Buffy: A Caça Vampiros (1996 – 2003)

Uma série que subverte gêneros e esteriótipos

Buffy: A Caça Vampiros é uma série criada por Joss Whedon (O Segredo da Cabana e Os Vingadores), que teve sete temporadas, exibida de 1996 a 2003.

Na série acompanhamos Buffy Summers (Sarah Michelle Gellar), uma adolescente que deseja mais que tudo ser como as outras garotas. Mas na realidade ela é uma caça vampiros que deve proteger o mundo. E mais especificamente, a cidade de Sunnydale (localizada exatamente em cima da boca do inferno). Proteger contra vampiros, demônios e diversas forças malignas.

Para ajudá-la, ela conta com seu guardião, Rupert Giles (Anthony Head), e seus amigos Xander (Nicholas Brendon) e Willow (Alyson Hannigan), que também é uma poderosa bruxa.

O elenco principal em uma das primeiras temporadas da série
O elenco principal em uma das primeiras temporadas da série

Origem

Buffy: A Caça Vampiros foi escrito originalmente como um filme. O roteiro de Whedon foi muito elogiado. Então, foi levado às telas em 1992, dirigido por Fran Rubel Kuzui, e o resultado não agradou seu criador. Whedon via o filme como um terror, com uma personagem feminina forte. Mas para Kuzui o filme era uma comédia sobre o conceito que as pessoas fazem dos vampiros. Então o filme foi um fracasso e Whedon arquivou sua ideia.

Luke Perry e Kristy Swanson no filme de 1992
Luke Perry e Kristy Swanson no filme de 1992

Alguns anos depois, a Fox entrou em contato com Whedon. Eles resolveram produzir a história dele em forma de série e de uma maneira mais fiel à ideia original. Buffy: A Caça Vampiros estreou então nos Estados Unidos no dia 10 de março de 1997. E não se esperava que fosse um sucesso. No entanto, ela acabou se tornando um fenômeno ao longo dos anos.

Buffy: A Caça Vampiros era uma série que misturava o terror com elementos da adolescência. Seus episódios eram parecidos com o estilo de Arquivo X, porque usavam como base a ideia de “o monstro da semana”. O que consiste basicamente nos personagens enfrentando um perigo em cada episódio. E no final da temporada, um perigo ainda maior.

Ao longo de suas sete temporadas, foram exibidos 144 episódios.

Willow e Buffy
Willow e Buffy

Subvertendo gêneros

Quando Whedon escreveu Buffy, ele tinha em mente a ideia de subverter o gênero do terror. Essa ideia ele repetiu, de maneira muito bem sucedida, em 2012, com O Segredo da Cabana. É obvio que se a série for assistida agora, os efeitos vão parecer ridículos e mal feitos. E muita coisa pode até soar como comédia, mas originalmente, a série era assustadora.

Durante suas sete temporadas, a série nos apresentou uma enorme diversidade de monstros típicos dos filmes de terror, como vampiros, múmias, demônios, lobisomens, bruxas, fantasmas e até entidades superiores. Todas essas criaturas embasadas nas suas lendas originais. Os vampiros, por exemplo, não saem durante o dia, fogem de crucifixos e são mortos com estacas.

Um dos episódios que tem como personagens principais as bruxas Willow e Amy (Elizabeth Anne Allen), tenta explicar o que aconteceu em Salém na época da queima às bruxas e ainda revisita o conto de fadas de João e Maria.

Sarah Michelle Gellar como Buffy Summers
Sarah Michelle Gellar como Buffy Summers

Buffy

Mas a maior subversão da série ronda a sua protagonista. Buffy é a representação exata do que seria uma vítima ideal. Ela é uma garota de 15 anos, loira e alegre, que se encaixa perfeitamente no estereótipo de patricinha. Ou seja, é chefe de torcida e passa o dia no shopping fazendo compras. Nas palavras do próprio Whedon “A garotinha loira que entra em um beco escuro e é morta em cada filme de terror”.

Conforme vamos conhecendo melhor a personagem, percebemos que ela é muito mais poderosa do que qualquer vilão que possa aparecer na cidade e que seria potencialmente o mal feitor que a mataria no beco.

Buffy não tem nada de vítima

Não é à toa que a primeira cena do primeiro episódio da primeira temporada (Bem Vindo à Boca do Inferno), mostra Darla (Julie Benz), uma garota loira e aparentemente inocente invadindo a escola com um garoto. A ideia que o espectador tem é que o garoto fará mal a Darla. Mas então, descobrimos que, na verdade, Darla é uma vampira que atraiu o garoto para a escola, e não o contrário.

O elenco principal da quarta temporada
O elenco principal da quarta temporada

O que Whedon faz muito bem em Buffy: A Caça Vampiros é subverter completamente o estereótipo de “mulher ou garota frágil e indefesa” que foi muito popularizado nos filmes de terror dos anos 80 e 90. Buffy pode parecer a menina mais frágil e fútil de todo o mundo, mas na verdade, ela é predestinada a ser a caçadora, o que lhe dá poderes e forças enormes, além de grandes habilidades.

Personagens femininas fortes

Buffy: A Caça Vampiros é até hoje considerada uma série feminista e na época de seu lançamento, a protagonista foi considerada uma inovação em quesito de personagens femininas, que eram retratadas na maioria das vezes, como indefesas.

Claro que esse quesito nem precisa ser explicado quando falamos de Buffy, que é, ainda nos dias de hoje, uma das personagens femininas mais fortes da TV. Buffy é retratada como uma adolescente que gosta de sair, se divertir e fazer compras, mas que também tem um dever ancestral de salvar o mundo. Embora ela seja retratada muitas vezes como fútil, ou até tonta (e Willow, sua melhor amiga, é a inteligente, tímida e estudiosa), porque se interessa por moda e maquiagem, que é um estereótipo que a série não conseguiu quebrar, Buffy não tem nada de burra, muito pelo contrário, ela arquiteta planos e os realiza.

Spike e Buffy
Spike e Buffy

Buffy também é extremamente forte e sabe lutar

Ela tem habilidades que usa para enfrentar seres malignos, mas também para enfrentar assédios de garotos do colegial. Em uma das cenas que se passam em uma aula de educação física, enquanto Buffy finge que não sabe lutar para evitar chamar atenção, o garoto que luta com ela passa a mão nela. Ela, no minuto seguinte, o vira de ponta cabeça, o deixando sem entender o que aconteceu.

A série também não retrata Buffy como uma santinha tímida, embora sexo seja um assunto que demore um tempinho para aparecer. Ela gosta de sair e namorar. Antes de se envolver com Angel (David Boreanaz), seu par romântico mais conhecido, Buffy sai com outros garotos e os escritores não a julgam por isso.

Crítica: Teen Wolf

Ao longo da série, quando Buffy já é adulta, ela passa por diversos relacionamentos e em momento algum ela é considerada uma “vagabunda”. Pois a sexualidade de Buffy é mostrada de uma maneira natural e realista, sem a ideia de que a mulher deve “se preservar”. Buffy não é punida por seus criadores porque gosta de namorar.

Mas não é só Buffy a única personagem feminina forte da série. Whedon inclusive criou um número bem grande delas, o que é muito moderno para a época em que a série foi escrita e produzida.

Buffy e Kendra
Buffy e Kendra

A melhor amiga de Buffy, Willow, começa a série como uma menina tímida e estudiosa, que faz o possível para não ser notada. Mas ela se torna uma bruxa super poderosa, que é extremamente útil nos planos de Buffy para salvar o mundo. O que ela faz, duas vezes. Nas temporadas mais recentes, o público conhece Anya (Emma Caulfield), uma demônia que após se apaixonar por Xander, resolve manter sua forma humana e ajudar Buffy, se tornando assim, uma demonóloga; e Tara (Amber Benson), outra bruxa poderosa.

Mulheres poderosas

Só a ideia de que a caçadora que é responsável por proteger o mundo é necessariamente uma mulher já é extremamente feminista. Afinal, coloca nas mãos de uma mulher a proteção do mundo todo! Transforma essa personagem no que em outra obra seria um papel totalmente masculino.

Ao longo da série, conhecemos outras caçadoras, como Faith (Eliza Dushku), o exato oposto de Buffy; Kendra (Bianca Lawson), uma caçadora negra; Kennedy (Iyari Limon), uma possível caçadora que é gay; e na sétima temporada, diversas possíveis caçadoras que estão sendo perseguidas e serão treinadas por Buffy. Todas elas tem personalidades e habilidades muito distintas umas das outras. O que mostra que não é porque você tem a habilidade para ser caçadora que você tem a coragem para isso.

Não é só entre as mocinhas que temos personagens femininas fortes

Temos diversas criaturas que infernizaram Buffy por um tempo que são mulheres. Darla, por exemplo, a vampira que aparece no primeiro episódio da série; Amy, a bruxa que começa como amiga de Willow, mas acaba se tornando uma ameaça; e Drusilla (Juliet Landau), uma vampira que parece frágil, mas se torna a vilã de uma das temporadas.

Xander, Buffy e Angel
Xander, Buffy e Angel

Outro exemplo claro disso acontece em um episodio onde uma professora, que é o sonho de consumo da maioria dos garotos do colégio, se revela ser, na verdade, uma louva-deus gigante. E que como todas as fêmeas da sua espécie, arranca a cabeça do seu parceiro, após o ato sexual.

Os personagens masculinos da série por sua vez, não são tão fortes. Com exceção de Giles, que é o guardião de Buffy. Até mesmo Angel, que é um vampiro, se vê sem condições de atacar Buffy depois que se apaixona por ela. O mesmo acontece com Spike (James Marsters), que no começo faz tudo que Drusilla manda. Mais tarde, faz tudo o que Buffy manda. E Xander, o amigo de Buffy, que é o único da gangue que não tem nenhuma habilidade e que funciona na verdade, como um alívio cômico.

Personagens gays

Outro elemento que torna Buffy: A Caça Vampiros extremamente moderno é o fato de ter personagens gays. De fato isso demora um pouco para aparecer, mas lá pela quarta temporada (ou seja, 1999/2000), esse elemento já foi completamente incorporado à história.

Angel, a versão vampira de Willow e Buffy
Angel, a versão vampira de Willow e Buffy

Willow se descobre gay durante a série. Uma análise dos dias de hoje poderia classificar Willow como bissexual. Já que nas primeiras temporadas ela é apaixonada por Xander e posteriormente tem um relacionamento heterossexual com Oz (Seth Green) na terceira temporada. Mas a própria personagem se define como gay. A primeira vez que isso é mencionado é quando Willow encontra uma versão vampira de si mesma. Segundo a própria Willow, essa versão “é malvada, desrespeitosa e eu acho que um pouco gay”. Não é possível dizer se Whedon já tinha a intenção de que a personagem fosse homossexual desde esse episódio ou desde sua criação. Mas ele desenvolve o relacionamento de Willow e Tara, de maneira bonita e interessante.

Willow e Tara

Logo as duas já estão morando juntas e se assumem como um casal. O que é uma ideia surpreendentemente moderna para a época em que a série foi escrita. O relacionamento das duas também é aceito por todos os amigos, e ele nunca é um problema dentro da trama. Claro que as duas brigam e se desentendem como todo o casal. Mas essas brigas nunca fazem referência ao fato delas serem um casal homossexual.

Na sétima temporada, também conhecemos Kennedy, que é uma possível caçadora, que é gay, ou pelo menos bissexual. Antes disso, no entanto, assim que Faith aparece na trama, existe uma tensão homoerótica muito clara entre ela e Buffy. Tensão essa que se manifesta muitas vezes em forma de ódio, já que elas são exatos opostos, e tem seu auge em um episódio em que as duas trocam de corpo.

Tara e Willow
Tara e Willow
“Todo mundo que sobreviver à adolescência é um herói”

Outro conceito que permeia a série inteira é a ideia de que o grande vilão é a adolescência. A escola aonde Buffy e seus amigos estudam e aonde se passa boa parte das três primeiras temporadas, fica localizada em cima da boca do inferno. Certamente diz muito sobre o que o Whedon pensa dessa instituição. Isso faz com que aquele lugar, assim como o resto da cidade de Sunnydale, seja assombrado pelos mais diversos tipos de monstros. O que a série faz muito bem é relacionar esses demônios com problemas e desafios comuns à adolescência.

Quando Buffy perde a virgindade com Angel, por exemplo, a alma do vampiro muda e ele se torna mau. Parafraseando assim aquela ideia tão comum na adolescência de “ele mudou”. A série também fez episódios sobre diversos assuntos que fazem parte do universo dos adolescentes. Assim como a menina que se torna invisível e passa a assombrar a escola depois de ser ignorada e excluída repetidamente pelos colegas. Ou quando Willow, que recebe pouca atenção dos rapazes na escola, arruma um namorado virtual, que na verdade é um demônio preso no computador. Este é um episódio que fala muito com os dias de hoje sobre os perigos da internet. Ou sobre as meninas que fazem de tudo para entrar para o time de líderes de torcidas, inclusive rituais.

Buffy e Angel, seu par romântico mais famoso
Buffy e Angel, seu par romântico mais famoso

Depois da adolescência

Quando Buffy e seus amigos saem da escola, no final da terceira temporada, a série passa então a contemplar problemas mais adultos. Em um dos episódios dessa fase, por exemplo, acompanhamos Buffy no seu primeiro emprego, uma rede de fast food, onde ela descobre um problema um tanto quanto macabro no restaurante.

Nas temporadas mais recentes, os personagens principais já não podem mais ser considerados adolescentes. Por isso, acompanhamos em certa medida, a irmã mais nova de Buffy, Dawn (Michelle Trachtenberg), que é adolescente. Em um dos episódios ela faz um feitiço de amor para conquistar um garoto que ela gosta.

O Legado de Buffy: A Caça Vampiros

A série exibiu seu último episódio há mais de dez anos atrás. Mas ainda é citada quando se fala em obras com protagonistas femininas fortes. Buffy também influenciou diversas séries que vieram depois, como Dead Like Me,Supernatural, Smallville, Joan of Arcadia e Veronica Mars. Outras produções também se utilizaram de um dos motes de Buffy: A Caça Vampiros. O amor entre um vampiro e um mortal. Entre elas estão Moonlight, True Blood e The Vampire Diaries.

O elenco na comemoração de 20 anos da série, em 2017
O elenco na comemoração de 20 anos da série, em 2017

A criação de Whedon também foi a primeira obra sobre vampiros a ser voltada para o público adolescente. O que depois se tornaria uma febre com a série de livros (e depois filmes) Crepúsculo, de Stephenie Meyer.

Buffyverse

O universo de Buffy: A Caça Vampiros e Angel (série que durou de 1999 a 2004 e que acompanhava o personagem Angel depois que ele saiu de Buffy) ficou conhecido como Buffyverse e vários spin-offs das duas séries foram considerados. Buffy The Vampire Slayer: The Animated Series, uma versão em desenho animado que seria dublada por todos os atores da série, menos Sarah Michelle Gellar; Faith The Vampire Slayer, que se focaria na personagem de Eliza Dushku; Ripper, que se focaria na juventude de Giles, o guardião de Buffy; e Spike, que seria um filme focado no personagem de James Marsters. Só que nenhum desses projetos saiu do papel. Mas a série ganhou uma oitava temporada, em forma de quadrinhos.

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Buffy: A Caça Vampiros: Oitava Temporada

Acompanhamos a personagem algum tempo depois do término da sétima temporada. Ela então lidera uma organização mundial de caçadoras, junto com Willow e Xander. A série mantém o tema que a fez famosa, a força feminina. Inclui então outros elementos, como a intromissão do governo nos projetos de Buffy e a popularização dos vampiros na cultura pop. O que torna as criaturas os mocinhos e Buffy, a vilã aos olhos do público. Temas que certamente combinam com os dias de hoje.

Embora tenha sido criada nos anos 90 e tenha efeitos especiais que envelheceram mal, Buffy: A Caça Vampiros traz temas que ainda hoje são discutidos e por isso, se mantém atual. A série nos traz diversas personagens femininas fortes e quebra clichês tão comuns ao gênero do terror.

Fernanda Cavalcanti

Formada em cinema, apaixonada por literatura, divide seu tempo livre entre ler, escrever e dançar. Gosta especialmente de terror, mas lê/assiste de tudo. Também escreve para o blog Além da Toca do Coelho.

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