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Insatiable, uma série polêmica e original Netflix

Antes de sequer estrear na Netflix, Insatiable já vinha causando polêmicas. O trailer da série causou uma onda de protestos e pedidos de cancelamento, que acusavam a produção de gordofobia. A Netflix não voltou atrás e lançou a primeira temporada de Insatiable no último dia 10.

Na série acompanhamos a história de Patty (Debby Ryan), a gordinha da escola que depois de emagrecer, resolve participar de concursos de beleza e se vingar de seus colegas.

As decisões erradas de Insatiable já começam com o motivo pelo qual Patty emagreceu. Não é porque ela simplesmente resolveu que se sentiria melhor dessa maneira, mas porque ela entra em uma briga (por comida, claro) com um mendigo e leva um soco na mandíbula, ficando assim, restrita a uma dieta líquida. Não existe maneira pior de falar de uma dieta em uma obra voltada para o público jovem do que mostrando uma dieta que não tem absolutamente nada de saudável. Antes da personagem emagrecer, o telespectador assiste cenas de Debby Ryan, uma atriz magra, usando um traje de gorda, já tradicional de comédias debochadas e não de produções que pretendem debater o tema de maneira séria.

Debby Ryan usando o traje de gorda

Então, Patty conhece Bob (Dallas Roberts), um advogado frustrado, que deseja ser treinador de jovens misses e que foi acusado de assédio sexual por uma adolescente (Irene Choi). Por algum motivo que não tem qualquer explicação, Patty se apaixona por Bob e começa a fazer de tudo para que ele retribua seu amor. Não bastasse as piadas com gordos e com homossexuais, a série faz piada com pedofilia. Quando a melhor amiga de Patty, Nonnie (Kimmy Shields) comenta que Bob foi acusado de abusar de uma menor, Patty responde “Ah, então, eu tenho chances”.

Talvez a ideia da criadora da série tenha sido falar sobre relações consensuais com menores de idade, é verdade que Bob não incentiva o amor de Patty, ele sequer percebe a paixonite da menina (e também é verdade que ele é inocente da acusação de abuso sexual), mas fazer piada com um assunto tão sério, não parece a maneira certa de tratar isso.

Bob é um homem extremamente afeminado, que cai no esteriótipo de gay muito utilizado antigamente, e mesmo assim, ele é casado. O fato do personagem ter trejeitos femininos e ser casado, não é por si só um problema, uma vez que a série pode tratar sobre aceitação, mas a produção repete esteriótipos já cansativos, como a ideia da “bicha má”, que faz fofoca e “gonga” outras pessoas. Insatiable tem outros personagens gays, que não são tão estereotipados e a série tem até uma abordagem decente sobre o assunto, especialmente em relação a Nonnie, que vai se descobrindo lésbica durante a temporada.

Depois de magra, Patty passa a fazer sucesso na escola e com os garotos

O único “casal” gay que aparece de fato na série, soa meio descabido e não é nenhum um pouco desenvolvido.

A série também fala sobre a vida romântica de Patty, que claro, só começa depois que ela emagrece. Se quando gorda, Patty só recebia olhares negativos, depois de magra, ela chama a atenção de Brick (Michael Provost), por quem ela sempre foi apaixonada e Christian. Num enorme desserviço para o público, especialmente jovem, a série deixa mais do que claro que mulheres gordas não têm qualquer chance de serem felizes no amor ou de sequer atraírem olhares.

Em um conceito ainda mais amplo, Insatiable mostra que Patty só consegue realizar seus sonhos e ser feliz quando fica magra, afinal, é impossível ser gorda e feliz ao mesmo tempo, certo?

Patty e Christian

Mesmo que você assista a série como uma comédia para entreter, ela não funciona. O roteiro é bagunçado e confuso, os personagens que começam com algum objetivo, parecem esquecer disso no meio dos episódios, e em muitos momentos, a obra dá apenas sono.

Os episódios tentam seguir um estilo de humor negro, que tira sarro de coisas sérias, mas todas as piadas soam como de mau gosto.

Já o figurino, os penteados e as maquiagens são muito bem produzidos e até bem bonitos.

Nonnie e Patty

Um dos maiores problemas da série é que os personagens são todos insuportáveis, com exceção de Nonnie, que parece a única pessoa sensata e decente na trama. Patty é vingativa, egoísta  e não pensa no sentimento de nenhuma outra pessoa além dela mesma, ela manipula, mente, desmascara e ataca pessoas a seu bel prazer. É muito difícil acompanhar uma série que tem um protagonista que não tem uma qualidade, ninguém torce por uma pessoa tão ruim quanto Patty e não existe qualquer identificação com um personagem assim. Outra série da Netflix, Girlboss, foi cancelada após a primeira temporada porque tinha uma protagonista mimada e que não hesitava em tirar vantagem de tudo e todos.

Bob por sua vez, espalha mentiras e fofocas e faz de tudo para vencer, as outras concorrentes a miss são fúteis e competem entre si o tempo todo, reforçando a ideia de que não existe amizade verdadeira entre mulheres. Já as mães das meninas, também parecem dispostas a tudo para que suas filhas ganhem os concursos e os meninos da escola de Patty são mostrados como adolescentes controlados por hormônios, que só pensam em sexo.

Patty e Bob

A criadora da série, Lauren Gussis disse que a ideia da série era dizer que magreza não está atrelada a felicidade, já que Patty se torna mais infeliz depois que emagrece. Se a ideia era dizer que uma mulher gorda tem exatamente a mesma chance de felicidade que uma mulher magra, não seria melhor fazer uma série que a protagonista fosse uma moça gorda, que não precisasse emagrecer e que mesmo assim realizasse os seus sonhos, ou em uma trama mais fútil, conquista-se o rapaz por quem é apaixonada, já que é tão raro se deparar com uma personagem feminina gorda, que não precise de uma transformação para ser feliz? Não seria muito mais interessante que uma série voltada para o público jovem contasse esse tipo de história dando a chance de que meninas gordas possam, finalmente se reconhecerem em uma protagonista e percebessem que elas não precisam, necessariamente, mudar para serem felizes?

Insatiable

Com uma grande chance nas mãos, Insatiable joga tudo pelo ralo quando repete clichês batidos e espalha piadas de mau gosto, reforçando ainda mais a ideia de que o personagem gordo serve apenas para ser piada.

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Fernanda Cavalcanti

Formada em cinema, apaixonada por literatura, divide seu tempo livre entre ler, escrever e dançar. Gosta especialmente de terror, mas lê/assiste de tudo. Também escreve para o blog Além da Toca do Coelho.

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