Meu Nome é Sara, a guerra inspirando o cinema

Koretz é uma cidade que fica na divisa entre a região da Polônia e Ucrânia, próxima a Kiev. Na época do Holocausto, antes da Guerra, milhares de Judeus eram dizimados pelo domínio que Hitler exercia sobre as famílias não judias que muitas vezes entregavam judeus por uma questão de sobrevivência já que o exército alemão tomou conta de diversas cidades e cobrava impostos altos em caráter de opressão.

Baseado em fatos, o longa metragem exibido na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está agora em cartaz. Meu Nome é Sara conta a história de uma menina que aos 13 anos de idade se vê obrigada pelos pais a abandonar sua família. Assim, para sobreviver neste mundo dos nazistas, aprende com sua mãe as orações Cristãs, a fazer o sinal da cruz e renegar sua origem para se manter viva.

Na Polônia, Sara Góralnik vivia com seus pais e com seu irmão. Ela consegue fugir para a Ucrânia usando a identidade roubada de uma amiga, vizinha de sua família. No caminho da fuga ela é acolhida por uma família de fazendeiros. Assim, ela trabalha como babá de seus filhos em troca de teto e comida.

Meu Nome é Sara

Meu Nome é Sara

Em uma época em que era difícil inclusive para as famílias católicas conseguirem seu sustento, isso pode-se chamar de boa sorte. Pois, mesmo essa família composta por um pai, uma mãe e duas crianças, tendo apenas algumas galinhas, uma vaca e porcos, além de uma plantação, tinham que constantemente dar carne para pagar os impostos cobrados na região. Até que, sem quase nada, se vêem em um momento de necessidade de esforço físico para arar a terra sozinhos pois até as ferramentas lhes foram tomadas.

A dificuldade não para por aí. Há o medo constante de mulheres assediadas serem estupradas pelos oficiais do exército ou até mesmo por fazendeiros da região que buscam diversão fora de suas casas e também repudiam os judeus. Tudo vai muito bem até que Sara começa a conhecer os segredos dessa família e se vê diante de momentos de tensão e ansiedade pois precisa, a qualquer custo, manter sua identidade que pode a qualquer momento ser revelada, inclusive por pessoas que possivelmente conheciam a família da verdadeira Sara.

O filme conta um pouco da história do Holocausto sem passear por fatos históricos, mas narrando de maneira muito pessoal como se fosse um diário. Ele retrata mensagens sobre relacionamentos que apesar de remeter a um período histórico mundial, avança com os personagens em direções de sensibilidade e emoções. A mãe de Sara, que aparece em determinado momento do filme, fala para sua filha que se faz necessário que ela sobreviva para dar continuidade ao legado da família e que essa seria a real vingança sobre os nazistas.

Reflexões

Para sobreviver, Sara precisa negar esse legado. Ela deixa para trás sua religião, finge ser Cristã, come carne de porco e refeições que não são kasher. Entretanto, em sua alma e memória ela permanece judia, ligada às origens e tradições de sua família. Um fato curioso é que ela começa a sonhar e falar durante a noite orações e isso a deixa ressabiada e com medo de ser descoberta mostrando que ela precisa permanecer atenta mesmo enquanto dorme.

Sua astúcia foi o que a manteve viva durante tanto tempo. Aliás, o tempo é algo que não se consegue quantificar na trama, pois tudo está sendo contado de uma forma muito linear e sem delongas. Aqui, o principal ponto que nos leva a mergulhar na trama é, além do fato da tensão contínua bem retratada, o figurino. Além disso, a montagem é feita para remeter a essas épocas.

O filme traz diversas reflexões sobre racismo, xenofobia e o quanto isso ainda existe nos dias de hoje com relação a distinção não somente entre raças e regiões mas também a religião. A contínua atmosfera de suspeita e deterioração, da falta de conceitos humanitários, é recriada em uma realidade que trata de perseguição, genocídio e uma idealização de hegemonia distópica, distorcida. As atrocidades são retratadas de maneira sutil mas muito profundas com a história real que Sara viveu.

A realidade da guerra

Na Polônia, Ucrânia e Rússia, os militares eram simpatizantes de Hitler e enxergavam judeus como subumanos e isso fica bem claro no longa metragem. Há cenas bem fortes que mostram um pouco da realidade sofrida por essas famílias. Steven Oritt, diretor do filme, foi com Zuzana Surowy, a atriz, visitar o campo de Auschwitz para que ela pudesse entender e criar empatia com a personagem.

O filme não se concentra em falar sobre as fugas como outros filmes recentes tem mostrado, mas mostra o lado emocional e toda a parte psicológica da protagonista. Esse é outro exemplo das excelentes construções que esse filme traz.

Meu Nome é Sara

Outro exemplo em termos visuais está presente em uma cena na igreja quando Sara vai com os patrões. A câmera desce lentamente na vertical e passa através das luzes que são refletidas pelos lustres, chegando a cabeça do sacerdote no dia em que ela vai se confessar e receber o corpo de cristo, a hóstia sagrada. Essa já é uma maneira de mostrar a sobreposição que a igreja católica tinha nessa época e o quão santificado era ser Cristão.

Qual o custo da sobrevivência? As histórias paralelas também vão revelando o quanto todos nessa época passavam por momentos de necessidade e de sobrevivência e todos os personagens nos levam a refletir o quanto devemos ser gratos pelo que temos e ter orgulho de ser quem somos mantendo intacta nossa identidade. Meu Nome é Sara entra em cartaz hoje.

Meu Nome é Sara

Nome Original: My Name Is Sara
Direção: Steven Oritt
Elenco: Zuzanna Surowy, Konrad Cichon, Pawel Królikowski
Gênero: Drama, História
Produtora: James Lucy Productions
Distribuidora: A2 Filmes
Ano de Lançamento: 2019
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