Queer as Folk ou Os Assumidos (2000 – 2005)

A transformação dos personagens LGBTQ+ na televisão

Queer as Folk acompanha a vida de Michael (Hal Sparks), Brian (Gale Harold), Emmett (Peter Paige) e Ted (Scott Lowell), quatro amigos gays assumidos, que vivem em Pittsburgh.

A história ainda se expande para Justin (Randy Harrison), um garoto que acabou de se descobrir gay e se apaixona por Brian, Debbie (Sharon Gless), a mãe orgulhosa e super ativa na comunidade gay de Michael, seu tio, Vic (Jack Wetherall), portador de HIV, e do casal de lésbicas Lindsey (Thea Gill) e Mel (Michelle Clunie).

A origem de Queer as Folk

Embora a versão americana tenha ficado muito mais famosa, Queer as Folk é originalmente uma série inglesa, criada por Russell T. Davies. A série original também acompanhava cinco personagens principais que eram homossexuais assumidos e contava com nomes que hoje são muito famosos, como Charlie Hunnam e Aidan Gillen.

O elenco da versão inglesa
O elenco da versão inglesa

A série inglesa tinha uma produção bem menos requintada e embora fosse muito moderna para a sua época, era bem menos transgressora que a americana. As cenas de sexo, um dos pontos característicos da versão americana, eram apenas sugeridas e a série não tinha nudez. A versão inglesa durou apenas duas temporadas e logo foi vendida para os Estados Unidos, onde a trama se tornou um fenômeno.

O nome Queer as Folk é um trocadilho com um ditado inglês que diz “nobody is so weird as folk” (“ninguém é tão estranho como nós”, em tradução literal), para “nobody is so queer as folk” (“ninguém é tão gay como nós”, em tradução literal).

O elenco da versão americana de Queer as Folk
O elenco da versão americana

A trama

É bem difícil descrever toda a trama de Queer as Folk, afinal, a série durou cinco temporadas, mas existe uma premissa básica. A ideia por trás da série é retratar a vida de cinco personagens assumidamente gays, e das pessoas que são próximas a eles. A série apresenta quatro amigos na faixa dos 20 e poucos anos, que são bem diferentes entre si. Michael, Brian, Emmett e Ted e todas as questões que circundam suas vidas.

O interessante da série é que embora a sexualidade dos personagens seja o tema central, os personagens não são definidos só por ela. Nos dias de hoje, quando temos diversos personagens gays em muitas séries e onde se usa pouco dos estereótipos, a ideia por trás de Queer as Folk parece meio repetitiva. Entretanto, devemos lembrar que a versão americana é dos anos 2000, enquanto a inglesa é de 1999, quando os personagens gays eram restritos a estereótipos.

A série começa nos dando os seguintes conceitos: Michael é um homem que, embora assumido, é tímido e inseguro. Ele também tem total apoio da sua família. Seu tio Vic também é gay e sua mãe não só o aceita, como também é uma participante ativa dentro da comunidade LGBTQ+. Desde a adolescência, Michael é apaixonado por seu melhor amigo Brian.

Michael, Brian e Justin
Michael, Brian e Justin

Leia aqui sobre outra série com essa temática

Já Brian, por sua vez, é um executivo bem-sucedido, extremamente disputado na cena gay local. Ele é promíscuo e sai toda noite com um homem diferente. E embora perceba que Michael gosta dele, não retribui sua atenção, ao mesmo tempo que não larga o amigo e nem admite que ele arrume outras pessoas.

Isso tudo muda quando ele conhece Justin, um garoto de 17 anos, que descobrindo sua homossexualidade, resolve sair e encontrar alguém que o interesse. Ele encontra Brian e se apaixona imediatamente, embora também não seja retribuído a princípio. Emmett e Ted, funcionam mais ou menos como dois coadjuvantes, embora façam parte do elenco principal, e eles complementam o grupo de amigos.

Personagens não estereotipados

Um dos grandes acertos de Queer as Folk são os personagens que estão completamente fora do estereótipo de personagens homossexuais da época. Aquele que mais se aproxima dessa ideia é Emmett, que é extremamente afeminado e se interessa por festas e moda, mas mesmo ele, vai se mostrando um personagem bem mais profundo, com muitas outras questões. A personalidade de Justin também pode apresentar alguns aspectos clichês, uma vez que ele é o típico twink, um garoto jovem que sai com homens mais velhos.

Os quatro protagonistas
Os quatro protagonistas

Já Michael é um nerd, fã de quadrinhos e de super heróis, dono de uma loja que vende edições antigas de HQ e, em determinado momento da série, com a ajuda de Justin, que é desenhista, até cria um super herói gay. Brian é um executivo bem-sucedido que, embora seja assumido entre os amigos, não é tão seguro no trabalho. Ted é um contador tímido e com baixa autoestima, que vive sendo rejeitado por outros homens e que inveja a confiança de Brian.

Só o fato da série ter cinco personagens gays já é um grande avanço, uma vez que mesmo nos dias de hoje, boa parte das séries tem um ou no máximo dois personagens gays. A ideia de que nos anos 2000, uma série tenha protagonistas gays que fogem do estereótipo e que enfrentam outras questões para além de suas sexualidades é de fato muito inovadora.

Personagens secundários interessantes

Além dos seus cinco protagonistas, Queer as Folk tem uma série de personagens secundários, que são tão interessantes e bem escritos quanto os principais. Debbie, a mãe de Michael, é dona de um restaurante que atende majoritariamente a comunidade gay. Ela aceita o filho e participa ativamente da comunidade. Primeiro é preciso ressaltar o quanto é importante retratar uma personagem que não só aceita, como também tem orgulho do seu filho e do seu irmão, que são gays.

Michael e Brian mantinham uma relação de amizade não muito saudável
Michael e Brian mantinham uma relação de amizade não muito saudável

Assim, Debbie funciona como um contrabalanço a todos os outros pais da série, que não aceitam a sexualidade de seus filhos. Ela é uma mãezona para todos os amigos de Michael e para os frequentadores do seu restaurante. Aceitou Brian quando ele era mais novo e ainda não sabia como lidar com sua sexualidade; também aceitou Justin morando na sua casa quando seus pais (John Furey e Sherry Miller) o expulsam de casa e ela, inclusive, dá uma lição de moral na mãe de Justin, em determinado momento da série.

Vic, o tio de Michael, funciona como uma maneira de mostrar como era a vida dos homossexuais antes dos anos 2000, uma vez que ele é assumido há um tempo. Ele também é portador de HIV e é uma ótima forma de demonstrar que a doença não é uma sentença de morte e que é possível viver com ela, com os devidos cuidados. Mais tarde, somos apresentados a Ben (Robert Gant), outro homem que vive com HIV e que está bem longe dos estereótipos ligados à doença, inclusive nos aspectos físicos, uma vez que ele é um atleta com um corpo forte e visivelmente saudável.

Queer as Folk tinha cenas quase explícitas de sexo
A série tinha cenas quase explícitas de sexo

Tem mais!

A série também apresenta Lindsay e Mel, um casal lésbico que deseja ter uma família. Lindsay está grávida do primeiro filho do casal que é fruto de uma inseminação artificial com o material cedido por Brian, melhor amigo de Lindsay desde a época da escola. Nenhuma das duas é masculinizada ou tem profissões que são geralmente ligadas à mulheres masculinizadas.

A série ainda é inovadora no seu conceito de família, uma vez que Debbie acolhe não só seu filho, como seus amigos e outros garotos que aparecem no seu restaurante; e Lindsay, Mel, Brian e Gus (Logan Hoover), o filho biológico de Lindsay e Brian e filho adotivo de Mel, formam uma família na sua medida.

Outros assuntos abordados

Em suas cinco temporadas a série abordou diversos assuntos, alguns que dizem respeito especificamente a comunidade LGBTQ+ e alguns que são questões universais. Queer as Folk no entanto, sempre pareceu disposta a ensinar e, pelo menos, tentar quebrar alguns preconceitos.

Justin e Brian
Justin e Brian

A série falou sobre se assumir, uma vez que tinha muitos personagens assumidos, e Justin, que estava se assumindo na primeira temporada, e alguns personagens como Brian, que embora fosse assumido e orgulhoso na comunidade gay, era enrustido no ambiente de trabalho, o que levou a série a examinar o preconceito no local de trabalho.

O casamento entre pessoas do mesmo sexo, abuso de drogas, inseminação artificial, adoção por casais gays, violência contra a comunidade LGBTQ+, homofobia, preconceito, sexo casual, o hábito das saunas, a vida com HIV e relações românticas e sexuais que envolvem pessoas que tem HIV e pessoas que não tem, assim como pessoas que procuram parceiros com HIV para se contaminarem, a indústria da pornografia, prostituição de menores de idade e até o medo de envelhecer são assuntos que apareceram na série.

Isso quer dizer que Queer as Folk era perfeito?

Claro que não. Mesmo que a série fosse muito inovadora e buscasse acabar com preconceitos, ela também tem questões que envelheceram mal ou que foram tratadas de maneira errada. Se por exemplo, o fato de Hunter (Harris Allan) se prostituir sendo menor idade é tratado como um absurdo e visto com maus olhos por todos, a relação de Brian e Justin, que começa quando o segundo tem apenas 17 anos é pintada como bonita e quase ideal, quando na realidade, as duas questões são problemáticas quase pelos mesmos motivos.

Randy Harrison como Justin Taylor
Randy Harrison como Justin Taylor

A série também bate muito na tecla de um suposto ódio entre as personagens lésbicas e os personagens gays, representada principalmente por Mel e Brian, que brigam pela atenção de Lindsay e de Gus, que é recheada de piadas homofóbicas e estereotipadas pelos dois lados. Se Brian e Mel não se gostam, o que é razoável, a relação dos dois personagens pode ser pautada nisso, mas essa questão não deve contaminar todas as relações que envolvem homens gays e mulheres gays da série.

GLS?

Como em 2000 a sigla LGBTQ+ ainda nem tinha sido cunhada, a série deixa de lado personagens que não são homens gays, brancos e dentro do padrão. Não existem personagens transgêneros, nem queers, nem bissexuais – boa parte dos personagens nem acredita que existam pessoas bissexuais – e nem não binários. Também não existem personagens negros. Embora seja possível argumentar que em 2000 não se falava de tantas categorias e que falar de homens gays já fosse um grande passo, o fato de não ter personagens negros é um grande problema dentro de uma série que se propõe a falar de minorias.

Também existem poucos personagens heterossexuais. Eles são representados em grande parte por Debbie e suas eventuais relações e Daphne (Makyla Smith), a melhor amiga de Justin. Essa questão pode ser desculpada uma vez que a série se propõe a falar de personagens gays, mas é até meio difícil acreditar que os personagens não tenham amigos heterossexuais.

Queer as Folk abordava temas como homofobia, inseminação artificial, casamento gay e adoção de pessoas do mesmo sexo
A série abordava temas como homofobia, inseminação artificial, casamento gay e adoção de pessoas do mesmo sexo
O legado de Queer as Folk

No entanto, a série ainda é um marco importante não só para a comunidade LGBTQ+, mas também para a televisão. Ela foi a primeira a ter majoritariamente personagens gays e dar a eles o papel de protagonistas, o que era impensável antes.

Queer as Folk também foi a primeira série a mostrar uma cena de sexo simulado entre dois homens na televisão americana. E havia cenas de nudez masculina em uma época onde a grande maioria das cenas de nudez eram femininas e apresentadas apenas no cinema. A série é naturalmente voltada para o público gay masculino, mas acabou atraindo uma série de fãs mulheres, heterossexuais e homossexuais.

O criador da série inglesa original, Russell T. Davies seguiu produzindo conteúdo LGBTQ+, entre eles a série Bob & Rose, que acompanhava um homem gay que se casava com um mulher heterossexual, Mine All Mine, que embora não fosse diretamente sobre personagens gays, tinha representação, e mais recentemente Cucumber, Banana e Tofu, três minisséries interligadas que abordavam homens gays na meia idade e que dessa vez, apresentavam personagens homossexuais, heterossexuais, transgêneros e queers, de raças diferentes.

Debbie, a mãe de Michael em Queer as Folk
Debbie, a mãe de Michael

Conhece nossa sessão de musicais?

O legado que Queer as Folk deixa para a produção audiovisual é enorme e está diretamente ligado à maneira com que os personagens gays são representados nos dias de hoje. Atualmente é praticamente impensável fazer uma série sem que exista pelo menos um personagem gay, mesmo que ele seja coadjuvante, e essa é uma herança direta de Queer as Folk.

A série ainda foi a mãe de todas as outras séries que vieram depois e que retratam protagonistas gays, como Special, Please Like Me, EastSiders, Looking e até The L Word, que é uma série no mesmo molde de Queer as Folk, mas que tem como protagonistas mulheres homossexuais e bissexuais.

Queer as Folk é uma série que apresenta protagonistas gays que passam bem longe do estereótipo. Tendo feito isso nos anos 2000, abriu caminho para várias produções que vieram depois. Além disso, a série tem uma boa trama, que aborda temas importantes e personagens bem escritos, de quem é impossível não gostar.

Nome Original: Queer as Folk
Elenco: Gale Harold, Hal Sparks, Randy Harrison, Peter Paige, Scott Lowell
Gênero: Comédia, Drama
Produtora: Cowlip Productions
Disponível: Via torrent?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fechar
Fechar