Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos

Rodado ao longo de nove meses na aldeia Pedra Branca (Terra Indígena Krahô, no Tocantins), sem equipe técnica e em negativo 16mm, Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos acompanha Ihjãc, um jovem Krahô que, após um encontro com o espírito do seu falecido pai, se vê obrigado a realizar sua festa de fim de luto. Rejeitando seu dever e com o objetivo de escapar do processo de se transformar em xamã, ele foge para a cidade. Ali então ele enfrentará a realidade de ser um indígena no Brasil contemporâneo.

Ihjãc (pronuncia-se quase inhac) é um jovem indígena que está vivendo um momento de crise. Tudo começa quando ele sonha com seu falecido pai numa cachoeira. Os dois tem um diálogo que faz Ihjãc chegar à conclusão que está destinado a virar pajé. Mas ser pajé não está em seus planos. Ihjãc tem família constituída com Kôtô, outra indígena também muito nova. Os dois tem um bebê que, assim como todo bebê, dá um pouco de trabalho. Geralmente eles pedem ajuda ao avô de Kôtô, que canta para a criança.

Ihjãc conversa com o espírito de seu pai
Ihjãc conversa com o espírito de seu pai

Um filme sensível

Enquanto mostra o dia a dia de Ihjãc, o filme também nos traz a realidade dos povos indígenas brasileiros. Assim, vemos as famílias reunidas para colher alimentos, os rituais por que passam, as alegrias e as dificuldades. A aldeia Pedra Branca é composta de pessoas de todas as idades. Os mais antigos seguem o costume de não utilizar vestimenta, enquanto os mais jovens já gostam de se vestir. Podemos notar também que as modas da cidade invadem as tribos quando Kôtô passa o esmalte “Beijo Quente” e comenta “Tá todo mundo usando”.

Também podemos ver a ação do homem da cidade quando é citado o caso do político que ofereceu 10 reais àqueles que votassem nele. Como ninguém aceitou sua proposta, a placa com o nome da aldeia amanheceu repleta de buracos de bala. Patético… porém, real. Assim podemos ter uma ideia de como (infelizmente) nossa sociedade ainda lida com o povo indígena.

Kôtô pinta as unhas em Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos
Kôtô pinta as unhas

A fuga para a cidade

Quando Ihjãc desmaia e seu diagnóstico é estar realmente se tornando pajé, o rapaz corre para a cidade, pois não sente que este deveria ser seu destino. Ele simplesmente se sente doente e cansado. Enquanto isso, toda sua família segue com a finalização do período de luto. Este culmina em uma grande festa com muita mandioca e cantorias. Esse ritual faz com que acabe a saudade do falecido e ele possa seguir para a aldeia dos mortos.

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos é 90% falado na língua indígena dos Khahô, o Timbira. Bem diferente de tudo que estamos acostumados a assistir, o filme é de uma sensibilidade tamanha. Com planos lindos onde a luz da lua ilumina a cachoeira, ou quando vemos a arara que segue o protagonista pela primeira vez no reflexo da água. Esta obra levou os prêmios de Melhor Direção e de Melhor Fotografia no Festival Internacional de Cinema do Rio. Após fazer sua estreia mundial em Cannes 2018, onde ganhou o Prêmio Especial do Júri da mostra Un Certain Regard do festival francês, o filme foi exibido também na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Ihjãc conta a Kôtô sobre o medo de virar pajé
Ihjãc conta a Kôtô sobre o medo de virar pajé

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos

As filmagens foram precedidas por uma longa relação de Renée Nader com o povo Krahô, que se iniciou em 2009. Desde então, a diretora trabalha com a comunidade. Ela participa na mobilização do coletivo de cinegrafistas e fotógrafos indígenas Mentuwajê Guardiões da Cultura. O trabalho do grupo é focado numa utilização do audiovisual como instrumento para a autodeterminação e o fortalecimento da identidade cultural. Em 2014, João Salaviza conheceu os Krahô e, juntos durante longas estadias na aldeia, começaram a imaginar o que viria a ser o filme.

O filme é inspirado na história real de um desses jovens cineastas indígenas, que em uma das nossas viagens à aldeia, começou a se sentir fraco e assustado porque um pajé tinha jogado um feitiço nele. Se ficasse na aldeia, ele achava que iria morrer, então fugiu para a cidade. Este caso, que acompanhamos muito de perto, foi o disparador. Depois, com a nossa convivência na aldeia, participando da rotina da comunidade, o filme começou a ganhar novos contornos. Quando finalmente decidimos que Ihjãc seria o protagonista, ele também trouxe todo o seu núcleo familiar, suas questões cotidianas e sua maneira muito particular de se relacionar com o mundo. Então, o filme foi se moldando, ancorado numa forte presença de elementos reais. Tendo o dia a dia na aldeia, naquele núcleo familiar específico. Queríamos filmar a intimidade daquela família, diz Renée Nader.

Ótima chance de conhecer mais sobre a cultura indígena

O filme é quase um documentário, pela forma como são exploradas as tradições indígenas e pelo fato de não haver atores profissionais ali. Por isso mesmo, é tão bonito de ver essa história que vai fluindo naturalmente e precisa de visibilidade, mais do que nunca. Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos estreia dia 18 de abril, mas caso você seja de São Paulo, pode aproveitar a pré estreia com debate no dia 16 de abril no Instituto Moreira Salles, às 19h.

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos

Nome Original: Chuva É Cantoria Na Aldeia Dos Mortos
Direção: Renée Nader Messora e João Salaviza
Elenco: Henrique Ihjãc Krahô, Raene Kôtô Krahô
Gênero: Drama
Produtora: EntreFilmes
Distribuidora: Embaúba Filmes
Ano de Lançamento: 2018
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