O Regresso, aquele com Leonardo DiCaprio

A história de O Regresso contempla a selvageria humana em um espetáculo técnico e visual. Construindo uma fábula visceral e enervante que se inspira em supostos eventos reais, Alejandro González Iñárritu se enreda pelo filme de sobrevivência. Enriquece assim um gênero que pouco falhou nos cinemas, vindo a somar ao lado de ótimos exemplares. A Perseguição, Náufrago, Vivos, No Limite e 127 Horas, entre outros. Alguns destes, inclusive, são evocados de maneira bastante indireta por aqui.

O filme é embalado por uma trilha sonora imersiva e impregnante de Ryuichi Sakamoto e Alva Noto. O diretor narra então a jornada do homem comum pelas entranhas da natureza selvagem, que espelha sua própria barbárie. Com uma cenografia minuciosa dos elementos rústicos do Velho Oeste americano de 1820 e um figurino impecável, sujo e realista, Iñárritu coloca seus personagens em um contexto árduo e sem fôlego. Onde a morte caminha à espreita o tempo todo, em um ambiente hostil e imprevisível. O que também combina com seu estilo de direção.

Leonardo DiCaprio em O Regresso
Leonardo DiCaprio em O Regresso

Repleto de tomadas longas e incertas, com muita casualidade entre uma sequência e outra, onde o CGi aplicado jamais é notado, dado o trabalho preciso de maquiagem crua sobre as composições imperdoáveis que o frio extremo aplaca sobre as figuras em tela. Emulando Terrence Malick na valorização das paisagens e no trabalho suntuoso de panorâmicas épicas, o diretor aproxima a câmera de seu protagonista, trabalha alguns 360º vertiginosos e outras tomadas cirúrgicas que colaboram o tempo todo para a condução narrativa, sem qualquer gratuidade.

O Regresso

Ainda que já fizesse por merecer há muito, Leonardo DiCaprio justifica seu Oscar nessa produção inspirada, na figura de um sobrevivente que encontra na vingança seu último suspiro antes de ceder, passando as mais de duas horas de filme em quase repleto silêncio, entregando uma performance e tanto. Mesmo entre seus grunhidos por vezes incompreensíveis, Tom Hardy assume o antagonismo com força e ódio, lhe permitindo ainda o absurdo clichê do vilão que se justifica no final, antes do último embate.

Domhnall Gleeson e Will Poulter fecham o grande elenco com atuações fortes; o primeiro figurado num homem justo, o segundo no tormento daquele que carrega um grande peso na consciência. E O Regresso jamais perdoa. Seja nas mãos dos americanos, franceses, nativo-americanos ou da própria natureza, a misericórdia é a única saída para a perdição.

Domhnall Gleeson e Tom Hardy também estão presentes no longa
Domhnall Gleeson e Tom Hardy também estão presentes no longa

Alguns devaneios que interrompem a narrativa para explanar as lembranças e a dor do homem lutuoso, a maneira como Ridley Scott ou Mel Gibson realizaram em Gladiador e Coração Valente, tem lá sua validade na trama, mas não exatamente somam conteúdo e acaba que O Regresso poderia ter meia hora a menos, sem perder a grande jornada de sobrevivência.

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Por outro lado, a direção firme e inspirada de Iñárritu nunca permite que o espectador se canse da longa minutagem, fornecendo passagens perturbadoras como um lado obscuro dos documentários da Discovery, enquanto entrega sequências brilhantes e inesquecíveis, como a primeira com a invasão indígena, ou da perseguição a cavalo diante de um precipício, entre outras. E é claro, à o ataque do urso. Praticamente a cena mais espetacular e realista realizada no cinema moderno, que nenhum olho sagaz é capaz de enxergar onde começa o CGi e onde termina a maquiagem e o animatrônico.

O Regresso, assim, não é um longa que pede uma segunda sessão. É mais como um acampamento traumático, da qual você nunca vai esquecer, mas não exatamente gostaria de revisitar. O que sobra então é a experiência do sobrevivente e a história que virá a seguir.

O Regresso

Nome Original: The Revenant
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Will Poulter, Domhnall Gleeson
Direção: Alejandro G. Iñárritu
Gênero: Ação, Aventura, Biografia
Produtora: Regency Enterprises
Distribuidora: 20th Century Fox
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