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Altered Carbon, a escalada mais suja da raça humana

Adaptação da obra de Richard K. Morgan, publicada por aqui ano passado pela Bertrand Brasil, a trama é ambientada em um mundo futurista onde a consciência humana é armazenada em pequenos implantes — chamados de ‘cartuchos’ — que podem ser transferidos de um corpo para outro, efetivamente inutilizando a morte e reduzindo o corpo humano a um receptáculo. É nesse contexto que surge Takeshi Kovacs (interpretado por Will Yun Lee em uma era passada), um rebelde insurgente que é revivido 250 anos após sua morte em um novo corpo (Joel Kinnaman, na melhor atuação de sua carreira até aqui) para investigar o misterioso assassinato do milionário imortal Laurens Bancroft (de um inspirado James Purefoy). 

Quem leu o primeiro livro, garantiu que a série manteve a fidelidade ao material original, por isso os méritos vão principalmente para Morgan, que conseguiu conceber um mundo impressionante de tecnologia futurista provável, que vai muito além da boa sacada dos cartuchos e das ‘capas’ (os corpos descartáveis e reutilizáveis), apresentando ainda vírus condizentes com a realidade, alguns módulos de adrenalinas e drogas, escala social, evoluções através de implantes de próteses, curiosas ideias para inteligências artificiais, sistema político e religioso, as viagens planetárias, a aplicação da lei etc, investindo de maneira certeira em colocar as questões trazidas pela “alta tecnologia e baixa qualidade de vida” no holofote, em um universo cyberpunk fiel, imundo e brutal.

O roteiro é isento de furos e todas as pontas soltas se amarram durante os 10 episódios. Com tantos personagens e subtramas surgindo a todo momento, é notável que em alguns momentos a trama vacila, facilitando caminhos, mas isso ainda não chega a ser um pecado narrativo, que compensa com ótimas sequências de ação, imersão do cenário incrivelmente bem concebido (Bay City tem vida própria, basicamente falando), com regras de mundo que respeitam os detalhes estabelecidos e mistérios menores que se trombam o tempo todo, eventualmente o caso se revela como parte de algo maior. Mesmo em uma cidade vibrante e colorida, com muito neon e carros voadores (que não poderiam faltar!), a série foca na problemática vida da superfície, repleta de crime e sujeira. Usando o assassinato do Matusa como ponto de partida, a narrativa mostra um mundo onde a ausência da mortalidade indica a perda da humanidade, agravando as diferenças sociais e econômicas e criando uma verdadeira guerra silenciosa — porém muito violenta — entre as várias camadas da sociedade.

A produção não abre mão dos clichês do gênero. Eles estão todos ali, colocados de maneira desavergonhada, porém brilhante (o casal que começa se odiando; o parceiro de minoria com background para o segundo plot; a polícia corrupta; o vilão oculto; o upgrade deus ex machina que ajuda a expandir a diversão no momento certo etc). Por outro lado, também existe um equilíbrio no roteiro, que surpreende o espectador a quase todo momento (o 7º episódio é de longe o melhor da temporada, bem continuado num 8º tão bom quanto), com reviravoltas chocantes, revelações realmente inesperadas, detalhes que estavam expostos mas nós não nos permitimos ver num primeiro momento, um núcleo familiar improvável e um desfecho, que ainda parece novelesco e com happy end, na verdade é carregado de tragédia emocional.

Para os mais conservadores, fica o aviso: a série não se prende nem se perde em tabus, mostrando nus frontais masculinos e femininos e cenas pesadas de violência, mas nada que os diretores mais ousados de Hollywood já não tenham feito (mas não se engane, nada é gratuito aqui, inclusive o livro também segue nessa estética). A mim, ficou evidente que a produção será uma antologia, com novos atores e outras tramas nas futuras temporadas (quem leu a continuação — que será lançada esse ano no Brasil — pode confirmar isso melhor), mas o final não parece abrir possibilidades para reencontrarmos esses cativantes personagens.

Altered Carbon é um prato cheio para os fãs do cyberpunk e mostra uma bem-vinda ousadia da Netflix em investir num subgênero que quase sempre falhou no audiovisual (mesmo com produções excelentes, como os dois Blade Runner, e o imbatível Matrix, entre outros poucos), que não só deixa um gosto de quero mais por mais temporadas, como também abre portas para que tenhamos mais séries do tipo. Por favor, espero que sim!

Altered Carbon

Universo cyberpunk da melhor qualidade, com cenário fundamentado, questões sociais e existenciais expostas sem pudor, no melhor da história de detetive noir em mais um espetáculo exclusivo da Netflix.

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Douglas MCT

Douglas MCT já escreveu para os gibis da "Turma da Mônica", roteirizou o desenho animado "Galera Animal" da TV Globo, participou do enredo do game "Chico Bento" para as redes sociais, é autor dos quadrinhos “Edgar Alan Corvo”, "SUPER" e “Hansel&Gretel”, e dos livros "O Coletor de Almas" e da série "Necrópolis".

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