Lindinhas – Um tratado real sobre a adolescência

Onde meninas fingem serem mulheres

Mignonnes (ou Cuties em seu título em inglês), é o filme franco-senegalês que deu no Festival de Sundance de 2020 o prêmio de direção, na seção de cinema mundial, para a estreante Maïmouna Doucouré. Polêmicas à parte envolvendo a divulgação de um cartaz inconsequente, a obra é um tratado real, sincero e cru sobre a passagem da infância para a adolescência.

Coloca então a história pelo ponto de vista de Amy. Ela é uma versão da própria diretora em suas memórias, segundo ela. Amy se muda com sua mãe para um conjunto habitacional novo porque o marido dela vai ter uma segunda esposa. A essa novidade juntam-se as descobertas de adolescência da garota e sua primeira menstruação. A sexualização precoce surge no filme como contraponto crítico aos dogmas islâmicos seguidos pelos imigrantes senegaleses na França.

Lindinhas

Lindinhas

Um público mais conservador pode se chocar com cenas das meninas de 11 anos fazendo poses e danças sensuais, enquanto treinam para um concurso de dança, inspiradas por dançarinas mais velhas. Mas tal choque seria uma hipocrisia, pois o cinema sempre retratou a pré-adolescência com mais peso crítico ou discurso social, com menor ou maior habilidade.

De ”Conta Comigo” (1986) a ”Kids” (1995), de ”Lolita” (1962) a ”Pretty Baby – Menina Bonita” (1978), a diferença é que temos uma mulher conduzindo a narrativa, não só com extrema habilidade cenográfica, como também com propósito no debate que propõe sobre a precocidade das crianças, seja no passado seja nos dias de hoje.

Vide milhares de garotas e garotos hiperssexualizados se expondo no TikTok e outras redes sociais, enquanto os pais aplaudem e estranhos pedem mais. Lindinhas é um filme que denuncia através da arte e não estimula. Mesmo que dentro de suas intenções Doucouré precise polemizar com sequências sensuais, que fora de contexto podem denegrir essa obra tão sensível e autoral.

A infância

Afinal, a verdadeira história de Amy, é sobre o contraste de tradições. As mulheres da família reforçam que a água “lava os pecados” e que é preciso se submeter às vontades do marido. Sua tia anciã revela que já estava noiva quando tinha 11 anos. A garota, então, se vê num mundo em que a hiperssexualização é normalizada pela cultura de massa.

Dessa maneira, Doucouré espelha uma coisa na outra – de um lado a tradição dogmática, do outro as mudanças culturais – para entender os descompassos sociais que ela diagnostica. A diretora equilibra bem o jogo, com momentos de pura criancice, com dramas comuns a pré-adolescentes, da violência entre as crianças em seus desentendimentos, da sensibilidade (ou falta de) com o irmão mais novo, o deslumbramento com as novidades que se apresentam e também da identificação (com garotas da mesma idade, ao invés das idosas de véu que transitam pelos corredores de seu lar) e de querer pertencer a um mundo que sempre parece distante de sua realidade (a protagonista quer entrar para o grupo de dança, enquanto é assombrada pelo vestido tradicional da festa de casamento no guarda-roupa).

Lindinhas

Lindinhas polemizando

Mas a cineasta também constrói cenas fortes e aqui eu destaco três, como quando Amy aproveita que está coberta com o véu durante a oração coletiva para ver clipes sensuais escondida. Se fosse com um garoto se masturbando no banheiro pensando na professora, seria visto como “normal” pelos hipócritas que querem cancelar essa produção.

Outra imagem de síntese marcante é a câmera lenta com close-ups das meninas mordendo o dedo, ao som de música sacra. Aqui o longa fala sobre um curto-circuito geracional entre o dogma religioso e as permissividades do secularismo. E, por fim, a sequência do “ritual de exorcismo”, em que a mãe e a tia tentam limpar Amy e ela “dança” possuída, chegando a um êxtase, onde o roteiro busca causar tal desconforto em sua evidência de descobertas do corpo, mas, acima de tudo, sobre pedidos infantis de ajuda. Fathia Youssouf consegue se revelar uma prodígio em passagens tão difíceis como essas.

Vale a sessão?

O clímax resolve o arco das meninas (para o bem ou para o mal) e a reação de algumas mães no público da apresentação denota a compreensão de Doucouré sobre seu filme, afinal também é a reação do lado de cá (e não há cinismo por aqui, repare no rapaz ao lado “curtindo” a dança das novinhas, sem a mesma indignação dos demais). Por fim, o desfecho poético devolve Amy a seu lugar de direito, depois de passar pelo processo inevitável da adolescência e ser aceita pela mãe: a infância, com a garota usando roupas comuns e pulando corda com as outras crianças, enquanto se eleva cada vez mais para o topo, em sua própria superação.

Mas para perceber tudo isso é necessário de fato assistir Lindinhas e julgar pelos seus próprios princípios, compreendendo as reais intenções da história, que nem de longe busca sexualizar crianças, mas sim abrir os olhos dos adultos.

Lindinhas

Nome Original: Mignonnes
Direção: Maïmouna Doucouré
Elenco: Fathia Youssouf, Médina El Aidi-Azouni, Esther Gohourou
Gênero: Drama
Produtora: Bien Ou Bien Productions
Distribuidora: Netflix
Ano de Lançamento: 2020
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