudo

O elenco

Jessie Buckley é uma revelação mais do que bem-vinda. Sua química com o par faz tudo funcionar na história, desde o desconforto durante a viagem, passando pela verborragia proposta em toda a rodagem; seja no medo crescente que surge no terceiro ato, quando o diretor flerta com o suspense misógino, deixando um público mais desavisado acreditar que aquilo se trata de um terror de estupro ou sequestro, mesmo que não.

Jesse Plemons está mais do que acostumado a fazer um tipo comum e esquisitinho de fala mansa e aqui sua performance sustenta a figura singular e chave da trama. No mais, Toni Collette e David Thewlis estão impagáveis como os pais de Jake. Assim, temos ela variando entre pequenos surtos e momentos de surdez; enquanto ele se porta bizarramente nunca encarando o filho, mesmo quando se dirige a prole.

Suspense, terror, drama…

Charlie Kaufman aproveita a linguagem cinematográfica para promover situações impossíveis das páginas do livro e usa e abusa de pequenos símbolos para fazer desse filme um pequeno conto de terror, ao menos por alguns minutos. Então atenção aos porcos, ao porão, ao filme na TV, ao zelador desconexo na narrativa (mas óbvio na identidade), às mensagens de voz sinistras, às olhadas para o público ou para elementos fora do enquadramento, à escada infinita, às citações constantes de retorno à fazenda, à estrada sem volta, à lixeira com centenas de copos evidenciando a repetição etc.

E claro, principalmente, ao conteúdo dos diálogos. Ainda que um excesso de erudição e deslumbramento do autor saiam o tempo todo da boca dos personagens, muitas das frases riquíssimas retiradas do livro contribuem para o clima depressivo e suicida proposto no enredo, que é outro ponto de justificativa do título. Fiel ao livro na linguagem e na essência, Kaufman opta naturalmente por realizar em sua adaptação pequenos ajustes, além de promover um final aberto, ainda que fiel ao original.

Cuidados com os spoilers de Estou Pensando em Acabar com Tudo

Na publicação de Ian Reid, Jake e a namorada são a mesma pessoa (algo que para mim ficou evidente no primeiro ato do filme, quando ambos se reconhecem numa foto de infância, na parede da casa), mas não como um duplo à lá ”Clube da Luta”. Sustentado pela nostalgia, o homem que chama sua garota cada vez por um nome, se suicidou, após ter fracassado na vida, segundo ele próprio.

Inteligentíssimo, nunca foi muito feliz vivendo com os pais, nem era popular no colégio e provavelmente recebeu muitos foras das paixonites quando mais jovem (e/ou teve relacionamentos de curta duração, sem nunca conseguir fixar com ninguém). Tornando-se zelador do colégio onde estudou, trabalhou por décadas lá, até decidir se matar. Aproveitando uma noite de tempestade de neve, ele retira as próprias roupas e morre de hipotermia.

No livro, esse desfecho é explicitado pelo escritor. No filme, muito disso é mostrado, mas o cineasta opta por um tom mais poético e abstrato, deixando em aberto o final para o público entender o que quiser, mesmo que um final oficial exista no original e possa também para o longa. Afinal, aquele monólogo para o público envelhecido em maquiagem propositalmente fake, diante das paixões que teve e dos pais, ganhando o Prêmio Nobel, é tudo o que ele queria ter atingido e jamais alcançou.

Estou Pensando em Acabar com Tudo
Toni Collette

Eita!

Não à toa este é um dos livros prediletos de Kaufman, pois justamente comunica com o cinema que ele sempre escreveu. Aquele do mundo do homem metropolitano fracassado e infeliz, que busca saídas da rotina ordinária sempre tardiamente, e sempre levado a um ciclo infinito e purgatórico de rememoração, ou de recriar memórias que nunca existiram (Jake pode nunca ter tido uma namorada e aquela figura no corpo de Buckley ter sido apenas uma idealização do que ele sempre quis para si, mesmo que a curto prazo).

Logo no começo, os namorados discutem no carro que humanos são os únicos animais que não podem viver no presente, pois sabem da inevitabilidade da morte, e a partir disso inventaram a esperança. Assim, Charlie Kaufman retorna à sua ideia de que a esperança é fabricada conscientemente pelos humanos e não algo natural da espécie. Melancólico, sim, mas verdadeiro.

Estou Pensando em Acabar com Tudo, e você?

Por outro lado, o filme ganha um viés contemporâneo, ainda mais em tempos de #MeToo, dando o protagonismo para a mulher (seja ela real ou simbólica), que passa a história inteira lutando por uma escolha quase impossível: ou ela continua com Jake e fica eclipsada, ou ela termina e acaba apagada das memórias dele, como aquele outro longa já citado. Muitos diálogos entre eles também evidenciam essa preocupação, do papel e do espaço no feminino na sociedade, mas inevitavelmente, o filme ainda é de Jake e a mulher de vários nomes surge como uma musa ao contrário, uma figura idealizada do que se poderia alcançar. Ela é a estrada sem fim, onde nunca vai se chegar.

Seja para ele ou seja para as mulheres, só resta a aceitação do fim e a desesperança do inevitável. E que assim seja. Estou Pensando em Acabar com Tudo está disponível na Netflix.

Estou Pensando em Acabar com Tudo

Nome Original: I'm Thinking of Ending Things
Direção: Charlie Kaufman
Elenco: Jesse Plemons, Jessie Buckley, Toni Collette, David Thewlis
Gênero: Drama, Thriller
Produtora: Likely Story
Distribuidora: Netflix
Ano de Lançamento: 2020
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