O Príncipe Dragão – 2ª temporada (2019)

Uma das melhores animações contemporâneas expande sua mitologia e segue subvertendo todos os estereótipos do gênero

É inegável a classificação dessa série animada como a verdadeira sucessora da obra-prima “Avatar: O Último Mestre do Ar”, não só pela mão de Aaron Ehasz na criação (principal roteirista das aventuras de Aang e cia.), como também pela maneira como reinterpreta tropos do gênero fantasia a favor de sua narrativa, os grandes trunfos dessa produção, que também eram da outra. Se em seu primeiro ano a animação já chamava a atenção pela naturalidade com que trabalhava diversidade entre seu elenco (um rei negro, uma capitã surda-muda etc), por outro gerou estranhamento em parcela do público, por conta do uso do cel-shading e a taxa de quadros por segundo. Esse quesito recebeu significativa melhoria em O Príncipe Dragão – 2ª temporada, deixando de ser um problema em meio a tantas outras boas soluções.

Novamente com nove episódios de meia hora cada, Ehasz e o outro criador, Justin Richmond (ex-diretor de games na Naughty Dog, empresa que criou The Last of Us e Uncharted), usam cada momento em favor de uma trama bem elaborada. Agora, sem a necessidade básica de apresentar o mundo e suas figuras, os autores investem na expansão de sua mitologia e em um melhor desenvolvimento de seus personagens. Assim, eles são extremamente cativantes e trazem um frescor de novidade, mesmo fazendo parte de alguns estereótipos da fantasia.

O sistema de magia é interessantíssimo e nunca trai as próprias regras. Também serve ao enredo, das suas capacidades até suas limitações, algo que recai sobre as escolhas de Callum. Ele descobre as consequências do uso da magia negra (que requer sacrifício de vidas para acontecer), até ter uma explanação de como ele, enquanto humano, é capaz de chegar no uso da magia arcana. A compreensão é parte da chave.

O Príncipe Dragão - 2ª temporada

O Príncipe Dragão – 2ª temporada

O herdeiro Ezran é fofo na medida certa e não uma criança chata. Ele então expande sua habilidade de falar com animais, o que vai cativando o público gradualmente para torná-lo justo quando um dia assumir o trono. Sua relação com o filhote de dragão Azymondias vai além da amizade e se aproxima de um tipo curioso de duplo.

Rayla diminui um pouco sua importância nessa parte, se focando mais nas cenas de ação. Afinal, seus difíceis dilemas foram em parte resolvidos na temporada anterior, ainda que muito sobre ela ainda possa ser explorado no futuro. A adesão do capitão do navio, aliás, é um dos momentos mais divertidos. Isso além daquele guarda otimista preso há duas temporadas, que à parte da gag a que serve, dá uma aflição de pensar que vem, supostamente, fazendo suas necessidades na própria armadura.

Soren e Cláudia são um show a parte. Construídos como antagonistas, na verdade desde o princípio os irmãos apresentam uma dualidade mais complexa, em uma luta interna entre o dever e o querer. Soren acaba numa situação hedionda e seria interessante acompanhar como um cavaleiro de seu porte viveria assim, mas logo é resolvido pela magia negra de Cláudia. A maga, aliás, além da grande química com o protagonista (da qual eu me vejo torcendo para que aconteça), é responsável pelos melhores momentos dessa temporada. Ela rouba a cena toda vez que aparece.

Mais personagens

Viren, por outro lado, tem se mostrado o melhor personagem da série até agora. Ele é mais do que um mero vilão que deseja o trono, assim como qualquer outro do tipo em tramas de fantasia. Geralmente isso recai sobre o braço direito do rei, o que não é diferente aqui. Mas ele é bastante crível em sua humanidade falha, nem sempre acertando em suas escolhas e investidas. Assim, cegamente certo de que é o melhor para o reino quando planeja uma guerra contra os elfos, em sua obsessão xenofóbica.

Nos episódios envolvendo a interessante Petarquia (com uma potencial rainha criança, que vai conquistar os fãs), descobrimos mais sobre como a Rainha Soren morreu e porque Xadia hoje é em partes coberta por uma estrada de pedra e lava. Viren realmente tinha o Rei Harrow como seu amigo e tentou ajudar duas outras rainhas do perigo, então ele não é uma figura maniqueísta, como ninguém por aqui o é. E parte da riqueza de qualquer narrativa de fantasia, está no uso do cinza, algo que os roteiristas sabem muito bem executar nessa série.

Em sua jornada obscura a fim de compreender os segredos do espelho que conseguiu na primeira temporada, o vilão entra em contato com o interessantíssimo Aaravos, um elfo das estrelas misterioso e antigo. Este parece ser “amigo dos humanos”, mas provavelmente pode se provar no futuro como o maior antagonista da franquia. Sendo sua figura um dos pontos altos dessa temporada, indiretamente o personagem vai de encontro às intenções de Callum, o que pode gerar um conflito inevitável em algum momento.

O Príncipe Dragão - 2ª temporada

A série manda bem!

A produção ainda acerta ao tratar de orientação sexual (como no caso das duas rainhas mães); diversidade (figuras asiáticas e principalmente negras, que abarcam mais de 60% do elenco); e outros temas (como divórcio, abuso parental, consciência ecológica) sem qualquer polêmica ou lacração, mas sim com naturalidade. Assim como deveria ser em todas as histórias que se intencionam plurais.

Nada entre os personagens é visto como estranheza ou “errado” (a não ser a treta entre humanos e elfos). Em dois momentos, inclusive, é questionada a necessidade de atacar uma criatura só porque ela tem aspecto “monstruoso” (como um ser de lava e até um dragão) e nada disso é gratuito, estando atrelado intrinsecamente ao enredo, gerando grandes consequências para a saga, ao mesmo tempo que conscientiza sobre como os humanos, da ficção ou da realidade, enxergam o mundo selvagem.

O Príncipe Dragão – 2ª temporada segue fornecendo ótimas sequências de ação e aventura, além de um desenvolvimento rico de cenário e mitologia, que vai agradar principalmente leitores do gênero e jogadores de RPG, que vão reconhecer classes aqui e ali, mas retrabalhadas de maneira inventiva, onde os estereótipos deixam de ser mais do mesmo, para ser muito mais, em uma história empolgante, que está reinventando a maneira como enxergamos a fantasia. E que merece a sua atenção.

O Príncipe Dragão - 2ª temporada

Nome Original: The Dragon Prince
Elenco: Vozes de Jack De Sena, Paula Burrows, Sasha Rojen
Gênero: Animação, Família, Fantasia
Produtora: Netflix
Disponível: Netflix

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