OPINIÃO – Minha cruzada solitária contra trailers

Para que servem os trailers? Quando um estúdio lança um trailer – ou até mesmo um teaser, nova modalidade recente do marketing cinematográfico -, qual objetivo ele quer alcançar?

O objetivo mais óbvio é de vender o filme. O trailer serve para convencer o público que aquela obra vale o dinheiro (cada vez mais caro) a ser investido em um ingresso para ir até o cinema perder duas horas apreciando aquela obra. Motivos secundários – como gerar buzz, discussões, vender coisinhas – são adendos a esse objetivo primário. Ou seja, dizer a quem quer que esteja assistindo ao trailer que pode vir, pegar trânsito, comprar o ingresso, pagar vinte reais em um balde de milho explodido superestimado; pode passar esse perrengue todo aí que a experiência que vamos te proporcionar vai valer a pena.

Para isso os estúdios gastam cada vez mais dinheiro nesses filminhos de 3 a 4 minutos. Os filmes de menor orçamento já gastam cerca de 50 mil dólares em um trailer. Para grandes blockbusters, esse valor pode chegar a até US$1 milhão por uma edição marota de cenas do próprio filme (às vezes nem finalizadas ainda). Oras, se eu quero te dizer que isso vai ser bom, o óbvio é te dar um gostinho da experiência. O grande erro cometido pelos estúdios é que o trailer acaba muitas vezes entregando a MELHOR PARTE da experiência.

Um trailer que conta o filme todo

É desapontador quando você vai ver um filme pelo qual estava ansioso e descobre que a melhor parte da história já tinha sido apresentada no trailer. Em comédias, a frustração é quando todas as melhores piadas já foram vistas antes de você ver o filme.

Na semana passada, após sair da sessão do novo filme da Pixar, “Dois Irmãos”, fui até o Youtube finalmente assistir ao trailer da obra. Ter ido ao cinema sem saber o que ia encontrar foi a melhor decisão possível. As melhores piadas desse filme realmente estão no trailer. Eu devo ter sido a única pessoa da sala de cinema a ficar surpreso quando a magia dá errado e o pai dos protagonistas surge só com a parte de baixo do corpo – surpresa essa que foi amplamente estragada por quem recebeu esse “incentivos” para assistir ao filme. Da mesma forma, em Toy Story 4, devo ter sido a única pessoa a soltar um suspiro de susto quando Forky pula pela janela da van – cena que foi explorada desde o início da divulgação do filme.

Não há necessidade de assisti-los

A Pixar é uma empresa que, graças a seu histórico, não precisa mais fazer absolutamente nada para me vender seus filmes. Qualquer coisa que a empresa lançar, eu vou pagar pra ver. Então não é melhor que eu vá ao cinema sem saber o que é e deixar a empresa me levar pelas mãos nas histórias que ela conta? De que me serve assistir a um trailer de um filme que eu certamente já vou ver? Na pior das hipóteses, vai estragar alguma surpresa; na melhor das hipóteses, eu vou ficar ainda mais ansioso para assistir ao filme. E isso também é péssimo, eu já tenho ansiedade o suficiente na minha vida, não preciso que me deixem mais ansioso pra nada.

Da mesma forma eu estou fugindo dos trailers e de qualquer sinopse da próxima obra deles, Soul. A única coisa que eu preciso saber é a data de lançamento, e ela vai chegar até mim, até mesmo por conta do trabalho feito aqui no Vitamina Nerd. As pessoas mais próximas também já estão cientes da minha estranha aversão a trailers, e alguns amigos já me reportaram resultados positivos em suas experiências: eles concordam que assistir a um filme sem saber de nada a respeito dele torna tudo muito mais divertido. Em alguns cinemas de Londres e de Berlim, para citar somente duas cidades, isso é levado a outros níveis. Há cinemas que fazem uma sessão mais barata no meio da semana com um filme surpresa. Você paga e nem faz ideia do que irá assistir.

Surpreenda-se

Mas no mundo conectado e saturado de informação que vivemos, fugir de trailers não é uma tarefa simples. As maiores dificuldades que eu enfrentei foram com Avengers Endgame: seu trailer foi divulgado no dia de uma comic-con e a feira não falava de outra coisa. Eu tinha que desviar o olho de telões e ir ao cinema com fones de ouvido para me distrair com alguma coisa enquanto os trailers passavam. Por sorte, nas cabines de imprensa que eu atendo para o Vitamina Nerd, não há trailers, então eu não preciso me preparar quando vou a uma. Também dou preferência a cinemas que exibem menos trailers, como os da rede Itaú Cinemas.

Sei, porém, que sou quase um solitário nessa empreitada. O mercado de trailers ferve. Quando o trailer de um blockbuster é lançado, ele rapidamente vira trending topic no twitter e catalisa diversas discussões em fóruns como o reddit. O próprio Jovem Nerd, maior canal de cultura pop do Brasil, criou um programa de Youtube dedicado a comentar trailers.

Leia aqui as críticas de Paulo Martins, o Paulo Velho

Eu entendo. No alvorecer da internet, eu era um maluco dos trailers. Na época em que era necessário BAIXAR os arquivos como se fôssemos selvagens (e eles sempre vinham no péssimo formato quicktime .mov), eu tinha um diretório repleto deles. Hoje, assistir a trailers de clássicos como o primeiro “Homem Aranha” de Sam Raimi, ou “O Senhor dos Anéis” é praticamente um exercício de nostalgia. Eu estava tão ansioso por esses filmes e assisti tantas vezes esses trailers que praticamente decorei as falas.

Mas tantas vezes saí do cinema frustrado por ter tido a impressão que uma obra foi estragada por exibir coisas demais no trailer (o último que me marcou negativamente nesse aspecto foi o maravilhoso “Guardiões da Galáxia: volume 2”), que decidi começar a evitar os trailers em situações que eu já tinha certeza que veria o filme – como em qualquer coisa produzida pela Marvel, pelo Rian Johnson, Tarantino ou Edgar Wright, por exemplo.

Agora pra mim é um caminho sem volta. Virei esse cara estranho que só quer saber da história do filme quando estiver assistindo mesmo. Me deixem ser surpreendido.

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