Perry Mason – 1ª temporada – Um noir moderno

Perry Mason (Matthew Rhys) é um advogado que lida com os seus traumas da primeira guerra mundial e com seu recente divórcio. Sem muita esperança na vida, ele é contratado para investigar o sequestro seguido de morte de um bebê, que virou Los Angeles de cabeça para baixo.

Conforme Mason vai mais a fundo na investigação, ele descobre uma trama complexa que vai afetar ele mesmo, o seu cliente e a cidade.

A origem de Perry Mason

Perry Mason é batizada com o nome de seu protagonista, que não foi criado originalmente para a série. Ele é, na realidade, um personagem criado por Erle Stanley Gardner, em 1933. O detetive foi personagem de mais de 80 livros, que seguem aquele princípio clássico do romance policial, onde em cada livro um caso diferente é investigado.

Perry Mason
Perry Mason

O detetive ficou mais conhecido depois de uma série de televisão que levava seu nome, estrelada por Raymond Burr, e que foi ao ar entre 1957 e 1966. Mais tarde, em 1973, Perry Mason foi mais uma vez protagonista da série The New Perry Mason, com Monte Markham.

Além disso, o personagem ganhou adaptações para o rádio, para os quadrinhos e foi o protagonista de trinta filmes, todos estrelados por Raymond Burr.

Essa série aqui, por sua vez, tem como intenção reinterpretar o personagem e dar uma roupagem mais moderna – embora a trama ainda se passe nos anos 1930 – mais ou menos como foi feito com Sherlock Holmes na série Sherlock.

Matthew Rhys em cena da série
Matthew Rhys em cena da série

A trama

Bem antes de ser apresentado ao protagonista, o público conhece o caso que vamos acompanhar durante toda a primeira temporada. Conhecemos o casal Matthew (Nate Corddry) e Emily (Gayle Rankin) Dodson, que teve seu filho de um ano, Charlie, sequestrado. O resgate foi pago, no entanto, algo deu muito errado, porque eles recebem o corpo do bebê com os olhos costurados.

É aí que entra Perry Mason. Mason é um veterano de guerra, cheio de traumas, que acabou de se divorciar e quase não mantém contato com seu filho. Ele bebe, fuma e passa a noite acordado. O público sabe desde o começo que Mason está tão destruído quanto os pais que acabaram de perder seu filho. Mason é advogado, mas ultimamente tem trabalhado como detetive particular, no escritório de E.B. Jonathan (John Lithgow).

Um caso complexo

Nenhum caso tem prendido a atenção de Mason nos últimos tempos, até que o caso de Charlie Dodson cai no seu colo. A essa altura, a morte horrenda e macabra da criança já está sendo comentada na cidade toda e a investigação já é de interesse geral. Ele então mergulha na investigação e começa pouco a pouco a descobrir os segredos que circundam o assassinato do bebê.

A série bebe na fonte do noir
A série bebe na fonte do noir

Tudo fica ainda mais complexo quando ele conhece a igreja que Emily, a mãe do bebê, frequentava. Liderada pela irmã Alice (Tatiana Maslany), que causa alvoroço nos seus fiéis, como se ela fosse uma nova messias, os cultos mais parecem espetáculos. Os fiéis também atribuem a Alice uma série de poderes e ela logo anuncia que vai trazer o bebê Charlie de volta a vida.

Aspectos do noir

O personagem Perry Mason vem de uma tradição da literatura noir que mais tarde chegou ao cinema, e a série se esbalda nessa estética e nesse gênero. A produção se passa em 1932, mesma época em que o personagem de Erle Stanley Gardner foi criado e época em que o gênero surgiu.

Mason por si só é o protagonista típico do noir: um detetive desgostoso com a vida, cheio de traumas, que faz escolhas erradas o tempo todo e que já vê tudo que acontece de terrível em uma cidade grande como corriqueiro. Seus métodos de investigação não são nada tradicionais, afinal, nem policial ele é. No entanto, diferentemente da maioria dos detetives do gênero, Mason não é corrupto.

A investigação de Mason leva a pistas cada vez mais surpreendentes
A investigação de Mason leva a pistas cada vez mais surpreendentes

O noir é famoso por humanizar seus personagens. Dessa forma, nem o detetive ou o policial, são heróis. Mas o gênero clássico leva isso ao extremo e apresenta personagens – mesmo os protagonistas, que seriam os mocinhos – como corruptos, violentos e problemáticos.

Mas o protagonista…

Mason é humanizado e está bem longe de ser um super-herói, ou de ser um detetive perfeito, como Sherlock Holmes ou Hercule Poirot. Ele comete erros com frequência, tanto na sua vida pessoal, quanto na sua investigação, mas ele se mantém relativamente dentro da linha. Ele pode subornar o funcionário do necrotério para ter acesso ao corpo de Charlie, mas ele não aceita encobrir o que descobre.

Por isso é fácil simpatizar com o protagonista, afinal, ele é humano como qualquer um de nós e comete erros, mas não é um criminoso.

O caso que é apresentado na primeira temporada também é repleto de aspectos do noir. Começando com um sequestro de uma criança de um ano, que acaba se tornando um assassinato. Os pais recebem o corpo do bebê já sem vida e com os olhos costurados, mesmo tendo pago o resgate. A visão do corpo de Charlie é a primeira que impressiona Mason, em muito tempo.

O protagonista Perry Mason é humanizado e cheio de defeitos
O protagonista é humanizado e cheio de defeitos

A trama é macabra e cheia de segredos que vão aparecendo com o tempo. A investigação de Mason começa no assassinato de Charlie, mas cresce e vai abrangendo outros aspectos da cidade e envolvendo pessoas poderosas, como é bem comum em obras do gênero. Perry Mason é, de certa maneira, uma homenagem ao gênero do noir.

Revitalização

No entanto, fica claro que a ideia por trás da série é fazer uma revitalização do personagem e da sua história, é por isso que vários aspectos modernos e que jamais apareceriam em uma trama noir mais clássica estão presentes aqui.

Irmã Alice
Irmã Alice

Mason pode ter várias características dos detetives do gênero, mas ele, como muitos pais divorciados dos dias de hoje, tenta – e falha – balancear seu trabalho, sua própria bagunça interna e a criação de seu filho. Mason ainda se ressente do final do casamento com Linda (Gretchen Mol) e não tem uma relação muita boa com a ex-mulher. Esse tipo de questão parece muito mais próxima da vida de hoje, do que com a vida dos anos 1930.

A série também foge da figura clássica e já batida da femme fatale. Não existe nenhuma mulher na trama que faça Mason ficar de cabeça virada e esquecer toda a sua investigação. Ele mantém uma relação de sexo casual com Lupe Gibbs (Veronica Falcón), que está bem longe desse estereótipo. Lupe é uma mulher latina, mais velha que Mason que, embora seja sedutora, demonstra seus sentimentos e sua preocupação com o protagonista.

E o que mais?

A série ainda apresenta Paul Drake (Chris Chalk), um policial negro que precisa lidar com o racismo no dia a dia e Della Street (Juliet Rylance), a secretaria de E.B, que é homossexual e vive com outra mulher (Molly Ephraim). Quando a série acrescenta essas tramas, fica claro que embora ela se passe nos anos 1930 e navegue no gênero noir, ela também quer falar sobre os dias de hoje.

Tatiana Maslany em cena de Perry Mason
Tatiana Maslany em cena de Perry Mason

Em um noir clássico não existem personagens negros e, quando existem personagens homossexuais, isso é mostrado de maneira negativa e é geralmente motivo de chantagem ou de vergonha. Em Perry Mason, o protagonista não só respeita as vidas pessoais de Drake e Della, como também considera a opinião dos dois na hora da sua investigação.

Aspectos técnicos

Perry Mason se passa na década de 1930, por isso, a primeira coisa que chama a atenção é sua ambientação e figurinos. A trama ocorre em Los Angeles, mas em uma Los Angeles antiga e acabada, que em muitos aspectos reflete não só a alma de Mason, mas também o crime que está sendo investigado.

O protagonista está sempre vestindo ternos e chapéus escuros, o que combina com sua personalidade quieta, cínica e sem muita esperança na vida. Sua amante, Lupe, por sua vez, usa roupas claras, como se ela fosse a única luz da qual Mason se mantém próximo. Até os pais da criança morta seguem a linha do detetive e usam roupas escuras, soturnas e tristes.

A fotografia e os figurinos da série Perry Mason são escuros
A fotografia e os figurinos da série são escuros

Alice, a pregadora, que é vista pelos seus seguidores como uma messias, também usa roupas claras. Ela é a personagem que tem a personalidade mais distinta de Mason. Se ele já não acredita mais no mundo e nas pessoas, ela crê em tudo e ainda consegue ver bondade no mundo. Ao longo da primeira temporada, os dois passam por mudanças quase opostas. Ele se torna um pouco menos cínico, e ela, menos crédula.

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A fotografia da série segue essa premissa. As cenas da cidade, e as que mostram Mason investigando, são escuras e geralmente se passam durante a noite, enquanto as de Alice são claras, e mostram a igreja cheia de luz e de pessoas.

A série também é bem explícita: o telespectador vê quase todos os cadáveres que são apresentados na trama e diferentemente da maioria das obras, onde os mortos ainda tem cara de vivos, aqui os cadáveres tem cara de cadáveres, eles são roxos, assustadores e, muitas vezes, com ferimentos aparentes.

É fácil simpatizar com os personagens, mesmo que eles tenham defeitos
É fácil simpatizar com os personagens, mesmo que eles tenham defeitos

A série prende o  telespectador no protagonista, que embora cínico e muitas vezes desagradável, tem um certo carisma e charme. A atuação de Matthew Rhys é ótima e podemos acreditar na veracidade do seu personagem; Tatiana Maslany também está muito bem na trama, ela passa de uma moça insegura, para uma grande pregadora em segundos.

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Outras atuações, embora menores e com menos tempo de tela, também são boas, como a de John Lithgow e de Veronica Falcón. O interessante da série é que é fácil gostar dos seus personagens, mesmo que eles tenham defeitos óbvios e, muitas vezes, incômodos.

A série Perry Mason traz a tona assuntos que falam com os dias de hoje
A série traz a tona assuntos que falam com os dias de hoje

A trama de Perry Mason também é interessantíssima e é preciso apenas um episódio para se ver completamente preso na história. Uma das coisas mais interessantes do noir é a maneira com que a investigação se desenrola e como as pistas e as descobertas vão surgindo aos poucos, e da forma que o telespectador menos espera. Perry Mason tem tudo isso e é um prato cheio para quem gosta do gênero.

Com uma trama noir e uma proposta de revitalizar não só o protagonista, como também o próprio gênero, Perry Mason é uma série de investigação que se passa na década de 1930, mas é obviamente feita para os dias de hoje.

Perry Mason

Nome Original: Perry Mason
Elenco: Matthew Rhys, Juliet Rylance, Chris Chalk, Shea Whigham, Tatiana Maslany
Gênero: Drama, Crime, Suspense
Produtora: HBO, Team Downey
Disponível: HBO
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