O Gambito da Rainha – Uma jornada fascinante

Baseado no livro de Walter Tevis (também enxadrista) de mesmo nome, de 1983, a minissérie O Gambito da Rainha, acompanha em 7 episódios a vida de uma órfã prodígio do xadrez durante a Guerra Fria, dos 8 aos 22 anos, enquanto ela batalha contra o vício em álcool e calmantes, em uma jornada para se tornar a maior jogadora de xadrez do mundo.

Scott Frank, do excelente ”Godless” (uma das melhores produções lançadas em 2017, também pela Netflix), vem se provando um exímio contador de histórias, principalmente de mulheres fortes, sem jamais soar panfletário. Trocando o faroeste pela década de 1960, o realizador mergulha a fundo no mundo do xadrez. Certamente sem esquecer o principal fundamento para as boas histórias: os personagens.

Dessa maneira, Frank permite que o público conheça a protagonista Beth Harmon de maneira linear (ainda que faça resgates pontuais em flashbacks), ainda criança, indo morar em um orfanato e descobrindo duas de suas maiores paixões, uma para a glória, outra para a ruína: o xadrez e os calmantes, respectivamente.

O Gambito da Rainha

O Gambito da Rainha

Isla Johnston impressiona no papel mirim e consegue replicar os gestuais de sua versão futura com a mesma relevância. Ela alterna sempre entre a apatia, o deslumbramento silencioso e a sagacidade inerente. O primeiro episódio é poderoso ao criar esse vínculo emocional entre espectador e personagem. Faz então com que nos importássemos e torçamos por essa garotinha repleta de futuro.

Quando Anya Taylor-Joy entra em campo, tudo só melhora. Uma das melhores atrizes de sua recente geração, a moça carrega um olhar magnético que mantém as atenções para ela, dentro e fora da história. Arrogante como a maioria dos enxadristas, sempre busca vencer o mais forte (assim como o Goku). E com fortes tendências para os mais variados vícios. Dos calmantes na infância, que a acompanharão dali em diante, até o álcool que descobre com a mãe adotiva, tudo é gatilho para a moça ter seus insights estratégicos intuitivos.

Harmon também guarda um trauma da tragédia quando criança, além de uma complexa relação com o masculino. Apesar de feminista por essência, ela não prega valores, apenas faz o que dá na telha e o discurso disfarçado funciona melhor que qualquer exposição. E sua carência por amor materno lhe quebra várias vezes durante as 7 horas de rodagem. Sim, ela quebra, mas sempre sabe como se levantar de um jeito novo a cada vez.

Uma artimanha para vencer o adversário

O roteirista e diretor equilibra bem o drama da personagem com a parte técnica do jogo. Ele faz com que os leigos (como eu e você) consigamos aproveitar o enredo sem bocejar pelo “tequinequês” incompreensível de estratégias, jogadas e nomenclaturas, à medida que também satisfaz os enxadristas com… bem, estratégias, jogadas e nomenclaturas, inclusive alguns lances diversos e famosos do meio, o que pode servir de aula para iniciantes, ou fisgar interesse de quem sempre quis aprender e precisava um motivo.

Frank usa de recursos visuais interessantes, tanto nas visões da protagonista (que monta o tabuleiro e as jogadas em sua mente), quanto de direção e edição, para que não torne a narrativa maçante, deixando assim alguns jogos de xadrez bastante tensos – mesmo para quem não entende nada do que está acontecendo ali –, quanto dinâmicos em cortes rápidos, que mostram as peças em movimentos acelerados, muitas vezes acompanhadas de narrações charmosas e interessantes. Claro que a deliciosa trilha sonora e o alto valor de produção em fotografia, figurino e cenografia, também contribuem bastante.

O Gambito da Rainha

Outras estrelas

O elenco inspirado ainda conta com Bill Camp, servindo como um dos fundamentos de Harmon durante toda a trama, além de Vasily Borgov como o “vilão russo”, único adversário xadrezista que a moça teme e que carrega todo um peso em suas minuciosas expressões. Harry Melling (que já se tornou o queridinho da Netflix em várias produções e que vem construindo uma carreira sólida como um não-galã de talento), tem boa serventia como ferramenta na narrativa, assim como o sempre ótimo Thomas Brodie-Sangster, e os carismáticos Moses Ingram, Matthew Dennis Lewis e Jacob Fortune-Lloyd.

Ainda, Marielle Heller impressiona fazendo a infeliz mãe adotiva, que encontra um fiapo de felicidade no sucesso da filha. Claro que algumas dessas figuras acabam surgindo de maneira bastante conveniente na jornada de Harmon, mas isso jamais desqualifica a obra, por se tratar de um tipo torpe de contos de fada, repleto de ruínas e prazeres, derrotas e vitórias, com os coadjuvantes que enxergam o potencial de sua amiga, a impulsionando sempre para a frente, pois acreditam em seu sucesso.

Há décadas rodando nas mãos de vários produtores para ganhar as telinhas (inclusive serviria para estrear Heath Ledger como diretor, se ele não tivesse morrido tão cedo), O Gambito da Rainha é uma fascinante jornada de ganhos e perdas, que respeita o xadrez, mas ainda mais seus personagens e com isso recompensa o público do começo ao fim.

O Gambito da Rainha

Nome Original: The Queen's Gambit
Elenco: Anya Taylor-Joy, Chloe Pirrie, Bill Camp
Gênero: Drama
Produtora: Flitcraft
Disponível: Netflix
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