Por dentro da 2ª temporada de Stranger Things

Sem cair na armadilha da “continuação inchada”, esta segunda temporada brilha justamente por saber dar andamento aos seus personagens, que crescem de maneira bastante natural e incrível (principalmente os adolescentes, com Dustin e Mike mais irritadiços como qualquer um fica quando entra nessa fase). O Mike, aliás, achei que ficou apagado o tempo todo, provando que o moleque só funciona no enredo se tiver ao lado da sua amada paranormal. Eleven, por outro lado, se vira sozinha no manche de seu arco, indo do ciume adolescente para a rebeldia com o “pai”, passando pelas resoluções interessantíssimas com sua mãe, até no instável episódio 7, onde ela descobre outra igual, o que abre uma brecha para um universo expandido de Stranger Things (ok, esse episódio em si é meio chato pela desconfiguração de cenário e tonalidade, mas ao mesmo tempo é importante na composição geral, então toleremos sua existência, vai).

As novas conexões realizadas através da evolução das relações também são ótimas: como a de Hooper e Eleven (do lado dele, a bela forma que encontrou de “cuidar de sua filha”; enquanto que do lado dela, temos uma figura paterna bastante competente). Ou a de Dustin e Stevie, uma parceria improvável e bastante divertida, que se mostra funcional em tela (ainda mais em seus “momentos Goonies” próximos do clímax, que resgata toda aquela boa sensação que todos nós buscamos quando assistimos a essa série), quando justamente esses dois personagens são deixados de escanteio pelo andamento dos eventos.

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Eventos esses que acabam ficando maiores e mais assustadores, como a figura lovecraftiana, que tem cara de final boss (e por isso mesmo foi apenas trancafiado no final, e não derrotado como vemos na última cena), gerando uma das coisas mais formidáveis desta temporada: Dart e os democães! O monstrinho, a primeira vista, me remeteu muito aos Gremlins em sua forma inocente, e depois, partindo para o bem-vindo clichê de cães-zumbi de Resident Evil, mas totalmente os velociraptors de Jurassic Park — o que prova que os irmãos Duffer não estão ficando presos a referências só dos anos 80, ainda que obviamente elas prevaleçam, sendo realizadas de maneira incrível na série, desde a ótima sacada do Halloween com os Caça-Fantasmas (mas também Madonna, Negócio Arriscado, Karatê Kid, Contatos Imediatos de Terceiro Grau etc), até a escalação do mais-oitentista-impossível Sean Astin, na figura super carismática de Bob, que ainda que tenha sido criado para a tragédia, brilha em seus momentos otimismo e também no desfecho heroico — cena esta, completamente retirada do clímax de Jurassic Park.

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Os criadores também souberam usar essas referências a favor do enredo, e utilizar bem os cenários para construção cinemática que tanto buscam e por isso mesmo o campo de abóboras é tão significativo. Além da escola, da casa de Will e do laboratório (desta vez não repetindo ares de vilania e sim tentando expiar seus crimes, agora representados por um “bom cientista”, com uma dicotomia pra lá de bem-vinda), Hawkins também mostra mais das extensões subterrâneas do Mundo Invertido, que traça um plano engenhoso através do corpo de Will, um dos personagens mais incríveis e perturbados da temporada (como prova sua marcante cena à lá O Exorcista), que impressiona do começo ao fim (e que poderia muito bem vir a se tornar um Evil-Eleven no futuro, ou então o garoto não terá muito o que fazer).

Max ainda não disse a que veio, apesar da sua representação de menina moleque ser bastante interessante, e principalmente da relação que ela cria com Lucas, trazendo na bagagem Billie, o irmão bullie perturbado, que promete bons momentos daqui em diante. Winona Ryder continua ótima no comando e agora em vez de comunicação através de luzinhas de natal, temos um mapa da cidade através de desenhos e colagens bastante perturbadoras de seu filho. E enfim, Barb foi vingada, graças a uma bem sacada saída dos roteiristas, que não só encontraram boas soluções pra todos os ganchos deixados na primeira temporada, como souberam amarrar de maneira magistral aqui os eventos a morte da garota, que era pra ser só isso, mas os fãs viram na tragédia um maior potencial. Assim, Charlie e Nancy protagonizam bons momentos juntos no miolo da temporada, indo ao encontro do maluco conspiratório.

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No final, temos um deslumbre evolutivo de Eleven, que aqui assume os ares de super-heroína pra valer, tanto no visual gótico radical, até sua chegada triunfal na casa de Will após abater os democães, finalizando como uma Fênix Negra (a fase oitentista de Claremont, veja só) na fechadura do portal. E que fecho lindo e simples com o baile de formatura, não é?

Stranger Things 2 não ousa tanto quanto o primeiro, nem chega perto de causar o mesmo mistério e terror supremo de antes, por isso mesmo não supera seu antecessor, mas consegue dar uma continuidade criativa e inesquecível para essa série que veio pra ficar e sobreviver ao nosso imaginário pop.

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