Batman: O Longo Dia das Bruxas – Editora Abril

de Jeph Loeb e Tim Sale (minissérie em 8 edições)

Lançado originalmente nos EUA entre 1996 e 1997, a minissérie Batman: O Longo Dia das Bruxas, em 8 partes, foi primeiramente lançada no Brasil entre 1998 e 1999 pela Editora Abril, depois relançada pela Panini em 2008 e em 2015, onde Jeph Loeb prova seus conhecimentos sobre o homem-morcego, realizando uma das melhores histórias desse personagem (que nem de longe é meu super-herói predileto, do qual só aprecio poucas tramas fechadas, aqui e ali, diga-se de passagem).

Para tal, o roteirista recorreu a uma fórmula clássica para enredos de suspense: um assassino em série misterioso, figuras torpes mas bem intencionadas tentando detê-lo, muitas pistas falsas e uma conclusão trágica, com reviravoltas mirabolantes.

Resgatando o lado detetivesco do herói (o único que, de fato, realmente funciona com o Batman, sejamos francos), Loeb consegue brincar com a maior parte de sua galeria de vilões, ao mesmo tempo que não se cansa de referenciar “O Poderoso Chefão” sempre que tem uma oportunidade (Carmine Falcone é Vito Corleone escarrado), sabendo dar uma voz única para cada personagem que surge, dos mais importantes aos meros coadjuvantes, sem nunca deixar de apontar para os problemas menores, que servirão depois de respostas para o grande mistério.

Batman: O Longo dia das Bruxas

Batman: O Longo Dia das Bruxas

Em uma história fechadinha e bem desenvolvida, o autor mantém a essência do homem-morcego, cria um inimigo singular (Feriado só mata mafiosos e não é tão inventivo assim nos assassinatos, mas o uso das datas de feriados para isso cria oportunidades narrativas interessantes para seu perseguidor). É formidável como Loeb consegue criar esse vínculo entre o trio Batman/ Jim Gordon/ Harvey Dent, suas percepções sobre a lei, sobre punições e alguns princípios conflituosos, e como uma coisa leva à outra, nesse circo que é Gotham, e na linda e terrível derrocada de uma nobre figura.

Christopher Nolan bebeu fortemente dessa fonte para seu segundo filme e também um dos melhores já realizados na história: “O Cavaleiro das Trevas” – está quase tudo ali, a trinca de homens da justiça, a sujeira incontornável de Gotham seja nas mãos da máfia, seja na mão de policiais corruptos, a formação do Duas-Caras, a atmosfera mais realista etc.

E Tim Sale brilha esplendorosamente com seu traço único e potente, imprimindo muita personalidade nas grandes composições narrativas, seja nos painéis detalhando um tribunal, seja nas partes sombrias do Arkham ou pelos becos de Gotham, seja brincando com as piruetas super-heróicas da Mulher-Gato aqui, do Coringa ali, das cenas de ação que o Batman executa, tudo em seu estilo provoca o leitor com ousadias nos enquadramentos, nos planejamentos de grid, com personagens quase sempre saltando das páginas com muita vida e organicidade e, inevitavelmente, evocando Frank Miller quando no auge, na história definitiva do homem-morcego, a também “O Cavaleiro das Trevas”. Sempre achei Sale e Miller irmãos de traço e essas similaridades são bem-vindas em mais uma boa trama do personagem.

Edição gourmet

Quadrinhos mais roots

E por mais que as edições gourmet e caprichosas da Panini possam trazer todo o luxo, as lombadas vistosas e extras que ninguém lerá, parte do charme dessa minissérie é lê-la como ela foi pensada: em parte, especificamente, 8 edições. Comecei na virada do ano e vim até o começo de janeiro, sem pressa, um pouco por vez, saboreando cada volume com uma curiosidade crescente, até sua conclusão rocambolesca, que é polêmica até hoje entre muitos dos fãs. Sinceramente? Não vejo problema algum com o desfecho, que começa apontando pra um, depois se “revela” sendo outro, para então vir com a verdade em sua última página, trazendo no pacote uma desculpa esfarrapada.

Acontece que, para começar, nenhum final deve servir de julgamento para o todo da obra. Realmente, o que vale é a experiência de leitura. Se o final for catártico, bem elaborado e bem executado, melhor ainda. E por isso, Batman: O Longo Dia das Bruxas não sobe no topo de uma obra-prima, mas acerta na trave, porque gostemos ou não, Loeb se manteve fiel à sua premissa e às suas referências, onde uma figura comum e completamente improvável é responsável pelos crimes mais cruéis. Foi um tiro no escuro, sim, que poderia ter matado toda sua narrativa, mas não matou. A minissérie ainda é um clássico, inspirou o melhor filme do Batman já feito e segue sendo lembrada por leitores gerações após gerações.

Independentemente de seu desfecho divisivo, o poder de uma boa história reside na marca que ela deixa em seu leitor. E essa deixou.

Batman: O Longo Dia das Bruxas

Nome Original: Batman: O Longo Dia das Bruxas
Autor: Jeph Loeb e Tim Sale
Editora: Editora Abril
Gênero: Quadrinhos
Ano: Década de 1990
Número de Páginas: A edição definitiva tem 400 páginas

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