Parasita, engraçado, angustiante, crítico e relevante

Obra-prima moderna é uma montanha-russa de gêneros, um sobe e desce de emoções

Bong Joon-ho, o diretor de Parasita, sempre colocou seus personagens em cheque. Seja em contextos quase absurdistas, seja nas construções de fábulas sociais que se aproximam da nossa realidade. Se não pela trama, certamente pelo contexto, enquanto em sua arquitetura narrativa ele constrói um senso de empatia. Um apelo para que olhemos mais para o lado, para o outro, e menos para cima ou para baixo.

Em O Hospedeiro, o diretor usou uma trama de monstro para falar de questões sociopolíticas, poluição e uma resposta trágica da natureza; em Expresso do Amanhã (sua produção mais fraca, mais por conta do elenco americano que não compreendeu as nuances do texto), ele deu os primeiros passos na batalha de classes, com o uso de corredores e vagões para denotar essas divisões; ou em Okja, que tem momentos brilhantes ao atacar a indústria da carne, através de um conto sensível e tocante.

Já em Parasita, ele narra a história de um pai de família pobre, ocupante com a mulher e dois filhos de uma das meia-residências de Seul. Esses apartamentos têm quase metade do seu pé-direito abaixo do nível da rua. Dessa forma, os Kim vivem de gambiarra em gambiarra. Assim, quando um golpe contra ricaços começa a dar certo, a família abraça a chance de ascender socialmente e literalmente sair do buraco.

Parasita

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Nunca preso a um único gênero, Joon-ho sabe navegar por entre vários de maneira harmônica e, diferentemente das boas tentativas que Jordan Peele vem tentando (como visto em Corra! e Nós), o diretor mescla vários temas para criar um próprio, de um jeito que somente ele sabe fazer, de um jeito que sempre fez.

Portanto, é esperado que o público ria, se aflija e se assuste na mesma medida, já que a comédia, o humor negro, o drama social e o suspense de invasão se equilibram na mesma narrativa, com igual qualidade, alimentados por um roteiro poderoso que tem muito a dizer, fazendo uso dos cenários para enxertar o enredo com detalhes cirúrgicos, que a todo momento contribuem para a trama.

Dos espaços abertos e vazios da mansão fotografada de uma maneira solar, higienizada e organizada (que aliás, está localizada na subida de uma rua). Do sufoco do casebre subterrâneo, escuro e azulado, sujo e fétido, servindo de mictório para bêbados, com a privada ao lado da cozinha. A maneira como os efeitos sonoros são trabalhados em cada lar tem uma dicotomia crucial que vai além da fotografia.

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Muitos significados

Muitos símbolos significativos são colocados a todo instante na tela, dos mais óbvios (como a pedra, a janela para o jardim ou a janela para o meio-fio), até os mais sutis (como a longa tomada na escadaria abaixo sob a chuva, a paleta de cores de acordo com o ambiente, a maneira como um mesmo personagem se comporta dependendo do local etc), em um jogo de gato e rato onde não existe o certo ou o errado, onde o espectador não consegue torcer apenas para um lado, sem que se incomode com o outro.

E muito desses trunfos também partem do grande elenco, a começar por Cho Yeo-jeong, que faz a madame ingênua, ou de Song Kang-ho, queridinho do diretor, realizando aqui o bronco pai de família, único que não consegue esconder realmente quem é. Park So-dam entrega uma malemolência e grande comicidade nos trejeitos, enquanto cabe a Choi Woo-shik um cadinho de esperança pela ascensão social, um cinismo perene, que provavelmente herdou da personagem de Lee Jung-eun, a matriarca que salta de uma emoção para outra com um naturalismo impressionante. Ou do pai rico interpretado por Lee sun kyun, mesmo simpático, é incapaz de esconder o desdém com quem está abaixo dele.

Aliado a um trabalho artístico suntuoso, com cenários que contam uma história, com personagens que desvirtuam virtudes e com um gênero que é vários em um, Parasita é assim um filme singular, concebido clássico e que, nesse sobe e desce vertiginoso, vai arrebatar qualquer um que estiver pelo caminho, esteja você em cima ou embaixo, no final todos merecem o mesmo lugar.

Parasita

Nome Original: Gisaengchung
Direção: Bong Joon Ho
Elenco: Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo
Gênero: Comédia, Drama, Thriller
Produtora: Barunson E&A
Distribuidora: Pandora Filmes
Ano de Lançamento: 2019
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