Mestres do Universo: Salvando Eternia

Parte 1 e 2

O maravilhamento com essa nova série Mestres do Universo não acontece somente pelo fator nostalgia, mas por pegarem um material tão rico e saber continuá-lo respeitando suas origens, à medida que se recria alguns elementos aqui e cria-se outros acolá. E não tinha ninguém melhor que o nerdão Kevin Smith para isso, com sua linguagem cinematográfica e de quadrinhos, levando um dinamismo perfeito para 5 episódios extremamente dinâmicos, sem embromações e que vão direto aos pontos do começo ao fim.

Eu cresci com He-Man e os Mestres do Universo no final dos anos 1980, nas manhãs com a Xuxa, e fui privilegiado com a coleção completa de bonecos, que me acompanharam até o fim da infância. Mais do que brinquedos incríveis, foi a primeira saga que marcou minha vida. Também me influenciou como escritor e muito desses elementos, que mesclam tecnologia com magia, vieram a refletir em obras minhas, como Necrópolis principalmente.

Mestres do Universo: Salvando Eternia

Mestres do Universo

Smith e a Mattel conhecem o material e a paixão é evidente aqui. O redesign funciona, tanto atualizando elementos do passado, quanto recriando uniformes e visuais após os eventos do episódio 1 (e agora vêm os spoilers…).

O autor é muito ousado pelas decisões que toma (“matar” Adam duas vezes, uma no começo e outra no fim, é digna de aplausos de George R. R. Martin), assim como os sacrifícios que executa pelo caminho (o de Gorpo, em especial, foi realmente impactante); entre outras decisões, o de um maior protagonismo feminino, ao menos nessa parte 1 — algo que, de fato, sempre existiu na série clássica (a divisão de protagonismo entre He-Man e Teela, e até de Mentor e outros), embutindo mais representatividade, sem jamais se deixar perder para a lacração barata.

Nessa, Teela e Maligna principalmente, mas também Feiticeira e a novata Andra (que não cheira nem fede, mas ao menos serve como representante de uma nova geração), funcionam em uma jornada nobre, com aliados improváveis pelo caminho. A expansão de cenário também é rica, tanto com SubEternia, quanto com PrEternia, duas ideias e tanto.

Mestres do Universo: Salvando Eternia

O saudosismo

Para os mais nostálgicos, até mesmo o humor besta e infantil do original é revivido aqui, principalmente na figura de Gorpo, Esqueleto (a sua cena inicial com a Feiticeira é hilária) e Pacato. He-Man retorna ainda mais carismático, com um Adam igualmente sensível, como sempre foi. Os flashbacks do campeão contra seu maior inimigo parecem um aceno agradável para o passado.

Mas claro que Smith não esquece do presente e, em sua abordagem mais adulta, ele jamais comete o pecado da tragédia gratuita e dá função e propósito para cada morte, ou decisão, ou evolução em tela. Outros capangas ganham diferentes perspectivas aqui — Tri-Klopis de um lado, que anseia ganhar espaço quando seu chefe sai de cena, assumindo o manto de um fanático tecno-religioso é demais; Aquático, dominando os oceanos, promete mais para o futuro; e Fera, que mesmo mudando pouco, ainda soa interessante aparecendo como guarda-costas de sua amada (mas espero mais do Mandíbula na parte 2, hein?).

Mestres do Universo: Salvando Eternia

E o que mais?

Todo o sistema de magia, as regras do mundo e a mitologia de Eternia, são descomplicados e facilmente compreensíveis, seja para os velhos fãs ou para os que estão chegando agora, afinal Mestres do Universo: Salvando Eternia consegue ser um produto muito eficaz para ambos os públicos.

Uma animação competente, um elenco de voz inspirado (tanto no original em inglês, quanto em alguns retornos nostálgicos do português — na dúvida, veja duas vezes, uma em cada versão) e um roteiro redondo, objetivo e poderoso, que conta com pequenos easter-eggs (tanto de figuras menos conhecidas do clássico, quanto outras que só existiam em boneco, mas agora tiveram a chance de serem animadas) e ótimas surpresas, com um final espetacular, que promete bastante.

Dessa maneira, o novo Mestres do Universo se consagra como uma das maiores produções animadas da Netflix, uma fantasia de primeira e um tributo mais do que bem-vindo. Empolgante, divertido e visceral ao mesmo tempo. Eu tenho a Força, agora mais do que nunca, e vocês?

Mas a parte 2…

Depois de apresentar uma narrativa que subvertia seus próprios tropos e renovava de maneira interessante uma obra nostálgica (goste você ou não), apresentando novos cenários de Eternia com uma trama cativante, essa parte 2 parece chegar meio cansada, desgastada e com ideias esgotadas, caindo em lugares-comuns sem a mesma inventividade de antes, colocando apenas reviravoltas pela reviravoltas (Esqueleto com a Força, depois He-Man selvagem, então Maligna se tornando Feiticeira, depois ela com a Força, He-Man retomando a Força e fazendo parceria com o Esqueleto, depois Teela se tornando Feiticeira… são tantas intenções de “uow”, que nenhuma delas atinge de fato esse ápice).

Em dado minuto próximo ao fim, embutem uma cena tresloucada de anime, como se saída do Studio Trigger… o que soou bem fora de tom, de tudo o que tinha sido mostrado até ali. Mesmo tendo terminado há pouco, confesso não lembrar de nenhum momento marcante nessa parte 2, que até abraça mais o lado infanto-juvenil da animação clássica (apesar de manter a violência e descartar personagens a torto e a direito), onde Kevin Smith expõe claramente falta do que dizer. Mas valeu a tentativa.

Nome Original: Masters of the Universe: Revelation
Elenco: Vozes de Chris Wood, Sarah Michelle Gellar, Lena Headey, Mark Hamill
Gênero: Animação, Ação, Aventura
Produtora: Mattel Television
Disponível: Netflix
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