Ninguém Tá Olhando – 1ª temporada

Série supera o receio com seu elenco, para apresentar uma trama que questiona a fé e o sistema de um jeito divertido

Em Ninguém Tá Olhando, Uli, o novato “anjo da guarda” do Sistema Angelus, fica inconformado com a arbitrariedade das ordens que recebe diariamente. Ele, então, se rebela depois de fazer descobertas chocantes sobre a vida e as forças que governam o mundo, onde nada é o que parece.

Daniel Rezende surpreende a cada nova obra que realiza. Depois de abocanhar o Oscar como montador de Cidade de Deus, o jovem diretor vem conquistando o público com produções acima da média, como Bingo: O Rei das Manhãs e Turma da Mônica: Laços e agora pisa em terreno novo, estreando também em seriados.

Aqui, uma bem sacada produção para a Netflix, mas que a princípio, nem pôster nem trailer conseguem vender realmente. Preocupa-se com um figurino marcante para seus angelus (e não anjos, afinal, o foco aqui não é a religião), que gere identidade no público-alvo: os consumidores de canal de Youtube, de onde vem a maior parte dos atores, usando inclusive de um linguajar moderno (com gírias de internet e reproduções meméticas), mas não exagerado, sem se prender a uma região como cenário (que aparenta ser São Paulo, mas traz rostos e sotaques de todos os cantos do país).

Ninguém tá olhando

Ninguém Tá Olhando

O texto é arrojado e a todo momento questiona os sistemas de crença, sem cair na armadilha de ofender a fé de ninguém. Enquanto isso, também coloca em cheque a astrologia, a burocracia e os relacionamentos românticos, a medida que trata de sexualidade, de uso de drogas e outros temas, como os ambientais, de maneira natural e nada panfletária, contribuindo para a organicidade da narrativa.

Victor Lamoglia, que eu confesso nunca ter ouvido falar até então (mas é famoso por outras produções), consegue apresentar um protagonista carismático, alternando entre o ingênuo curioso e o cínico audaz, bem acompanhado pela humorista Júlia Rabello (que veio do Porta dos Fundos), o conciso Danilo de Moura e o velho de guerra Augusto Madeira (este nunca desaponta).

Ninguém tá olhando

Dividindo a tela com os angelus de cabelos vermelhos, temos a humana desconstruidona na figura competente de Kéfera (que já quebrou seu próprio estereótipo há muito tempo), com participações de Projota e do sempre hilário Leandro Ramos (Choque de Cultura), rendendo bons 8 episódios de meia hora cada, mas que provavelmente teriam funcionado melhor em seis.

Divirta-se

A história, em alguns momentos, parece girar sobre o próprio rabo. Todo o senso de gravidade proposto no primeiro episódio se dilui conforme outros mistérios vão se apresentando. Mas Daniel não deixa a peteca cair e sustenta a qualidade da produção no desenvolvimento de seus personagens (ainda que alguns fiquem sobrando).

O tratamento sobre a perda da virgindade e o encontro com a mortalidade rende momentos interessantes. Ninguém Tá Olhando acerta principalmente na sua proposta de ironizar o comportamento humano sem cair em clichês, falando como a gente e provando que somos todos hamsters, mas que alguns, às vezes, saem da rodinha.

Ninguém Tá Olhando

Nome Original: Ninguém Tá Olhando
Elenco: Kéfera Buchmann, Danilo de Moura, Victor Lamoglia, Augusto Madeira
Gênero: Comédia
Produtora: Gullane
Disponível: Netflix

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