Musicais: Priscilla, a Rainha do Deserto, 1994

As drag queens Anthony (Hugo Weaving) e Adam (Guy Pearce) e a transexual Bernadette (Terence Stamp) são contratadas para realizar um show em Alice Springs, uma cidade remota localizada no deserto australiano. Eles partem de Sydney a bordo de Priscilla, um ônibus, tendo a companhia de Bob (Bill Hunter). Só que no caminho eles descobrem que quem os contratou foi a esposa de Anthony.

Fonte: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-11316/

Priscilla, a Rainha do Deserto é um dos casos de musicais da Broadway que foram inspirados em filmes. O filme chegou aos cinemas em 1994, e a peça estreou só em 2006, na Austrália.

A primeira coisa que se tem que dizer sobre o filme é em relação a uma confusão sobre quem é a Priscilla citada no titulo do filme. Priscilla não é nenhuma das drag queens que aparecem no filme, mas sim o ônibus em que elas viajam.

No filme acompanhamos as drag queens Mitzi Del Bra (Hugo Weaving) e Felicia Jollygoodfellow (Guy Pearce) e a mulher transexual Bernadette Bassenger (Terence Stamp), que vivem de fazer shows e um dia recebem uma grande proposta de se apresentarem em Alice Springs. Para isso, as três entram no ônibus batizado de Priscilla e atravessam o deserto australiano.

Mitzi, Bernadette e Felicia se apresentam em pleno deserto australiano

Priscilla, a Rainha do Deserto é um dos primeiros filmes a retratar o universo das drag queens de maneira séria e não como uma piada. Antes disso, os únicos filmes que falavam sobre o assunto eram ou documentários (como Paris is Burning, de 1990) ou os filmes de John Walters, protagonizados pela drag queen Divine, mas esses filmes ficavam restritos a cenários undergrounds ou a um público muito especifico.  Priscilla, a Rainha do Deserto é o primeiro filme a chegar ao circuito comercial. Isso é um grande feito para um filme de 1994, australiano e com personagens LGBTQ+ como protagonistas. A verdade é que sempre que a gente pensa em drag queen, a primeira coisa que nos vem à cabeça é Priscilla, a Rainha do Deserto (pelo menos antes do estouro de Rupaul’s Drag Race).

E o musical não se contenta em falar apenas de drag queens, mas também tem uma personagem transgênera, criada em uma época em que nem existia essa nomenclatura.

Em termos de cultura drag, Priscilla, a Rainha do Deserto é realmente verdadeiro. O filme nos apresenta os shows, as maquiagens, figurinos e perucas.

O filme é repleto de figurinos e maquiagens extravagantes.

Mas claro que nem só de glamour e glitter vivem as drag queens. Priscilla, a Rainha do Deserto naturalmente fala de preconceito. As personagens são hostilizadas em algumas das cidades pequenas por onde elas passam e Mitzi em dado momento comenta “você pensa que está ficando forte e que isso não te afeta mais, mas afeta, sempre afeta”, depois que o ônibus delas é pichado com palavras ofensivas.

É meio difícil definir quem é a protagonista do filme, porque as três personagens que aparecem com maior frequência tem quase igual importância, mas personalidades bem diferentes, que se contrapõem e se completam em vários momentos do filme.

Bernadette é uma mulher transgênera, também é a mais velha das três e a mais comedida e controlada, ela parece já ter se acostumado com o preconceito que sofre diariamente. Quem interpreta Bernadette é Terence Stamp, inglês que foi símbolo sexual nos anos 60, tendo namorado estrelas como Julie Christie, Brigitte Bardot e Jean Shrimpton. No filme, ele desconstrói completamente a sua imagem de homem másculo e garanhão, sua personagem é feminina e super crível, tanto que muita gente nem consegue perceber que é ele no filme.

Terence Stamp interpreta Bernadette, uma mulher transgenera.

Mitzi é uma drag queen que tem em torno de 30 anos, se apresenta em boates pequenas onde as pessoas estão mais interessadas em beber do que em ver seu show. Ela também guarda um segredo referente a sua juventude. Mitzi é interpretada por Hugo Weaving, que mais tarde faria personagens como Agente Smith em Matrix, V em V de Vingança e Elrond, em O Senhor dos Anéis, todos esses personagens completamente diversos de Mitzi. Diferentemente da atuação de Stamp, Weaving nos dá uma personagem bem mais exagerada, o que faz muito sentido, uma vez que Bernadette é uma mulher e Mitzi é uma drag queen.

A mais nova do trio é Felicia, que ainda está na casa dos 20. Felicia é a personagem mais difícil de engolir do filme, ela é prepotente, pernóstica e se considera muito mais bonita e interessante que Bernadette e Mitzi, que para elas são velhas que deveriam estar aposentadas. Felicia é a personagem que mais vai mudar durante o filme. Ela é interpretada por Guy Pearce, hoje também famoso por papeis bem masculinos, mas sua Felicia é tão crível quanto as outras personagens.

Todas as personagens são críveis, porque são realistas, o que me faz pensar que o roteirista fez uma pesquisa extensa sobre o assunto. As personagens do filme também conseguem cobrir todas as faixas etárias, facilitando o reconhecimento.

Hugo Weaving é Mitzi e Guy Pearce é Felícia

Além das três protagonistas, o filme nos apresenta alguns personagens que se encaixam em diversos aspectos sexuais que não o heterossexual normativo, como por exemplo, o namorado que Bernadette tem no começo do filme, que é descrito como “um garotinho que gosta de transexuais” ou Bob, um homem que elas encontram no caminho, que é casado, mas se apaixona por Bernadette e não parece se importar com o fato de ela ser transgênera. De repente, o interior da Austrália parece tão moderno quanto Sidney nos dias de hoje.

Existe um contraste enorme entre as drag queens, com suas plumas e perucas, e o deserto australiano. É como se o deserto representasse toda a dureza do mundo, a homofobia e o preconceito, e as protagonistas representassem exatamente o oposto, mas também é notável a boa vontade da maioria dos habitantes das cidades aonde elas passam e até dos aborígines, que elas encontram no meio do deserto em recebê-las bem e conhecerem a arte que elas fazem, mostrando que drag queens não são só roupas e maquiagens exageradas, mas sim, uma forma de arte e de expressão.

Priscilla, a Rainha do Deserto não usa de músicas compostas especialmente para o filme e sim de músicas pop já famosas, muito usadas em shows de drag queens, como I´ve Never Been To Me, Go West, I Love The Nightlife, I Will Survive, A Fine Romance, Finally, Mamma Mia e Save the Best for Last. A trilha sonora é inclusive uma das melhores coisas do filme, é impossível não gostar. O filme também não usa de números musicais que acontecem no meio da rua e do nada, os números musicais são encenados no palco, durante os shows e são todos dignos de atenção. Outra coisa importante de ressaltar é que, embora o filme seja musical, o elenco não canta a maioria das músicas, eles dublam, como manda a tradição das drag queens. No teatro, no entanto, as músicas são cantadas ao vivo.

As personagens da montagem Brasileira.

Outro enorme destaque do filme é o figurino, composto de roupas bem absurdas e extravagantes, que só poderiam ser vistas em shows de drag queen e que dão todo o clima do filme.

No teatro, a peça já esteve em cartaz no West End, em 2009, e na Broadway em 2011. Aqui no Brasil, Priscilla, a Rainha do Deserto esteve em cartaz em 2012.

O filme de 1994, por sua vez, ganhou o Oscar de melhor figurino, e influenciou diversos filmes sobre o assunto que vieram depois, inclusive o hollywoodiano, Para Wong Foo, Obrigado Por Tudo! Julie Newmar, que tem uma premissa relativamente parecida com a do filme australiano, mas é bem inferior a Priscilla, a Rainha do Deserto.

Priscilla, a Rainha do Deserto é um filme marco na questão de representividade LGBTQ+ no cinema, com ótimas atuações, números musicais divertidos e muito glitter.

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Fernanda Cavalcanti

Formada em cinema, apaixonada por literatura, divide seu tempo livre entre ler, escrever e dançar. Gosta especialmente de terror, mas lê/assiste de tudo. Também escreve para o blog Além da Toca do Coelho.

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