Lolita, a obra polêmica de Vladimir Nabokov

A obra ‘Lolita’ narra o amor obsessivo de Humbert Humbert, um cínico intelectual de meia-idade, por Dolores Haze, Lolita, 12 anos, uma ninfeta que inflama suas loucuras e seus desejos mais agudos.

Fonte:https://www.amazon.com.br/Lolita-Vladimir-Nabokov/dp/8579620562

Lolita é com certeza, o livro mais famoso de Vladimir Nabokov, ele foi alvo de diversas polêmicas e chegou até a ser banido em alguns lugares.

O livro conta a história de Humbert Humbert, um homem de meia idade, que se “apaixona” perdidamente por Dolores Haze (que ele apelida de Lolita), uma menina de 12 anos e para ficar perto da menina, ele se casa com sua mãe, Charlotte Haze. Quando Dolores fica órfã, Humbert vê seu caminho a garota completamente livre e parte com ela para uma viagem pelos Estados Unidos.

O motivo para o livro causar tanta controvérsia até hoje é bem óbvio. Ele fala sobre pedofilia de maneira bem aberta e ainda por cima é narrado em primeira pessoa do ponto de vista de Humbert Humbert. Em função disso, muitas pessoas acreditavam que o livro era autobiográfico e que Humbert Humbert, seria o próprio Nabokov.

Na verdade, a história foi baseada em um caso real, o seqüestro de Sally Horner, em 1948.

Dominique Swain e Jeremy Irons no filme de 1998.

O fato do livro ser escrito do ponto de vista de Humbert é uma das coisas que fazem esse livro tão incrível. Humbert passa a história toda tentando justificar o “amor” que sente por Lolita, quando na verdade, Humbert é um pedófilo que está obcecado por ela. Ele diz estar apaixonado pela menina, diz que ela não é tão inocente quanto parece e diz que ela é uma ninfeta (um termo usado para descrever meninas sexualmente precoces) e que em muitas vezes, ELA o provoca. A única pessoa que pode se sentir “provocada” por uma menina de 12 anos, é um pedófilo.

E a parte mais interessante de todo o livro é que Nabokov escreve tão bem e coloca palavras tão convincentes na boca de Humbert, que muitas vezes acreditamos no que ele diz. Tanto acreditamos que muita gente considera Lolita uma história de amor!

A própria Lolita não tem voz nenhuma dentro da história que leva o seu nome, só conhecemos Lolita através dos olhos de Humbert, por isso achamos que ela é uma menina provocante, que está pedindo por tudo aquilo que acontece com ela. Na verdade, Lolita conta a história de uma criança, órfã, que é deixada na mão de um pedófilo e que passa anos sofrendo abusos por parte dele, uma trama que tristemente acontece com uma frequência assustadora.

Faz parte do trabalho da literatura nos colocar na mente de pessoas diferentes de nós e Lolita faz isso muito bem, uma vez que nos coloca na cabeça de um homem perturbado e criminoso.

James Mason e Sue Lyon no filme de 1962.

Além disso, Lolita é um livro que transita por diferentes gêneros, e Nabokov se sai bem em todos eles. No começo, é um livro biográfico, que nos conta a juventude de Humbert, então, vira um drama, quando o protagonista conhece Lolita, mais tarde, quando os dois começam a viajar pelo país, o livro se torna um “road book” e quando você acha que o livro não pode mudar mais, ele se torna um thriller. Tudo isso acontece de maneira bem sutil e natural, nada parece absurdo.

Embora muita gente considere o livro pornográfico ou erótico, ele não é nenhuma das duas coisas. Quase não há cenas explícitas de sexo, pois mesmo falando sobre sexo, muitas vezes ele nem é completamente claro sobre esse assunto, já que foi escrito nos anos 50. Mais precisamente em 1955, e por isso trata de um tema extremamente moderno e que só de fato ganhou destaque recentemente.

De alguma maneira, Lolita ficou conhecido como uma história de amor, que incentiva a relação entre Humbert e Lolita, quando na realidade, ele faz exatamente o contrário, embora não de maneira explícita. Não existe uma lição de moral clara no livro, mas ela está lá nas entrelinhas, basta querer entendê-la.

Sally Horner, a “verdadeira Lolita”

Lolita ganhou sua primeira adaptação cinematográfica já em 1962, pelas mãos de Stanley Kubrick. O filme tem James Mason, como Humbert, Sue Lyon, na época com 15 anos, como Lolita e Peter Sellers. Ele deu uma abrandada no romance, uma vez que Lolita parece uma adolescente e não uma criança. O livro foi adaptado mais uma vez em 1998, por Adrian Lyne, com Jeremy Irons, como Humbert e Dominique Swain, também com 15 anos na época, como Lolita. Embora seja mais recente e tenha cenas mais explícitas, esse filme foi ainda mais brando se comparado com a história original, uma vez que nessa versão, Lolita tem 14 anos e não 12.

Embora tenha sido adaptado apenas duas vezes, a influência de Lolita na sociedade é inegável, é só checar a quantidade de filmes que repetem esse modelo à exaustão, como O Profissional (1994), Paixão sem Limites (1993), ou no filme Pretty Baby- Menina Bonita (1978), aonde Brooke Shields interpreta uma prostituta de apenas 12 anos, e mais recentemente a minissérie Presença de Anita (2001). Inclusive, os termos Ninfeta e Lolita, ambos cunhados por Nabokov no livro, foram incorporados ao vocabulário popular para descrever jovens garotas sexualmente precoces.

Longe de toda a polêmica e de toda a má compreensão que existe ao redor do livro, Lolita é um livro bem escrito, que toca em temas pesados e que precisam ser discutidos.

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Fernanda Cavalcanti

Formada em cinema, apaixonada por literatura, divide seu tempo livre entre ler, escrever e dançar. Gosta especialmente de terror, mas lê/assiste de tudo. Também escreve para o blog Além da Toca do Coelho.

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