Black Mirror conseguiu superar a si mesmo?

A Netflix lançou a quarta temporada de Black Mirror e junto com ela, seis episódios que trazem mais um gostinho para os fãs de ficção científica, confira o que achamos das histórias dessa temporada:

Primeiro Episódio: U.S.S. Callister

O episódio de estreia da aclamada quarta temporada da antologia Black Mirror usa a batida paródia a Star Trek para falar sobre insatisfação, idealização e abuso, recorrendo a recursos já vistos em Matrix, mas também facilmente identificáveis no mundo dos games. O escape da chata realidade para um cenário onde você é um deus ou um líder e transforma seus bullies em saco de pancada. Assim, Jesse Plemons e Cristin Milioti conduzem bem o jogo de contraponto entre duas figuras distintas, em dois planos diferentes (o real e o virtual, onde se desenrola a tensão — cada qual com sua paleta, da desbotada e crua, para a colorida e vibrante). No final das contas, a reflexão é bem executada e o episódio acaba por saber equilibrar uma autêntica aventura com aspectos da inquietação humana, mas é o tipo de história que faz muito mais sentido se você for trekker, para caçar todos elementos comuns à clássica série, mas para isso já não temos The Orville? Precisaríamos de mais um? De qualquer maneira, não tenho qualquer paixão por Star Trek, então U.S.S Callister chega até a beira da margem para mim.

Segundo Episódio: Arkangel

A premissa desse segundo episódio é mais interessante do que a execução do mesmo. Jodie Foster dirige com intensidade a história de uma mãe que fica obcecada pela vida da filha, mostrando a fase da infância até a adolescência e as consequências disso, em uma tecnologia possível, envolvendo uma ideia de janela implantada na mente, que permite ao pai enxergar através dos olhos do filho e optar por censurar ou não alguns detalhes, algo que a personagem de Rosemarie DeWitt realmente faz, mas depois descarta, ao notar que deixar a criança sem senso de perigo, pode ser ainda mais perigoso. O papel da mãe, aliás, se fundamenta desde o começo, com o parto complicado, e um tempo depois, com o quase desaparecimento da filha, o que serve de gatilho para ela tomar a inquietante decisão.

A vida passa e muda, o que traz novos elementos na rotina da menina, agora interpretada por Brenna Harding, o que culmina em atos que nenhum pai gostaria de ver, mas é tão intrínseco a idade, que acaba gerando um efeito de manipulação que não termina bem. Sendo assim, o episódio cumpre bem a tarefa de propor uma tecnologia possível, com atuações competentes cheio de gravidade, mas entrega um desfecho muito aquém do que poderia ter sido, com um surto de violência pouco justificado pelo background dos personagens. Foster parece querer forçar uma agressividade para justificar a escolha e a fuga, mas não se resolvem bem com isso. De qualquer maneira, o tema foi colocado a mesa e ele é importante de ser debatido.

Terceiro Episódio: Crocodile

Uma instigante trama noir se desenvolve aqui, onde cada ato é um caminho sem volta e intrinsicamente humano, da pessoa que, ao cometer um grave erro, entra numa espiral de problemas, derrubando todos os dominós pelo trajeto, em uma história perturbadora e desagradável, no melhor sentido narrativo da palavra.

O uso da tecnologia provável aqui, vai de uma seguradora, que acima da lei (como muitas corporações atualmente também são) possuem acesso a dados pessoais e conseguem ultrapassar algumas barreiras — aqui no caso, o da memória, que usa de efeitos sensoriais reais para funcionar, o que desencadeia uma improvável e interessante história de detetive, se não fosse seu desfecho trágico, de sabor amargo.E não há vitoriosos ao fim da sessão. Somente um atípico aperto no coração.

Quarto Episódio: Hang the DJ


Usando aplicativos de relacionamentos, na eterna busca por uma transa ou uma relação, este episódio também metaforiza a idealização do romance, na busca máxima do ser humano por um final feliz e acerta não somente na utilização da tecnologia, como no âmbito humano.

Georgina Campbell e Joe Cole estrelam o episódio e têm a química necessária para envolver o espectador, que vai torcer para que eles fiquem juntos, mesmo com o moderno (e de certa maneira, possível) aplicativo usando probabilidades para desenvolver o par ideal — sendo assim, cada envolvido com o sistema, antes entra numa espiral de relacionamentos imperfeitos, em tempos aleatórios definidos pela programação (que precisam ser cumpridos a qualquer custo), antes de achar a pessoa certa para sua vida. Hang The DJ acerta no tom justamente ao tocar no lado emocional, com um casal simpático cheio de sorrisos e piadinhas bobas, que vão adicionando os ingredientes que determinam a cumplicidade entre duas pessoas. É uma construção bonita, que foge da idealização, e fala com propriedade do que pode unir ou separar um casal.Sem deixar de lado a parte curiosa da nova tecnologia, este episódio por ora, é o que mais se aproxima da essência que definiu o sucesso de Black Mirror e é tão incrível como outras histórias marcantes da antologia, mas pelo menos dessa vez, fornece um desfecho feliz, quase irreal, mas necessário dentro da proposta do que o ser humano busca para si.

Quinto Episódio: Metalhead

Usando uma estética preto e branco para remeter a filmes de ficção científica e terror dos anos 50, este quinto episódio da quarta temporada de Black Mirror acerta ao estabelecer o tom de um típico “filme de perseguição”, nos melhores moldes do formato, mas não consegue se justificar enquanto obra da antologia, que sempre exige uma reflexão pelo uso da tecnologia em nosso meio social.Veja só, temos ali um robô com inteligência artificial, a maneira de como muitos tem surgido nos últimos anos. A produção consegue subaproveitar essa realidade em favor do enredo, ao esconder detalhes da trama (que realmente não importam, mesmo quando são reveladas no desfecho), usando como mote um cenário pós-apocalíptico para desenvolver o sufoco que a personagem e única sobrevivente de um saque, Maxine Peake, passa durante a perseguição de um cão metálico praticamente imbatível.Seus momentos lidando como pode com a criatura são bem inventivos e em nada perdem para outros enredos do gênero, ainda mais nas cenas da árvore e da mansão. Mas no escopo geral, este episódio é o que mais se distancia do que Black Mirror se propõe e não reflete muito além sobre o mal uso da tecnologia em favor do homem, a não ser, talvez, na evolução inevitável das máquinas.Nesse ponto, Metalhead é muito mais impactante para a nossa realidade, do que um Exterminador do Futuro, por exemplo. Ainda que, se olharmos mais de perto, os robôs de quatro patos que vêm sendo realmente desenvolvido por humanos, conseguem ser ainda mais assustadores.

Só que de Black Mirror mesmo sobra pouco aqui, nessa que é uma trama mais laboratorial do que essencial para o todo.

Sexto Episódio: Black Museum

De longe o melhor episódio desta quarta temporada, Black Museum reúne todos os elementos responsáveis pelo grande sucesso de Black Mirror no imaginário popular contemporâneo.

Usando a figura clássica do “anfitrião”, incrivelmente interpretado por Douglas Hodge, o sexto e último episódio coloca três pitorescas histórias de horror cyberpunk (que poderiam, cada uma, render um belo episódio a parte), para narrar uma trama maior, que culmina num intrincado projeto de vingança. Letitia Wright interpreta otimamente a visitante aparentemente desavisada que chega ao local em uma manobra inoportuna do acaso. A trama se desenrola através das histórias que o responsável pelo museu perdido no meio da estrada conta sobre os artefatos mais macabros do local, sempre com a atmosfera assustadora de adultos contando histórias de terror para crianças, e em moldes que nos remetem aos pais e avôs desta série: Além da Imaginação e Contos da Cripta. Passando por um conto de um cirurgia que utiliza um capacete capaz de transferir as sensações de seus pacientes, indo para o abrigo de mente dentro de outro corpo em uma história de casal, culminando no fantasma digital como peça de circo macabro, Black Museum não só aborda bem os temas de preconceito (como a série sempre soube fazer), como também consegue homenagear Frankenstein e ainda abordar cada tecnologia possível com exímia habilidade, a medida que estabelece ícones imutáveis para a cultura pop atual, em um terror moderno, com atuações singulares e um roteiro praticamente perfeito.Black Museum fecha com chave de ouro a última temporada de Black Mirror, se encimando entre os cinco melhores episódios, em uma obra-prima divertida e assustadora.

Black Mirror 4ª Temporada

E01: U.S.S. Callister
E02: Arkangel
E03: Crocodile
E04: Hang the DJ
E05: Metalhead
E06: Black Museum

Black Mirror continua sendo um seriado acima da média, mostrando com criatividade o futuro e ao mesmo tempo, o presente.

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Douglas MCT

Douglas MCT já escreveu para os gibis da "Turma da Mônica", roteirizou o desenho animado "Galera Animal" da TV Globo, participou do enredo do game "Chico Bento" para as redes sociais, é autor dos quadrinhos “Edgar Alan Corvo”, "SUPER" e “Hansel&Gretel”, e dos livros "O Coletor de Almas" e da série "Necrópolis".

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